
  Livro: Vida de droga

  Autor: Walcyr Carrasco
 
  3 edio
 
  Editora: tica

  Ano: 2003

  Livro dividido em 4 
volumes 

  Transcrito por: Anair Meirelles

  Ilustrado por: Tanara Bandeira

  Uso exclusivo dos alunos do Instituto Santa Luzia

  
  Srie Sinal aberto  para vida de droga

  Dora tem tudo o que uma garota normalmente quer: montes de roupas de grife e nada com o que se preocupar. Seu passatempo e pensar na casa maravilhosa que o pai vai construir e onde ela ter um quarto imenso, do tamanho dos seus sonhos. S que a vida lhe reserva uma surpresa nada agradvel: o pai perde o emprego, o dinheiro acaba e ela vai morar na periferia. Fim do conto de fadas.
  O choque, a revolta, as crises familiares, os novos amigos so a porta de entrada para um mundo que ela nem supunha existir: do primeiro baseado s drogas mais pesadas, ela trilha todos os caminhos rapidamente. 
  Percorrendo o submundo, expondo-se ao perigo e  degradao, Dora vai cruzar com toda sorte de pessoas que alimentam o consumo de drogas e se alimentam dele. S uma grande fora ser capaz de mudar o final dessa trajetria igual a tantas outras que se v por a diariamente.
  No final do livro, voc encontra uma entrevista com Walcyr Carrasco, os autos de Vida de droga, em que ele fala da experincia de escrever sobre um tema que muitos outros escritores preferem evitar.
  Acompanhe agora cada passo de Dora e se emocione com as suas desventuras e descobertas de que sempre  possvel encontrar luz no fim do tnel, por mais escuro e longo que seja.

  (p. 5)
 
  1

  Tinha tudo o que queria. Tomava sundae de chocolate no shopping, comprava jeans de grife, comia hambrguer com  fritas e colecionava cds dos cantores que amava. Muitas vezes se pegava pensando:
  -- Que vida boa!
  Bastava pedir, o pai comprava. A felicidade parecia relacionada ao que podia ter. Roupas, jogos, relgios e mil coisas sensacionais expostas nas vitrines dos shoppings e faiscando nos comercial de televiso. A me s vezes reclamava um pouco. Dizia que era exagero. Mas acabava concordando. Muitas vezes, no fim de semana, Dora e a famlia passavam horas num shopping. Ela entrava numa loja e gostava de um conjunto vermelho. Depois, ficava em dvida com o azul. Joel, o pai, decidia:
  -- Leve os dois.
  
  (p. 6)

  Cleusa, a me, achava que era exagero. O pai rebatia:
  -- Quero o melhor para a minha filha.
  Dora gostava de abrir o armrio, para contemplar os vestidos, abrigos, camisetas, malhas, tnis e sapatos enfileirados. Gostava de separar por cor. Andr, o irmo mais novo, s vezes fazia piada.
  -- D pra voc montar uma loja.
  Era verdade. Algumas  peas, Dora usava apenas uma vez. Outras nenhuma. Era s o entusiasmo na hora de comprar. Esquecia dentro do armrio. De vez em quando fazia  uma faxina com a me. Dava uma boa parte para a empregada. Assim, sobrava mais espao no armrio para as novas roupas que no paravam de chegar.
  As finanas da famlia iam cada vez melhor. Joel, de vento em popa no trabalho. Cleusa parara havia alguns anos para cuidar de Dora e do irmo. Prova disso eram os planos para casa nova. Muitas noites, Dora nem conseguia dormir pensando como seria.
  Os pais haviam vendido o apartamento onde moravam para comprar o terreno, em um condomnio de luxo. Era um condomnio todo fechado com muros, nos arredores de So Paulo. Dentro, s casas enormes, com terrenos gramados, muito jardim. Quase todos com piscina. A famlia se mudou para uma casa alugada, bem espaosa.  O arquiteto j estava contratado.
  Certas noites, pais e filhos se reuniam  mesa e discutiam como seria a casa nova.
  -- Quero  uma sute. Um banheiro s para mim, com banheira - exigia Dora. 
  -- Uma banheira s para voc  demais - discordava Cleusa.
  -- A Magda tem!
  O argumento era suficiente. O pai mandava o arquiteto remexer na planta. O quarto de Dora seria todo em cores bem leves. Os azulejos do banheiro, decorados  mo, com desenhos de flores. De certa forma, parecidos com os do banheiro de Magda. S que Magda morava em uma manso gigantesca. No tinha somente um quarto. Mas sala, closet, banheiro e terrao, alm do quarto propriamente dito. 
   
  (p. 7)

  Magda era a melhor amiga de Dora. Estudavam juntas num colgio particular de elites. Seus pais eram donos de uma grande fbrica de chocolate. Chegava todos os dias na escola numa perua importada com motorista. Em seu ltimo aniversrio, os pais haviam decorado o salo ao lado da piscina como se fosse uma casa noturna. No faltavam letreiros em non, e o bolo era enorme, com o rosto de Magda impresso no glac. Dora nem sabia que era possvel existir um bolo assim. Descobriu que havia uma empresa capaz de pegar a foto de uma pessoa e imprimi-la sobre o bolo. Foi uma festa inesquecvel.
  Os pais de Dora no eram to ricos como os de Magda. Ambos vinham de famlias remediadas.  A do pai tinha uma situao financeira pior que a da me. Por isso, ele dava tanta importncia a essas demonstraes de status. A casa espaosa, o carro importado, as compras no shopping eram um smbolo de seu sucesso pessoal. Como se ele batesse no peito e gritasse para o mundo:
  -- Vejam s at onde cheguei!
  Dos cinco irmos, Joel foi o nico a terminar uma faculdade. Vivia no interior de So Paulo, e durante toda a infncia viu a me dar o sangue para sustentar os filhos. Trabalhava dia e noite de caixa numa padaria, pois o pai, alcolatra, desaparecera no mundo. Mesmo depois de adulto, ao contrrio das outras pessoas, Joel sentia desagrado com o cheiro do po quente. Lembrava da me levantando quase de madrugada e chegando tarde da noite com um pacote de pezinhos na mo. Quando falavam do pai tambm desviava o assunto, envergonhado. Ningum sabia onde ele estava havia muitos anos. 
  Joel nunca fora totalmente aceito pela famlia de Cleusa. Donos de uma pequena loja no interior de Minas Gerais, os pais dela agiam como se desprezassem a famlia de Joel. Ele sentia um certo prazer em contar que nunca precisara dos sogros para nada. 
  -- Eu me formei  minha prpria custa - orgulhava-se nas rodas de amigos.
  Queria dar aos filhos tudo o que no tivera na vida. Dora e Andr estudavam numa escola particular, onde a maioria dos alunos era formada por filhos de empresrios e executivos de alto nvel. Dora no era nem um pouco diferente dos colegas. Todos eles comparavam os relgios, as roupas, os tnis.  

  (p. 8)

  Havia a marca certa e a marca errada. Quem estava por dentro, usava a certa. Seno os colegas olhavam com um arzinho de superioridade. A turma tambm dava importncia aos carros. Costumavam fazer piada do que a me usava, Por sorte, s vezes Cleusa emprestava o importado de Joel. Era um alvio.
  -- Adorei o carro do seu pai - sempre algum  comentava no dia seguinte. 
  Claro que no podia disputar com amigas iguais a Magda, que usava no pulso um relgio to caro quanto um carro zero quilmetro, com ouro e brilhantes. Mas tambm no era a pior de todas. Graas ao pai, tinha a roupa e o tnis com a grife da moda. Morava numa casa grande e bonita. Dora no contava a ningum que era alugada. Mesmo porque o aluguel seria s uma fase. Logo a casa no condomnio comearia a ser construda, como planejavam Joel e Cleusa. Teria piscina, lareira, salas enormes, home theater, uma cozinha repleta de armrios. S pensar na futura casa, Dora sentia-se muito orgulhosa.
  A famlia costumava passear no condomnio. Admiravam as casas sendo terminadas. Os pinheiros crescidos. O pai punha a mo no ombro de Dora, carinhoso:
  -- Logo, logo, estaremos morando aqui.
  Durante a semana, nem Dora nem Andr costumavam ver o pai. Joel trabalhava muito. Saa cedo. Ao chegar em casa, os filhos j dormiam. Para compensar, alugava apartamentos na praia, quando fazia sol.. Corria com os filhos pela areia, catando conchinhas. O que no era nada fcil. Na maior parte das praias  muito mais simples encontrar garrafas vazias de refrigerante, sacos plsticos, palitos de sorvete e todo tipo de lixo. Joel comentava:
  -- Um  dia tambm teremos uma casa de praia.
  -- Quando pai, quando? Entusiasmava-se Dora.
  -- Depois de construirmos a casa nova - ele prometia.
  Com freqncia, nos fins de semana, iam tambm s casas de chefes e amigos de Joel, em churrascos feitos  beira de piscinas. Dora nunca se esqueceu de uma manso com uma piscina olmpica, toda em pastilhas azul-marinho. Fora construda especialmente para o filho do dono da casa treinar.
 
  (p. 10)

  Ouviu dizer que o rapaz queria ser nadador. Depois, tinha desistido de tudo. Fora viver no estrangeiro. Dora no entendia como algum era capaz de abandonar uma casa to sensacional. Nos almoos nessas manses, todos esbanjavam simpatia.  Mais tarde, no caminho de casa, o pai comentava, orgulhoso:
  -- Voc viu como o diretor tal e tal me tratou bem? 
  -- Eles gostam muito de voc - concordava a me. -- Seu futuro na empresa est garantido.
  Dora ouvia os pais falarem durante horas das atenes dos chefes. Chegava em casa orgulhosa. Seu pai era admirado. Subiria cada vez mais. Quem sabe? Um dia seriam to ricos quanto Magda. 
  s vezes, quando assistia televiso, Dora nem conseguia acreditar. Gente lutando por terra, gente vivendo na rua. Era como se estivesse em outro pas. No que fosse cega. Ao atravessar as ruas da cidade, de caro, via o que estava acontecendo l fora. Crianas pedindo nos semforos. Filas de gente para pegar nibus. Ouvia falar de assaltos. A me vivia com medo de violncia. S andava de caro com os vidros fechados. Dora via tudo de longe. Era confortvel saber que estava protegida contra tudo isso.
  Problemas cotidianos existiam. Mas ficavam pequenos quando pensava no futuro, com a bela casa, mais um caro zero na famlia, mais compras no shopping.
  Um dia, tudo mudou.
                                          
  2

  O pai chegou em casa mais cedo. Quando ouviu o carro na garagem, Dora estranhou. Desceu as escadas correndo. Queria mostrar uma pulseira de l tranada. Fizera igualzinho ao desenho de um livro. Surpreendeu-se.
  -- Papai estava com cara de guarda-chuva fechado - contaria mais tarde ao irmo. 
  
  (p. 11)

  Parecia doente. Ia falar, mas Cleusa entrou atrs. Por coincidncia, chegara das compras no shopping praticamente ao mesmo tempo. Assustou-se:
  -- Em casa, j?
  -- .
  -- Aquele  tinha um som horrvel. Cleusa e Joel se olharam. Ela fez um sinal com a cabea.
  -- Dorinha, sobe. Eu e seu pai precisamos conversar.
  Ficou com uma raiva danada. Odiava quando mandavam subir, como se no fosse capaz de entender. Botou as orelhas  de alerta. Falavam baixinho. A voz dele tinha um tom estranho. Como se houvesse uma lixa na garganta. No jantar, continuou sem saber o que estava acontecendo. Nenhum dos dois comentou sobre o problema. Andr tambm sentiu o clima.
  -- Tem coisa acontecendo.
  Embora mais novo, o irmo tinha jeito para entender os pais. Dessa vez, nem ele conseguiu decifrar o que estava acontecendo.
  -- Nunca vi os dois assim - comentou.
  Durante alguns dias, nem o pai nem a me se abriram. Dora s descobriu a verdade por causa da excurso. Foi uma promoo que surgiu l na escola. Viagem para a Disney nas frias.
  Um rapaz da agncia de turismo foi de classe em classe. Distribuiu uns folhetos super legais, repletos de fotos  coloridas. O guia seria um ator de novelas, do qual Dora era f. Apesar de ser a Disney, no era uma excurso para crianas. Haveria uma boa programao, com idas a casas noturnas e shows. Decidiu pedir a viagem como presente de Natal. Estava certa de ir. Muitas amigas estaria na excurso. Vrias j conheciam a Disney, e at Pais e Londres. Uma fora at o Canad com a me. mas odiou porque era muito frio. Dora se sentia por fora quando falavam em viagens. Desta vez, era sua oportunidade.
  Mal entrou em casa, tirou os folhetos da mochila. Botou na mesa, Falou da viagem, animada.
  -- Olha, me, este aqui  o hotel.
  Cleusa nem pegou a papelada. Ficou em silncio. Respirou fundo:

  (p. 12)

  -- No vai dar, minha filha.
  Ficou furiosa. Como, no ia dar? Tinha sido tima aluna, bem que merecia um super presente de Natal. Alm disso, o que diriam as amigas? O que diria Magda, se no fosse? Insistiu:
  -- Ah, me, eu quero, eu quero!
  -- Fica quieta, Dora! Ser que no entende o que est acontecendo?
  Como entender, se ningum contou?
  -- Fala, me. Por que eu no posso ir?
  Finalmente, a me confessou, como se falasse de uma coisa vergonhosa:
  -- Precisamos economizar.
  -- A viagem  baratinha!
  -- No vai dar, Dora. Seu pai foi despedido.
  Foi um choque. Os chefes no gostavam dele? No o convidavam para ir a churrascos nas manses?  Agora estava cumprindo aviso prvio. Perecia impossvel! Os pais de alguns colegas de classe tambm haviam perdido o emprego. Alguns nem pagavam mais a mensalidade. Duas meninas haviam sado no meio do ano. Mas isso no podia acontecer com sei pai!
  -- O banco passou por problemas srios. Foi comprado por outro banco, estrangeiro. Muita gente saindo.
  Teve um calafrio. Lembrou-se de conversas que ouvia na escola. O tio de uma amiga estava havia cinco anos sem arrumar emprego. Acabou vendendo a casa para montar um negcio.
  -- O pai acha outro emprego logo, no acha? 
  A me abraou-a. Tinha a mania de abraar quando estava preocupada. Cleusa falou num tom esquisito. Como se no tivesse certeza do que dizia. 
  -- Claro, filha,  s uma fase.
  Nas semanas seguintes, comeou a entender certas conversas de seus pais. Frases perdidas que antes nem mereciam ateno. Foi formando um quadro. Parecia que na rea dele muita gente procurava emprego. Muitos aceitavam salrios mais baixos. Um conhecido, depois de um ano batendo de porta em porta, comprou um txi.  Apavorou-se ao ouvir a me espantada:
  -- Com diploma universitrio e dirigindo txi.
  
  (p. 13)

  Andr tambm sabia de histrias parecidas. O pai de um  amigo havia vendido tudo para pagar dvidas. 
  -- Ele saiu da escola antes de terminar o ano. Est ajudando o pai a vender cachorro-quente  numa perua parada numa esquina.
  -- Que horror! - espantou-se Dora. -- Imagine, ficar o dia todo de p, botando salsicha no meio do po!
  Teve dio quando Andr comentou, como se fosse a coisa mais natural do mundo:
  -- Se o pai vendesse o carro, podia comprar duas peruas. Eu ajudava numa e voc na outra. Dava pra comer hot dog  at sair pelas orelhas! Soube de um sujeito nos Estados Unidos que comeou vendendo hot dog e hoje  milionrio!
  Ah, que vontade de dar um tapa!
  -- Guloso! Tomara que voc se afogue numa banheira de maionese com mostarda e catchup! Nunca quero passar por essa humilhao!
  
  (p. 14)

  -- Girafa! Voc parece aquela girafa do zoolgico, de to metida! Sempre de pescoo para cima!
  Deu mais raiva ainda. Odiava ser chamada de girafa, porque era alta e pescouda. Preferia que dissessem que parecia um cisne.
  -- Porco, porco guloso!
  -- Porca  voc, que deixa a cama desarrumada.
  Andr tinha horror de ser chamado de porco. Sempre fora muito gordinho, com a cara bem redonda. O nariz at parecia um focinho. Mas, no caso da cama, no estava mentindo. Dora s arrumava quando a me exigia. Ele, ao contrrio, mantinha o quarto bem organizado. Um puxa-saco da me, na opinio de Dora. Apesar da raiva, conseguiu se controlar. Queria continuar a conversa. Sobretudo, impedir que ele desse essa idia maluca ao pai.
  -- E se minhas amigas vissem voc e o pai vendendo hot dog, Andr? O que a Magda ia falar?
  -- E eu com a Magda? O pai dela vende chocolate. O que tem vender hot dog?
  Impossvel argumentar com o irmo.  No dava para entender a cabea dele. Depois, sozinha na cama, refletiu. Era exagero, certamente. O pai tinha o terreno, o carro... no eram pobres. No seria preciso vender  hot dog. Ele encontraria um novo emprego. At melhor.
  O aviso prvio acabou. Dora estranhava ver o pai no caf da manh ainda de pijama. Pai e filha se encaravam desconfortveis. Joel abria o jornal. Finja sossego. Semana aps semana, recortava anncios. Passava horas no computador, montando currculos. Cleusa deixou de passear no shopping. Dois meses depois, despediu a empregada. Ficou com uma faxineira trs vezes por semana. No outro ms, desistiu da faxineira. Pediu que Dora e Andr ajudassem na limpeza da casa. Dora sempre tentava fugir dos pratos.
  -- Depois eu lavo.
  -- Deixa de histria, v lavar agora!
  O pior  que Andr achava divertido lavar pratos. A me apontava:
  -- Olha o exemplo do seu irmo.
  Era difcil  acreditar que no conseguiam mais pagar empregada. S teve noo da gravidade das coisas no dia da briga por causa do telefone. A av materna ligava tosos os dias, a cobrar. Conversava horas e horas. Naquele ms, quando chegou a conta, o pai conferiu com a caneta. Depois, mostrou:
   
  (p. 15)

  -- Cleusa, a conta est alta demais. Muito interurbano.
  Quatro meses antes ele nem ligava. A me falou. Gemeu:
  -- Como vou dizer para a minha me?
  Primeira vez, os pais discutiram feio. Joel teimou. Os interurbanos deviam acabar.
  No dia seguinte, ouviu a me falar constrangida para a av:
  -- Se a senhora no ligasse a cobrar... o Joel ...
  Houve uma pausa. A av devia estar fazendo perguntas, do outro lado da linha. Subitamente, Cleusa comeou a falar e falar. As lgrimas foram rolando, rolando. Falou da situao financeira, cada vez mais difcil. O dinheiro escorrendo pelos dedos, com tantas despesas. Dois carros, a escola ...
  -- O Andr precisa de um tnis novo, a senhora nem sabe quanto custa! - ela se lamentava.
  Quando o telefonema terminou, Cleusa sentou-se   mesa, o olhar vazio. Nunca mais esqueceu os olhos da me naquele dia, como se o mundo tivesse desabado.
  A briga por causa da conta do telefone foi o estopim de muitas outras. A falta de dinheiro deixava todos nervosos. Joel e Cleusa pareciam gato e cachorro. Com freqncia, ela ouvia a me falando como se culpasse o pai:
  -- Muita gente anda conseguindo emprego. Voc  que no se esfora.
  -- Como no me esforo? Voc no tem o direito de dizer isso!
  Comeava a discusso. 
  O dinheiro acabou totalmente em seis meses. Um dia, ligaram do banco. Era preciso cobrir dois cheques. At o limite do cheque especial se esgotara. Foi um sufoco. O pai pegou emprestado de um amigo. No dia seguinte, vendeu o carro importado.
  -- Como voc pde entregar um carro daqueles por uma misria? - assustou-se a me.
  --  o que pagam. Desvaloriza muito depressa.
  -- Voc  que no soube procurar. O marido de uma amiga minha vendeu muito melhor um carro do mesmo ano. 

  (p. 16)

  O pai respondia. Nova briga.
  Com o tempo, Dora e Andr acostumaram-se a subir e  ficar jogando, enquanto l embaixo as vozes subiam e baixavam, num ritmo j conhecido. Em trs semanas, os irmos perceberam que o dinheiro do carro tambm estava acabando.
  -- Como a gente vai viver de agora em diante?  -  assustou-se Dora.
  A av materna tentou ajudar. Continuava ligando, sem ser a cobrar. Cleusa props, certa noite:
  -- Minha me disse que podemos ir para a casa dela.
  -- No quero mudar pra aquele fim de mundo! - gritou Dora.
  -- Fique quieta, voc no d palpite.
  -- Pois desta vez a Dorinha falou o que  certo - defendeu o pai. -- Ns no vamos para a casa da sua me. Ela nunca gostou de mim.
  -- Prefere passar fome em So Paulo?
  -- No estamos passando fome.
  -- J estamos raspando o fundo do tacho. Onde vamos arrumar dinheiro?
  Joel tinha outras razes para recusar a ajuda.
  -- Se eu for embora daqui, sem emprego, nunca mais arrumo coisa boa.
  -- Pelo que eu sei, voc no arruma nem coisa ruim.
  -- No precisa me humilhar.
  -- S estou tentando resolver a situao.
  O bate-boca comeou. Dora e Andr haviam descoberto que, nesses momentos, o melhor era ficarem calados.
  Cleusa tambm procurava emprego. Recortava anncios. Fazia entrevistas. Nada. Dora ouviu quando ela desabafou com uma amiga:
  -- No me querem nem para recepcionista!  Dizem que passei da idade.
  -- Voc, to moa, nem d para acreditar!
  A me continuava, a voz triste, horrvel de se ouvir.
  -- Eu podia ter uma carreira. Ser capaz de segurar as pontas numa crise dessas. Larguei o emprego e faculdade. Agora ficou mais difcil.
  As amigas j sabiam da situao de Dora.

  (p. 17)

  -- Faz tempo que seu pai est desempregado?
  Tomou coragem. Magda era to amiga! O pai dela  poderia ajudar, afinal era dono de uma das principais empresas do pas. Como no tivera a idia antes? No intervalo, chamou a colega num canto:
  -- Ser que seu pai arruma emprego por meu?
  Magda a mediu com os olhos. Respondeu, fria:
  -- Sei l ... isso no  comigo. Tem tanta gente procurando emprego, o meu pai vive falando que  um inferno.
  Dora observou a corrente de ouro que Magda trazia no pescoo, com um coraozinho de ouro e rubi na ponta. Antiga, herdada da famlia. Sentiu uma enorme revolta. Um gesto do pai da amiga poderia resolver tudo! Dias depois, uma menina que nem conhecia direito comentou:
  -- Eu no sabia que voc era pobre.
  Rubra, Dora Nem conseguiu responder. Era horrvel ouvir aquela palavra: pobre! Parecia defeito! Correu para o banheiro. Chorou em silncio.
  E se o pai nunca arrumasse emprego? Iria vender hot dog na esquina? Ela, Dora, deixaria de estudar para passar o dia todo de p, botando maionese no meio do po, catando salsicha na gua quente, espirrando mostarda e catchup? Magda e todas as amigas passariam de carro. Ririam dela.
  A famlia j estava no limite. Desesperada, Dora no sabia  o que podia acontecer.
  Mas tudo mudou novamente. Exatamente sete meses depois que o pai perdeu o emprego, surgiu uma soluo.
  Uma soluo capaz de modificar ainda mais a vida de sua famlia. 
                                           
  3

  Expresso sria, pensativa, a me lia um faz. Ficou um tempo, absorvendo letra por letra. Quando o pai chegou, bem mais tarde, continuava sentada na mesma posio. Joel estava exausto. Cleusa, com esperana.
  
  (p. 18)

  Como foi?
  Apenas uma entrevista como tantas outras, ele respondeu. Conseguida a partir de um anncio de jornal. O possvel chefe examinara seu currculo. Elogiara.
  -- Terminou com uma conversa mole, dizendo que qualquer coisa telefona. Deu pra ver que j escolheu outro candidato - comentou Joel, desanimado.
  Cleusa estendeu o fax.
  -- Chegou hoje de tarde.
  O pai leu rapidamente. Ao terminar, releu, dessa vez com calma. Trocou um olhar com Cleusa. Chegara o momento de conversar sobre o contedo da mensagem.  A mulher mandou:
  -- Dora, Andr, para o quarto.
  -- Mas ...
  -- Nem mas, nem meio mas. Subam.
  No alto da escada, Andr comentou o bvio:
  -- S pode ser alguma coisa importante.
  -- Tem jeito -  concordou Dora.
  O casal comeou falando em tom calmo, pausado. Como tantas outras vezes, as vozes se alteraram. Dali a pouco, a discusso chegava at o quarto.
  -- Voc no vai - a me dizia.
  -- Ficou cega, surda, muda, a ponto de no entender nossa situao?
  -- Podemos ir pra Minas, pra casa dos meus pais.
  -- Viver com a sua me? Nunca!
  -- O que  que tem a minha me? Foi a nica que nos estendeu a mo. A sua s sabe pedir dinheiro emprestado.
  -- No precisa atacar minha me, que deu duro a vida inteira para criar os filhos.
  -- Pelo menos na casa do meu pai no vai faltar nada.
  -- Ser que fiz  uma faculdade para passar a vida vendendo sombrinha estampada na loja do seu pai? Pra que estudei, lutei? Cleusa, eu estava esperando uma oportunidade! Ela chegou, finalmente! Voc no  capaz de compreender?
  -- Oportunidade? Ir se enfiar no meio da floresta amaznica
  --  uma tima oportunidade. Voc sabe que ! E uma chance de comear numa nova rea, numa empresa que est se formando agora!

  (p. 19)

  -- E ns, voc no pensa em ns?
  A discusso continuou a noite toda. Dora e Andr deitaram tarde. Nem desceram para jantar. Exaltados, os pais  tambm nem se lembraram de cham-los. Nenhum dos dois entendia o motivo da briga. Era um emprego, no era?  Dora ainda tentou ter esperanas. Tudo talvez voltasse a ser como antes. O pai compraria outro caro importado. Construiria a manso. Sim, quem sabe ainda teriam casa com piscina!
  Mas por que a briga? Dora adormeceu com uma sensao desagradvel. Ao descer, de manh, foi pior ainda. O pai tinha amanhecido no sof. Notou a roupa amassada. De cara amarrada, a me saiu da cozinha, com o leite e o caf. Ele se  levantou, com jeito de quem no tinha dormido. Surpresa, Dora viu que estava quase na hora da aula.
  -- Hoje vocs ficam em casa. Precisamos conversar - Cleusa explicou.
  Dora e Andr se entreolharam.  A conversa prometia ser horrvel. A garota lembrou-se de um livro sobre pais que se separavam. Quando chamavam os filhos para a tal conversa, era para comunicar a  deciso. Tomou coragem:
  -- Vocs vo se separar?
  A me abanou a cabea:
  -- No seja dramtica.
  O pai, que fora ao banheiro, voltou de rosto lavado. Penteado. Olhos vermelhos, expresso preocupada. A conversa comeou. Os pais tentavam explicar, mas estavam nervosos e confusos. Dora e Andr demoraram para entender. Em resumo: no era uma separao.  Ou melhor, era, mas no era. Ou talvez fosse. 
  Surgira uma proposta de emprego, sim. Numa empresa que estava sendo criada no Amazonas. Inicialmente, ele cuidaria da implantao de um centro de armazenamento e extrao numa cidadezinha na beira do rio, pendurada na selva. Mais tarde, poderia morar em Belm do Par.
  -- O trabalho parece interessante.  uma empresa que exporta plantas e ervas nativas, como o urucum, para fabricao de cosmticos. Precisavam de um gerente, um faz-tudo que tambm fosse advogado. Fui escolhido porque conheo bem as leis de exportao, graas ao banco.

  (p. 21)

  -- Vamos morar no meio dos ndios?
  -- Bem que eu queria morar com os ndios - disse Andr.
  -- Podia andar pelado o dia todo!
  -- Fica quieto, porco! - irritou-se Dora. -- Se voc for pra floresta, vai virar comida de jibia.
  Em outra ocasio, os pais at ririam da briga. Dessa vez no acharam graa alguma. Com voz pausada, Joel explicou que seus conhecimentos sobre a floresta amaznica e os ndios deixavam muito a desejar. Havia muitas cidades no interior da Amazonas. Mesmo nas aldeias, ndios no andam pelados. Tribos mais primitivas, sem contato com os brancos, talvez ainda existissem. Mas esta era outra histria.
  -- O que importa  que no vamos com seu pai - explicou cleusa.
  Ento era isso! Cleusa e Joel tentaram ser lgicos. Seria apenas um contrato de experincia. Joel conhecia exportao, mas nunca trabalhara na rea.  Talvez tivesse recebido a proposta porque poucos  advogados aceitariam o cargo. Mudaria de vida, por um salrio bem mais baixo do que tinha antes. 
  -- Fui indicado por uma agncia de empregos. Quando fiz a entrevista, no me disseram o que era, exatamente.
  Joel tambm no conhecia a cidade onde iria viver. Os problemas que teria de enfrentar. Parecia lgico que fosse sozinho, pelo menos inicialmente. Tudo isso, porm,  era apenas maia verdade. Ele e Cleusa no teriam discutido a noite toda se fosse to lgico. Andr tomou coragem:
  -- Mas vocs esto brigando, no esto?
  A me suspirou.
  -- No  exatamente uma briga. Eu e seu pai precisamos dar um tempo.  Pensar. Vocs vo ter que compreender. Eu acho... sabem, eu acho que a falta de dinheiro fez certos  problemas que estavam escondidos aparecerem.
  A xcara de caf com leite foi sumindo da vista de Dora.  O Mundo girava. Quase caiu para trs. Sentiu o abrao do pai.
  -- No chore, filhinha. Sempre vou falar com voc.
  Pais e mes tomam decises capazes de mudar toda a vida dos filhos. Na maioria das vezes, como no caso dela, no se podia dar palpite. Ah, que  vontade de ter idade suficiente para no depender de ningum. Arrumar seu prprio emprego!

  (p. 22)

  Apesar de tudo,  o pai parecia aliviado.
  -- Tudo est se encaixando - ele explicou.
  Alguns dias antes, um comprador se interessara pelo terreno em alphavile. Queria dar um apartamento pequeno e uma quantia em dinheiro, para completar. Joel recusara. Pensava em vender o terreno  vista para abrir um negcio prprio. Agora a proposta tornava-se bem atraente. O apartamento viria a calhar. 
  -- Vocs mudam para l. Nos livramos do aluguel. O dinheiro da diferena ajudar a manter a casa nos primeiros meses. Ai, passo a mandar parte do salrio. Sua me tambm acaba arrumando alguma coisa. Tudo vai se ajeitar.
  Nos dias seguintes, Dora passou a maior parte do tempo no quarto. Era  horrvel se sentir intil. Incapaz de ajudar.  Uma vez decididos,  Joel e Cleusa apressaram-se. A mudana coincidiu com o final das aulas. Ele partiu um ms antes para trabalhar na Amaznia. Com a venda do terreno, Cleusa acertou as mensalidades atrasadas do colgio. Mandou pintar o apartamento.  Tudo aconteceu rapidamente.
  Quando Dora foi conhecer o apartamento, teve um  choque. Era na periferia. No que fosse um bairro miservel. Era um bairro repleto de sobradinhos geminados com  garagem com porto de ferro e um  carro velho dentro. Mais adiante, um grande conjunto habitacional popular. Em torno, umas casas bem pobrezinhas, algumas s com reboco, sem pintura. Aqui e ali, alguns condomnios de prdios grandes, gradeados. O apartamento ficava num desses condomnios,  com quatro edifcios. Havia um jardim, uma guarita com porteiro e uma vaga na garagem subterrnea. S havia uma casa bonita, na opinio de Dora. Era um sobrado de esquina, coberto de pastilhas coloridas e pedras vermelhas. Dora odiou o bairro.
  Na escola, quando souberam  que ia se mudar,  quiseram saber para onde. Dora tentou esconder, mas descobriram. Andr havia contado para todos os colegas, e um  menino revelou para a irm, da classe de Dora.
  -- Vila Cantareira, nunca ouvi falar - comentou Magda, nariz  torcido. 

  (p. 23)

  Dora quis se enfiar no cho. Sentiu o olhar de desdm da outra. 
  Passaram o natal em Minas. A av reclamava.
  -- Deviam ter vindo para c, como eu disse!
  A me estava discutindo o assunto. 
  Os presentes foram pssimos. Da me, Dora ganhou um cd.  Ela, que sonhava com a viagem  Disney! A av tinha mania de dar presentes teis, mas seu gosto era completamente diferente do da neta. Dessa vez, apareceu com uma saia  pregueada, verdadeira pea de museu. Dora odiou. Cleusa exigiu que usasse, para no fazer desfeita.
  Adorei, vov - teve que dizer.
  De volta a So Paulo, mudaram-se para o apartamento. Dora passou o dia emburrada. Nem quis ligar para as amigas. Nem telefone tinha! Os primeiros dias no apartamento foram cheios de angstia. Tinha  horror de olhar pela janela, observar as ruas malcaladas. Andr, sempre otimista, tambm  andava de farol baixo.
  -- Eu soube que sbado passado, no bar  da quadra, teve at tiro.
  -- Quem contou?
  -- O porteiro. Diz que  perigoso sair depois que escurece.
  Sentia-se presa no quartinho minsculo. Depois de colocada a cama, mal dava para abrir a porta. Uma diferena  enorme do quarto anterior. Um abismo em relao a seu sonho de ter uma sute com banheira de hidromassagem. Embora fosse uma sorte ainda ter seu prprio quarto, segundo a me.
  E a saudade do pai?
  -- Vocs se separaram s por causa do dinheiro?
  Cleusa refletiu. Tambm no entendia como as coisas degringolaram daquele jeito.
  -- Eu no sei o que deu errado, Dorinha. Acho que eu e seu pai passamos muito tempo s pensando em dinheiro, dinheiro e dinheiro. Quando faltou o dinheiro, deu um vazio. Eu no sei explicar.
  -- Mas vocs vo voltar, no vo?
  -- Quem sabe? Eu mesma no sei o que pode acontecer.
  A vida tomou um novo rumo. Apesar da fila imensa, Cleusa conseguiu matrcula para os filhos numa  escola da rede pblica. Por ser perto do condomnio, ambos poderiam ir a p.

  (p. 24)   

  -- De hoje em diante, viveremos de outra maneira. 
  As obrigaes domsticas se tornaram definitivas. Nem pensar em empregada. Dora tornou-se responsvel pelo almoo. Deveria esquentar a comida, pr a mesa e lavar os pratos. Andr arrumaria as camas. No sbado, seria a faxina geral. Cleusa logo comeou a procurar emprego. 
  At o incio das aulas, Dora mal saa de casa.  Ia s at o jardim do prdio e voltava. Sem telefone ficava mais difcil procurar as amigas de antes. Um dia tentou ligar para  Magda do orelho. Esta estranhou:
  -- Como  que algum pode no ter telefone?
  Dizer o  qu? Certas coisas que pareciam normais, na verdade, custavam muito caro. Mas, com todo o dinheiro do pai, Magda nunca seria capaz de entender. Apesar da m criao da amiga, sentia saudades. Antes, trocavam confidncias, emoes. Queria tanto rev-la!  No final do telefonema, Magda convidou Dora para tomar banho de piscina. Cleusa proibiu.
  --  muito longe, 
  -- Me, voc me leva.
  Cleusa conservara seu carro ltima lembrana dos bons tempos. Recusou-se.
  -- Dorinha, sei que no  fcil se acostumar.  Mas no posso continuar a ser sua motorista. Preciso achar emprego.
  --  Deixa eu ir de nibus!
  -- Gastar dinheiro com conduo  toa? No, no e no! Faa novas amizades  aqui no bairro.
  Tornou-se impossvel visitar as antigas amigas. No ntimo, Cleusa acreditava estar fazendo o melhor para a filha. Dora devia se acostumar aos novos colegas e ao novo bairro. No imaginava quanto Dora se sentia  desprotegida perdida e solitria. No queria fazer amigos  naquele bairro de periferia. Sonhava com as casas de suas amigas ricas. Como se a vida anterior fosse um conte de fadas,  do qual tivesse sido expulsa. No conseguia entender como Andr de adaptava depressa quela vida. Apesar do choque inicial, ele logo comeou a fazer amigos. A jogar bola num campinho prximo. 

  (p. 25)

  Dali a algum tempo, Cleusa tornou-se corretora numa pequena imobiliria. Sem ganho fixo, dependia de comisso.
  -- Se conseguir alugar ou vender algum apartamento, posso at ganhar bem - explicou aos filhos.
  Dora queria que o mundo explodisse.
  Tambm no gosto da nova turma da escola. Foi  pssimo chegar a um lugar onde no conhecia ningum. Pior, nem queria conhecer. Surpreendeu-se na entrada, ao ver Andr j enturmado batendo papo com uns meninos. Sua atitude foi outra. Sentou-se no fim da fileira. Crtica, rodou os olhos pela turma. Presilhas de plstico baratinhas nos cabelos das colegas. Alguns garotos tinham tnis encardido, bem velhos. Um aluno estava de camiseta regata. Tinha uma tatuagem de drago no bceps e cabelos compridos,  cacheados, bem despenteados. Fixou o olhar na tatuagem. Quando ergueu o rosto, percebeu que ele a encarava. Sorria. Virou de lado, fazendo questo de demonstrar que no ligava para ele.
  No intervalo, ficou num canto. No pretendia puxar conversa com ningum. Duas meninas vieram bater papo. Perguntaram quem era, de onde vinha. Evitou responder. No queria saber de fofoca. O que queriam afinal? Nem em sonhos falaria sobre os problemas da famlia. Uma elogiou o relgio.
  -- Ganhei do meu pai.
  -- Ele deve estar montado na grana - comentou a garota.
  Silenciou. As meninas desistiram de puxar conversa. Assim que elas saram, o garoto da tatuagem aproximou-se.
  -- Voc  nova, ? Qual o seu nome?
  -- Dora.
  -- Eu sou o Teo. Mas o povo me chama de Tigre.
  Nem respondeu. Achou tigre simplesmente ridculo. Parecia mais um gato vira-lata, com os olhos puxadinhos e a juba despenteada. 
  -- Quer um conselho? No vem com esse relgio no. D muito na vista. 
  No gostou. E se ele estivesse alertando para depois meter a mo sem despertar suspeitas?
  -- Pode deixar que eu tomo conta.

  (p. 26)   

  Percebendo a frieza, Tigre afastou-se. Terminada a aula, ela foi diretamente para casa. Emburrada. Ficou ouvindo msica. Estava quase adormecida, quando ouviu a porta bater. Andr acabava de entrar, com a camiseta rasgada, o rosto arranhado. Descalo.
  -- Roubaram meu tnis.
  Contou, assustado. Fora visitar um colega de classe. Um  amigo que fizera no bairro, logo aps a mudana. De volta, na virada da esquina, foi cercado por trs marmanjes. Perdeu o tnis. 
  At a me, que vivia fazendo cara de contente e  dizendo que o bairro era timo, dessa vez no teve foras para disfarar. Quase chorou.
  -- Ser que a gente devia ter ido para Minas, com meus pais? Ser? 
  Andr mostrou que tinha uma personalidade forte.
  -- Deixa pr l, me. Eu  que dei mole, saindo com um tnis daqueles. De amanh em diante, cuido mais. 

  (p. 27)

  Antes de sair, no dia seguinte, Dora hesitou, com o relgio na mo. Resolveu deixar em casa. Depois pensou no tal de Tigre. Quem sabe ele tivesse boa inteno.
  Dora odiava o bairro, mas no podia fugir. Quis se  acostumar com a nova vida. Fez um esforo. Comeou a bater papo com as colegas. Era difcil. Elas gostavam de outro tipo  de msica. De roupa. Chegou a ir na casa de uma das novas amigas, fazer um trabalho de escola. A me fazia salgadinhos para fora. A casa toda cheirava a fritura. Comeu coxinhas,  empadinhas. Deliciosas. Elogiou.
  -- Um dia a gente ainda vai ter um restaurante! - confidenciou a colega.
  A humildade da casa a constrangia. Mesmo sem querer, comparou com a de Magda. Os jardins, a piscina, as salas gigantescas, uma se sucedendo aps a outra. Nada a ver com aquela casa de periferia, com cheiro de leo penetrando as paredes. Seus olhos se fixaram no sof. Havia um rasgo. No queria olhar, sabia que era falta de educao. Mas seus olhos se fixaram na espuma saindo de dentro. A me da amiga  percebeu, ficou sem jeito.
  --  ... o sof anda precisando de uma capa nova.
  Ganhou fama de reparar demais. De fresca. Nunca mais foi convidada a voltar naquela casa. Passou a ser evitada. S a chamavam quando havia trabalho de grupo, obrigatrio.
  Quem insistia era Tigre. Puxava papo. Dora tinha  horror, cada vez que ele se aproximava. Era bvio, estava a fim. No que Dora no o achasse simptico, interessante. Um gato. Mas era filho de um mecnico. Ajudava o pai a consertar os carros. s vezes, aparecia com a cala manchada de graxa, o que as colegas consideravam um charme. Diziam que era sortuda, porque o Tigre parecia se interessar por ela.
  -- Pois faam bom proveito. No estou nem a.
  Nem pensar! Um pobreto! Passava todo o tempo livre sozinha. Lembrando de antes. Do pai. Chorava, s vezes.
  Podia ter continuado assim muito tempo. Triste. Longe de todos. Tudo que fazia parte de sua vida, at poucos meses, tinha desaparecido. Seus desejos, seus sonhos, suas ambies. Quando pensava no futuro sentia desnimo.
  At que se apaixonou.

  (p. 28)

  4

  Dora raramente era convidada aos aniversrios dos colegas. Chateava-se quando ouvia as garotas comentando de reunies nas casas desta ou daquela. No colgio anterior, no perdia uma! Agora, era a eterna excluda.
  -- No me importa. Tambm no quero ir a essas festinhas. Deve ser muito brega.
  Achava horrvel passar os sbados sozinha, vendo televiso com a me. O irmo era exatamente o contrrio. Vivia na casa dos amigos.
  A exceo foi o aniversrio de Emlia. A garota morava no condomnio, em um prdio prximo ao seu. Quase todo dia, voltavam juntas das aulas. Era mais seguro, para evitar assaltos. O hbito de andar aqueles quarteires fez com que surgisse a amizade. Dora tinha se tornado caladona. Emlia nem parecia notar. Comentava as novelas de televiso. Sabia a vida de todos os artistas. Dora ouvia, dava um palpite aqui, outro ali. Eram conversas meio sem p nem cabea. Apenas para preencher o caminho de volta. Emlia falava muito gesticulando. Desde que resolvera dar a festa, no falava noutra coisa. Pedia conselhos:
  -- Dora, voc que  chique, diga que roupa devo botar.
  -- Chique, eu?
  -- Ah, Dora, todo mundo sabe que voc era rica.
  Acabou ajudando a escolher as msicas para a festa. Ensinou uma receita de canaps com torradas. Batia creme de leite com sopa de cebola de pacotinho. Virava um pat timo. Ajudou na decorao do salo de festas do condomnio. No final, Emlia insistiu:
  -- Olha, hein! Se no vier, nunca mais falo com voc!
  Toda classe estava convidada. S de pensar na turma, desanimava. No tinha a mnima vontade de ficar junto com aquele pessoal. Gente que a chamava de fresca pelas costas. Por outro lado, havia tempos ningum a convidava para coisa nenhuma. Emlia at que era legal. No dia decidiu:
  -- Vou e volto depressa.
  Vestir-se foi um drama. Espichara nos ltimos meses. As roupas bonitas no serviam mias. O ltimo jeans de grife estava apertadinho. Insistiu com a me, queria uma blusa nova.
  -- Nem pensar. Voc se vira com o que tem - determinou Cleusa.
  Quase no foi. Acabou achando um toamra-que-caia preto. Coube. Ganhara tempos atrs, mas na poca era grande. Olhou-se no espelho. Gostou. Maquiou-se, de leve. Quando j estava na porta. Resolveu botar um brinquinho de prata. Aproveitou para experimentar umas gotas de perfume da me. A demora fez com que chegasse no meio da festa. Muitos danavam. Havia cerveja e refrigerante  vontade. Emlia a abraou, feliz.
  -- Safada! Demorou tanto! Pensei que no vinha mais.
  Surpresa, notou que Emlia estava linda. Nos dias de aula, era idntica a uma vassoura, com os cabelos loiros sempre espetados, e o corpo magrrimo. Agora, com um vestido preto de alcinhas, bem colante, brincos e colar dourados com pedras azuis parecia uma modelo. Emlia mostrou as unhas, pintadas de roxo.
  -- Olha s o que eu fiz!
  -- Ficou fantstico!
  Emlia a conduziu pelo salo. Havia uma poro de gente que no conhecia. De longe viu Tigre, com a eterna camiseta regata, cercado por um grupo de meninas. Uma turma danava, o som era ensurdecedor. Adorou. Cumprimentou colegas da classe. Cuidadosamente, Emlia e Dora evitaram as que estavam nos cantos, no escurinho, com rapazes. Emlia aproximou-se de dois rapazes. Um com dezessete ou dezoito anos. Outro, mais velho, tinha bem uns dezenove. Ambos sorriram.
  Dora notou que o mais novo era alto, com a pele bem branca e cabelos pretos. Ombros largos, um esportista. O outro, de cabelo curtinho, tambm tinha porte atltico. Devia fazer musculao. Emlia apresentou:
  -- Este malandro aqui  o Gui, meu primo.  vizinho, mas nunca aparece. E este...
  Respirou fundo, para a grande revelao.
 
  (p. 30)

  --  o Rafael, meu namorado.
  Dora levou um susto. Namorado? Emlia j estava namorando e ela nada! O que ser que tinha de errado? Nunca ningum tentara namor-la. Ficou verde de inveja, mas disfarou. Emlia puxou Dora novamente.
  -- Vem, vem pegar uma bebida.
  Ofereceu cerveja. Dora no bebia, quis um refrigerante. Em seguida uma senhora mais velha veio chamar a  aniversariante. Aparentemente, era uma tia insatisfeita com o escurinho no salo. Dora acompanhou com o  olhar. Emlia foi cercada por uma roda de mulheres. Certamente, da famlia. Discutiam. 
  -- Se eu acender a luz, a festa acaba!
  Com o copo na mo, Dora saiu pelo salo, observando o movimento. Sem se enturmar com ningum. Pelo que pde perceber, Emlia vencera a batalha, pois a luz continuou igual. Aproximou-se da porta, para tomar ar. Pensou se devia ir embora. Ningum falava com ela. Seria chato passar o resto da festa sozinha. Decidiu esperar o bolo. L fora, no jardim alguns casais conversavam. Sentiu um toque no ombro. Virou-se, surpresa.
  O primo de Emlia sorria.
  -- Nunca vi voc por aqui.
  -- Mudei faz uns meses.
  Subitamente, sentiu-se feliz. Ele era to simptico!
  -- Qual o seu nome? A  Emlia falou to depressa que no entendi. 
  -- Dora. Desculpe, tambm no ouvi o seu.
  -- Guilherme.
  Meio sem jeito, avisou:
  -- Pode me chamar de Gui.
  Pareciam se conhecer  haviam sculos. Engataram uma conversa animada. 
  Guilherme morava no sobrado grande, de esquina, que notara logo aps a mudana. Comparando com a pobreza da maior parte dos colegas, Dora tinha a impresso de que Guilherme era rico. Na verdade, sua  famlia vivia em boa  situao. No era milionria. Filhos de um dentista com boa clientela, Gui tinha tudo de bom, desde pequeno. A famlia teria condio de morar em um bairro melhor. Mas o consultrio do pai ficava no centro comercial do bairro, era perto. O dentista acabou comprando um apartamento para a irm, me de Emlia,  prximo a sua casa. O irmo de Gui estava terminando a faculdade de Odontologia. J ajudava o pai na clnica. O sonho do pai era que Gui tambm fosse dentista. Ele se revoltava com a idia.

  (p. 31)

  -- Pai, quero ser jogador de basquete. 
  Bastava falar isso para deixar o pai furioso. No admitia.
  -- Por que voc vai se meter numa profisso incerta, que s d camisa para uns poucos? E se voc for um jogador  fracassado?
  -- Pai, deixa eu viver a minha vida!
  Discusses estouravam, dia aps dia. A me entrava no meio. Defendia o filhos, mas tambm o pai, do jeito que s as mes sabem fazer. Rebelde, Gui respondia, alterava-se. Eram tantas brigas que s vezes nem tinha vontade de voltar para casa. Gostava de andar de moto com os colegas.  Iam a barzinhos. Conheciam garotas.
  Tambm j fumava baseado. Experimentou pela primeira vez num final de tarde, na casa de um colega de classe. Quando o amigo ofereceu, hesitou.
  -- T com medo?
  -- Eu?
  No quis passar por idiota. Tragou. Tossiu que nem doido. Apesar disso, logo se sentiu relaxado. Tranqilo. Quando voltou para casa, sentou-se  mesa. O pai tentou puxar conversa. Gui no estava nem a. Riu, perdidos nos  prprios pensamentos.
  -- Qual  a piada?
  Piorou. Teve um acesso incontrolvel de riso. Pediu desculpas. Disse que tinha de ir ao banheiro. Quase no  conseguiu levantar da mesa. Parecia estar na luz. O corpo pesado. Sentia-se um astronauta. Teve medo. E se percebessem? Entrou no banheiro, lavou o rosto, Olhou-se no espelho, sorriu para si mesmo.
  -- Estou  muito legal!
  Dali a dois dias, experimentou mais um. Descobriu que o tal colega da classe vendia. No era exatamente um traficante. Como gostava do negcio, vendia para tirar o seu. Ou seja, comprava um pouco mais, botava preo e usava o lucro para seu prprio consumo. Tambm descobriu muita gente que fumava, entre os colegas. Antes, ningum se abria. Agora, era um deles. Ganhava muitos cigarros e tambm fornecia aos amigos. Dependia de quem  estivesse com mais grana. Comeou a ter interesse pelo assunto. Lia artigos em revistas. Acompanhava debates pela tev.

  (p. 33)

  -- A maconha no faz mal - comentava entre amigos.
  -- Em alguns pases,  at liberada.
  Alm da tranqilidade, havia alguma coisa mais. A sensao de ser especial. Era assim que se sentia:  uma pessoa nica neste mundo. 
  Um dia seria um grande jogador. J estava na seleo intercolgios. Todos ainda veriam do que era capaz. J ficara com algumas garotas. Mas nunca tivera uma namorada de verdade. Algum com quem quisesse ficar junto, sempre. Assim que conheceu Dora, percebeu que seria diferente.
  Ela tambm sentia a mesma coisa. Uma vontade de ficar junto. Desejo de conversar. De se tocar. Quanto mais falavam, mais descobria o quanto combinavam.. Embora no fosse rico como seus antigos colegas, Gui falava com eles. Conhecia motos, roupas de grife, som. Tinha ido  Disney havia alguns anos. Com seus pais, passara frias em Cancn, no Mxico.
  Perto dele, Dora sentia o sabor dos dias de antes, quando nada parecia poder afetar sua vida. Foram para um cantinho conversar. Depois, Gui props darem uma volta. Por ali mesmo, no condomnio. Dora sentiu o corao bater mais depressa. Olhou para ele, trmula. Era um gato! Justamente nessa noite, quando j pensava em ir embora, aparecia... ele! Como seria ficar com algum? Algumas amigas do antigo colgio falavam sobre aventuras incrveis nas praias, durante o vero. Ela no. Fora criada muito presa, muito prxima dos pais. Tremia, s de pensar. E se ele quisesse beij-la? Como faria? Dora morria de vergonha. Nunca tinha beijado ningum. no queria que ele descobrisse. Pretendia parecer experiente.
  Andaram devagar at perto do muito. Dora falava sem parar, cada vez mais depressa. Disfarava o nervosismo. No se acalmou nem quando ouviu:
  -- Sabe, voc  diferente.
  -- Voc acha?

  (p. 34)

  -- Diferente sim. Voc, sei l,  legal. Tem um papo mais profundo.
  -- Desde de que a gente mudou pra c no falava tanto. No me entrosei com a turma da escola.
  -- Eu tambm as vezes penso que no sou desse mundo. Dora riu, tinha a mesma impresso.
  -- Se desse para morar na lua, bem que eu queria. Ou em Marte, sei l. 
  Falaram sobre os extraterrestres. Seria bom se eles existissem mesmo, acreditava Gui.
  -- E se forem ruins? Uma espcie de gafanhotos inteligentes que querem devastar a Terra?
  -- Pior do que ns vai ser difcil. Com um dcimo da bombas que j existem seria possvel destruir a    Terra.  O ser humano  capaz de  acabar com o planeta, sem ajuda de nenhum extraterrestre.
  Com naturalidade, Gui tirou um pacotinho da meia. Abriu, mexeu um pouco com o fumo, fez um cigarro com uma folha de papel fino, que pegou na carteira. O corao de Dora bateu descompassadamente. Sabia do que se tratava. Um dos tios de Magda fumava maconha todos os dias. Magda experimentara uma vez. Quando contou, disse no ter tido sensao alguma, porque raspou demais na garganta. Dora e as  outras colegas tinham se assustado:
  -- Mas voc no ficou viciada?
  Magda, com ar de superioridade:
  -- Um cigarrinho s no vicia.
  Enquanto Gui fazia o cigarro, Dora pensava no que fazer. Queria parecer adulta e experiente. Sentia-se envergonhada. Ele, que parecia to entusiasmado com ela, acabaria se decepcionando. Se experimentasse, ficaria viciada, como tinha visto num programa de televiso? Ou um s no faria  mal?  Gui acendeu o cigarro, tragou longamente. Estendeu em sua  direo. Ela hesitou. 
  -- Voc no quer?
  --  que...
  No sabia o que dizer. Ele tocou sua mo de leve. Tom de voz melanclico. 
  -- Diga, voc no gosta?
   
  (p. 35)

  Tomou coragem.
  -- Eu... eu nunca experimentei.
  Gui, surpreso.
  -- Nunca? Mas todo mundo que eu conheo...
  Envergonhou-se. O que ele pensaria dela? Que era uma boba, sem experincia. As lgrimas caram. Puxa vida! Logo agora que encontrara um cara legal? O dedo de Gui tocou sua bochecha.
  -- Ei, que negcio de chorar  esse?
  O brao direito de Dora ergueu-se. Tocou de leve seus dedos nas mos dele. Ele compreendeu, gentil. Deslizou os dedos para a mo de Dora, apertou-a suavemente. Ficaram assim, um instante, se tocando. Ele puxou seu rosto at o ombro. Delicadamente. Acomodou-o com carinho. Dora sentiu o cheiro de perfume, ctrico. Era bom estar assim., to perto. Gui deu mais uma tragada. Dora sentiu o cheiro acre da fumaa. Ele tragou o cigarro. Nesse instante, ela ouviu o som  do parabns a voc no salo. Automaticamente, fez um gesto com a cabea, para levantar. Ir cantar junto. Com a outra mo, Gui afagou seus cabelos.
  -- Fique.
  Deitou a cabea no ombro do rapaz, outra vez. Enquanto ele fumava novamente, Dora decidiu. Que mal podia fazer? J tinha ouvido falar muito sobre maconheiros. Marginais. Mas Gui no era nada disso. Talvez, se soubessem que garotos como ele fumavam baseado, no censurariam tanto. Tocou o dorso de sua mo, de leve.
  -- Deixe eu experimentar.
  Ele sorriu, cmplice. Aproximou o cigarro. Ao longe, Dora viu o pique pique. Sentiu o gosto forte.
  -- Puxe a fumaa pra dentro. Firme.
  Aspirou. Tossiu. Mesmo assim continuou. Dali a pouco, veio uma moleza. Depois, um sentimento. Calma. Paz!
  Ficou ali, sem perceber as horas, conversando, sentada no cho. Percebeu as pessoas saindo da festa. Quando ele aproximou os lbios dos seus, no teve mais medo. Deixou os braos dele rodearem seu corpo, a boca tocar a sua.
  Havia muito tempo no se 
sentia to bem!
                  
  (p. 36)
                                     
  5

  Gui no apareceu no dia seguinte. Nem no outro. Dora virou um feixe de nervos. Falou com Emlia, que sorriu:
  -- Conheo meu primo. Se estiver mesmo afim, aparece. Foi o que aconteceu. Trs dias depois. Quando chegou da aula, ele estava em frente ao prdio.
  -- Topa um passeio de moto?
  Aceitou na hora. Deixou a mochila com Emlia. Perguntou por que havia demorado tanto tempo para  aparecer. Ele ficou meio sem jeito.
  -- Fiquei com medo de voc me dispensar.
  Ento, os dois tinham os mesmos medos!  Foram tomar um sorvete. Na mesa, ele pegou de leve na sua mo. Gostou. Ele era assim, cheio de toques carinhosos. Quase morreu de emoo quando ele disse, meio tmido:
  -- Sabe ... eu curto voc. Q quero ficar junto.
  Foi essa a declarao de amor. Dora adorou. Mais tarde, Gui parou a moto numa pequena praa. Acendeu um baseado. Ela sorriu, aceitou. Fumaram depressa, com medo da polcia.
  Passaram a se ver todos os dias. 
  Adorava ficar com ele. Parecia que a conversa no acabava nunca.. Saam juntos. Inicialmente, s nos finais de semana. Emlia sempre ia junto, com o namorado. A me ficava aliviada por ver Dora mais alegre, fazendo amigos. Alm dos problemas financeiros, Cleusa se preocupava com a separao do casal. Joel j no telefonava com freqncia.
  -- Estou sozinha - pensava Cleusa. -- O melhor  tocar a vida. Cuidar dos meus filhos.
  Embora tivesse horrio para voltar -- Emlia tambm tinha -, Dora ganhou uma certa liberdade. Cleusa dava at um dinheirinho para o cinema, o barzinho. S exigiu que no tomasse nada alcolico.
  -- Me, eu no suporto lcool!
  Gui tinha muitos amigos. No grupo, Dora passou a ser a mais nova. Emlia, apenas um ano mais velha, gostava de se dar ares de adulta. A maioria dos rapazes, como Gui, tinha moto. Todos estudavam. O namorado de Emlia tinha  entrado na faculdade de Medicina sem fazer nem cursinho. A maioria da turma ia bem na escola. Quando revelou que andava mal em algumas matrias, Dora foi motivo de piada. Teve at mais estmulo para estudar. Algumas tardes, ia para o apartamento de Emlia rever as matrias. Junto dos novos amigos, logo deixou de pensar na escola rica.  Sentia saudades de Magda. Mas, a maior parte do tempo, s sabia pensar em Gui!
  
  (p. 37)

  Tinha colocado o rapaz num pedestal, como se fosse o homem mais perfeito do mundo. Por isso, ficou superirritada quando Tigre veio falar com ela, num intervalo das aulas. 
  -- O Gui e voc esto saindo?
  -- ... acho que sim. Mas isso no  problema seu.
  -- Toma cuidado. Ele  o maior maconheiro do pedao.
  Ficou furiosa. Como o Tigre se achava no direito de falar do Gui?
  -- Voc t com dor-de-cotovelo.
  Tigre abanou a cabea, decepcionado.
  -- Como voc  boba!
  Deu as costas para ele, imediatamente. Saiu andando. Deixou o rapaz completamente sem jeito.
  Os finais de semana no bastavam. Gui e Dora passaram a se encontrar todas as tardes. No faziam nada de especial. s vezes iam para a casa dele. Ouviam msica no quarto, ficavam abraados. Fumavam baseados. Gui acendia incenso para disfarar o cheiro. A me acreditava que ele fazia meditao. Uma vez, pedira at para mostrar como era. Gui sentara de pernas cruzadas, uma sobre a outra. Como um guru indiano. Morria de rir, contando.
  -- A me acreditou!
  Aos poucos, Dora foi abandonando as responsabilidades da casa. Era encarregada de arrumar as camas e esquentar o almoo. Descuidava-se. s  vezes fazia, s vezes no.  Andr passou a esquentar a prpria comida. Freqentemente, ela comia na casa de Gui. Sempre ouvira piadas sobre a chatice das sogras, mas a me dele era tima. Quando a Dora falava de uma receita que gostava, fazia questo de pr na mesa. Andr reclamava.

  (p. 39)

  -- Eu fao a minha parte e voc faz a sua. 
  No comeo, Dora ficava sem jeito. Ia arrumar a cama. Ou at fazia um doce de banana com acar de que o irmo  gostava. Mas comeou a ficar irritada com as cobranas.  Queria passar o tempo todo com Gui. Preferia comer  feijo com arroz frio a perder tempo no fogo. O irmo discutia.  Ameaou contar para a me.  -- Dedo-duro! - Dora acusou.
  A principal razo para abandonar o servio da casa era a vontade de ficar com Gui. Alm disso, quando fumava, dava uma leseira... uma vontade de no fazer nada. Andr no teve coragem de falar para Cleusa. Quis evitar a briga. Muitas vezes, ele tambm comia na casa de colegas. Quem entrasse no apartamento ficaria admirado. O quarto do menino, sempre arrumado. Impecvel. O de Dora, uma baguna. Cleusa percebia. Mas a filha j tinha sofrido tanto! O pai, na Amaznia, no mandava nem carta. Segurou o quanto pde. Ao ver uma pilha de pratos imundos na pia, estourou.
  -- Dora, a casa est uma vergonha!
  -- Ah, me, eu no quero passar a vida toda trabalhando como domstica!
  A briga foi feia. O nome de Gui acabou aparecendo na conversa.
  --  meu namorado. Pensei que voc j sabia. A gente sempre sai junto!
  -- Namorado? Eu... certa de que era s amizade! Como sou tonta!
  Cleusa no podia imaginar que a filha j estivesse com  algum. Pensou que apenas saa com amigos.
  -- Voc no tem idade!
  Dora, teimou. Tinha idade sim. Cleusa se acalmou um pouco quando soube que era o primo da Emlia. O filho do dentista do sobrado de pastilhas. Quis conhec-lo.  Combinaram o encontro para o fim de semana. O rapaz apareceu com um mao de flores. S de v-las, Cleusa amoleceu. Fez questo de que almoasse. Gui ajudou a lavar a loua. Falou de seus planos para o futuro. Jogar basquete, fazer educao fsica.
  -- S prometam no aprontar nenhuma besteira - pediu Cleusa. 

  (p. 40)

  Ambos juravam que no. Nisso, Dora concordava com a me. No tinha a menor inteno de ultrapassar certos limites. Cleusa se tranqilizou. Com seu jeito calmo, doce, Gui a conquistara. Dora prometeu voltar a arrumar as camas, cuidar  do almoo. Quando ela saiu com Gui de moto, Cleusa estava calma.
  Mais tarde, refletiu. Dora estava abrindo as asas muito depressa. Talvez fosse melhor largar o emprego, ficar perto dos filhos. No estava ganhando tanto, afinal. A renda de uma corretora  instvel. O pouco, porm, faria falta. Joel comeara a mandar alguma coisa. No muito, seu salrio no era alto. Com a separao se tornando definitiva, tambm no havia possibilidade de todos se mudarem para Belm. Precisava trabalhar. Teria que confiar em Dora. 
  Cleusa morria de medo de uma gravidez adolescente. Na tarde seguinte sentou-se no quarto com a filha. Falou sobre sexo. Sobre os riscos de uma gravidez prematura. Quase caiu pra trs. Dora conhecia tanto quanto ela.
  -- Ns tivemos aula na escola. As meninas tambm sabiam muita coisa e me explicaram como .
  Percebeu que Dora, nesse aspecto, tinha bastante conscincia.
  -- Prometa sempre me contar tudo!
  Cleusa sorriu quando a filha fez que sim. Dora garantiu.
  -- Eu e o Gui no chegamos a esse ponto. Nem quero chegar.
  Quando Dora saiu, Cleusa observou o encontro dos dois, diante da moto.
  --  um casal to bonitinho! - pensou orgulhosa. E Dora estava to feliz! O namoro fazia bem, concluiu.
  Em relao a sexo, Cleusa no tinha por que se preocupar. Dora e Gui ficavam juntos. Mas restringiam-se a beijos, muitos beijos. Somente alguns abraos eram mais ousados. Dora chegava cedo em casa, como combinara com a me. Os amigos brincavam. 
  -- Est na hora de ir tomar a mamadeira!
  Fingia ficar brava. Mas ria.
  Ela e Gui puxavam fumo sempre. A dois ou em grupo. Quando um no tinha, outro aparecia com a presena. Dividiam os cigarros. Faziam esforo para no serem notados quando fumavam nas ruas ou em pracinhas solitrias. Tambm gostavam de ir ao apartamento de Naldo. Era um amigo de Gui, que morava sozinho com um primo. 

  (p. 41)

  Ambos eram do interior. O apartamento era muito confortvel. Bem montado, com dois quartos.  primeira vista parecia abrigar uma famlia comum. Sofs, mesas, quadros tinham sido escolhidos pela me de um  deles. Havia espelhos, cadeiras laqueadas, aparadores.  Sof adamascado. Os primos tinham dado o toque diferente, enchendo as paredes de psteres, abandonando sapatos e meias embaixo da mesa de jantar e bitucas de cigarro por todos os lados.
  Naldo tinha certa  admirao por Dora. Dizia que era muito bonita. Em poucos anos, seria de arrasar. Bastaria perder o ar de adolescente.
  -- A eu boto esse Gui pra correr - dizia Naldo.
  Dora gostava de ouvir o elogio. Se no fosse Gui, bem que se interessaria por Naldo! Era um rapaz magro, de cabelos  encaracolados. Pele azeitonada e olhos negros bem expressivos. Andava sempre de jeans e camiseta. Bem mais velho que Gui. Bonito e charmoso, com um sorriso sempre aberto no rosto de traos finos.
  Fumavam baseados juntos. Riam muito. Divertiam-se. Como se o baseado garantisse a unio do grupo. Uma forma de contato fraternal. Dali a uns dois ou trs meses, surgiu uma novidade. A branca. Naldo foi o primeiro a experimentar, numa festa. Comentou que era incrvel.

  (p. 42)

  -- Pensei que ia sair voando!
  Dora sentia medo. Cocana era tabu.  Desde pequena, ouvira histrias horrveis. A me comentara sobre um  colega da universidade, viciado, do qual todos se afastavam.  Tambm lera sobre a droga em revistas. Mas, no fundo, acreditava no haver motivo para preocupao. Sabia se controlar. Certa noite, quando estavam no apartamento dos primos, Naldo falou baixinho em seu ouvido.
  -- Disfara e vai l pro quarto. O Gui tambm vai. Mas no tem pra todo mundo.
  Ficou furiosa. O que seria? Tambm sentiu uma ponta de orgulho. Confiavam nela. Tinha sido chamada para algo especial. Foi saindo da conversa. Levantou-se. Entrou no quarto. Gui, os dois primos, Emlia, seu namorado e mais duas  garotas estavam reunidos em volta de uma mesa de vidro. Naldo espalhava um p branco sobre o tampo. Acendeu o isqueiro embaixo do vidro, aqueceu. Distribuiu em carreiras, com  uma gilete. Tirou o bico de uma esferogrfica. Com o  plstico transformado em canudo, aspirou uma carreira.
  Esttica, Dora ficou parada na porta. Horrorizou-se. Diante dela, as carreiras de cocana sumiam nos narizes de seus amigos. Era a vez de Gui. Ele hesitou. Nunca tinha experimentado. Os outros olharam para ele, esperando. Tomou coragem. Cheirou. Estendeu a caneta para Dora.
  -- Voc no vem?
  A  figura de seu pai surgiu dentro da cabea.  O que Joel pensaria dela nessa situao? Nem fazia  um ano que partira. E ela j estava diante de uma carreira de cocana. A famosa branca. Se ele soubesse, que decepo! Mas no queria fazer feio diante dos amigos. Engoliu em seco. Tomou coragem.
  -- No quero. No gosto.
  -- Como no gosta, se nunca experimentou? - Insistiu Naldo.
  -- No quero, pronto.
  Todos riram. Era uma espcie de gargalhada estridente. Uma garota deu de ombros:
  -- Criana  assim.
  
  (p. 43)

  Mesmo furiosa, decidiu no cheirar. Maconha, todos diziam que no fazia tanto mal. (Embora certa vez tivesse ouvido falar que o fumo vem misturado com tudo quanto   porcaria. Os traficantes, para aumentar o lucro, botam at esterco no meio.) Assustou-se quando Emlia debruou-se sobre a mesa e  aspirou. Trocou um olhar com ela, surpresa. A amiga se mexeu, orgulhosa. Sentia-se superior. Nas horas seguintes, ficou  ouvindo Gui falar como se tivesse ligado um motor na lngua. Contou exaustivamente como seria sua vida nos Estados Unidos, quando fosse um grande jogador de basquete. Dora ficou com os ouvidos ardendo, de tanto que ele falava.
  Era tarde. Insistiu em voltar. Gui irritou-se. Discutiram. Estava emburrado quando a deixou em casa. Sozinha no quarto, Dora chorou boa parte da noite. Estaria errada por no entrar no esprito dos outros?  Tinham ficado to animados depois de cheirar. As garotas danaram. Gui parecia brilhar. Silenciosamente, abriu a janela do quarto. Pegou uma  pontinha de um baseado escondida no fundo da gaveta e acendeu. Puxou, tragando fundo. Acalmou-se. Nada era to srio, afinal.
  -- No  legal, Dora.  E se a mame  descobrir?
   
  (p. 44)

  Virou-se, tinindo de raiva. O que Andr estava fazendo na porta? Com que direito...
  -- O pessoal na escola j fala de voc, Dora.
  -- Eu no estou nem a pra eles.
  -- Todo mundo sabe que o Gui transa fumo. Tem gente que j viu voc com ele fumando numa esquina.
  -- E voc com isso? Aposto que na escola tem uma poro de gente que curte esse negcio.
  -- Tem mesmo, e da? S no acho legal voc trazer pra c. A me...
  -- Quer saber de um coisa, Andr... v cuidar da sua vida. A me s vai ficar sabendo se voc contar.
  -- Voc anda muito diferente, Dora.
  -- No enche. Aposto que voc est louco pra experimentar. Ouviram a voz da me, do quarto.
  -- Que barulho  esse? Briga, a essa hora da noite?
  Apagou a guimba, escondeu irritada. Abanou o ar, para tirar o cheiro.
  -- No  nada, me. O Andr veio falar comigo.
  Encarou o irmo.
  -- Sai daqui. V se me deixa na minha.
  Fechou a porta, quando ele partiu. Pensou como era incrvel a quantidade de problemas que tinha de enfrentar.  Passada a raiva, voltou  preocupao inicial. Se experimentasse s uma vez, a coca faria mal? Tinha certeza que no. Talvez fosse como bebida. Muita gente bebe apenas socialmente.  diferente de ser viciado. Poderia se controlar, se quisesse. Falaria com Gui a respeito. Com  Emlia tambm. Nenhum deles era viciado. Eram corajosos. Sentiu-se uma covarde. Poderia ter experimentado. S para saber como era.
  O grupo passou a deix-la de lado. s vezes, no   apartamento de Naldo e do primo, ou em outras reunies, notava que algumas  pessoas sumiam. O banheiro, sempre trancado. Gui tambm ficava fora de vista por algum tempo. Voltava com os olhos brilhando e falando sem parar. Tentava falar da coca. Gui disfarava. Dizia que ela era muito criana para o negcio. Brigavam, depois faziam as pazes. A maior parte dos amigos parecia compartilhar um  segredo, do qual era excluda. Mesmo Emlia se afastava.  Dizia que era muito legal, s isso. Dora fingia que no queria saber. Criticava a amiga. 

  (p. 45)

  -- Voc comea assim,  no sabe onde pode parar.
  -- Parece at minha me falando.
  Irritava-se com a atitude de todos deixando-a de fora.  Seu aniversrio chegou. Cleusa queria fazer uma festa, no salo do condomnio. Chamar as amigas da escola. Arrepiou-se s de pensar. O que a turma pensaria daquelas meninas mal-arrumadas?
  Por fim, comemorou trs vezes.  A primeira foi almoando na casa de Gui.  No final, surgiu um bolo na mesa. Cantaram parabns. Ganhou uma correntinha de ouro. Em casa, no jantar, a me tambm fez questo de comemorar. Apareceu com bolo comprado e presente. Cala e jaqueta jeans, pretas. Ela e Andr no se falavam muito, desde a briga. Mesmo assim, abraaram-se com carinho. O pai telefonou na vizinha. Cleusa havia combinado tudo, vieram chamar. Era emocionante ouvir a voz de Joel depois de tanto tempo.
  -- E a, filha?
  -- Tudo bem, pai. E voc, tudo legal?
  -- Tudo.
  Ficaram em silncio algum tempo. Era difcil continuar, depois de tanto tempo sem se verem. Disse a nica coisa que veio na cabea.
  -- Pai, eu queria ver voc. Tenho saudades.
  -- Eu tambm, minha filha.  questo de tempo.
  O telefonema acabou assim, meio sem assunto. Era doloroso no ter o pai por perto, nem no aniversrio. O que valeu foi, depois, comemorar com Gui. Ele fizera uma festinha surpresa no apartamento dos primos. Havia um bolo comprado na padaria,  cheio de velas. Naldo serviu-lhe um copo de cerveja. Bebeu um pouco, apesar do gosto amargo. Cantaram. Ela riu, disse que nunca tinha recebido tantos parabns num s dia. Depois Naldo abriu um pacotinho. Algum trouxe um espelho do quarto. Dessa vez ningum estava fazendo segredo. Naldo botou o p, esquentou. Enquanto batia as carreiras, ofereceu:
  -- Hoje  pra voc Dora. Eu mesmo comprei. Presente de aniversrio.
  Olhou para Dora.
  
  (p. 46)

  -- Desta vez, voc no vai recusar, vai?
  Ficou emocionada por Naldo ter pensado nela.  Ele devia ter gasto uma nota para comprar tanto da branca. Os olhos se umedeceram. Mas tambm sentiu um arrepio. Uma dvida. A mo de Gui apertou de leve a sua coxa. No, no podia fazer feio. Recusar essa demonstrao de amizade. Aproximou-se,  pegou a caneta vazia da mo de Naldo. Encostou o nariz, e  cheirou.
  Dentro da cabea ouviu tim! Seu corpo todo parecia receber uma descarga eltrica. Sentiu vontade de danar, falar, rir... voar! A viso ficou um pouco turva, desfocada.  Piscou, vrias vezes. Emlia riu tambm.
  -- Bateu, Dora?
  No conhecia o termo, mas sabia o que era.
  -- Bateu. Legal.
  Gui cheirou uma carreira, ofereceu outra. Aceitou. Subitamente, ela  sentia-se forte. Poderosa. A sensao de tristeza que havia desde o telefonema do pai sumiu. Decidiu que iria para a floresta amaznica v-lo. Era s querer. Podia tudo que quisesse. A msica, cada vez mais intensa, parecia entrar diretamente nos seus ossos. Foi para o meio da sala,  comeou a danar. Sempre fora um pouco inibida, costumava achar que era um tanto desconjuntada. Agora seus membros pareciam unidos em harmonia com o som da msica. Gui e Naldo se aproximaram, danando com ela. Danava, danava, o mundo todo se transformava num rodopio. Ria sem parar.
  Ah, como estava feliz!
                                 
  6

  Acordou com o grito da me na porta do quarto. Batidas fortes.
  -- Abra, Dora. A me da Emlia est aqui.
  Um tambor dava estrondos em sua  cabea. Esforou-se para acordar. Difcil. A mo se mexeu vagarosamente. Era um cansao como nunca sentira antes. Como se um vampiro houvesse sugado suas foras. 

  (p. 47)

  -- J vou.
  Levantou-se, com dificuldade. Os ps, puro chumbo. Arrastou-se at a porta. Cruzou o corredor para o banheiro. Assustou-se ao se ver no espelho. Uma moeda negra embaixo de cada plpebra. Pele plida. No podia aparecer assim. Podiam desconfiar. Entrou embaixo do chuveiro. Lavou o rosto, demoradamente. A aparncia melhorou. Passou um creme, para disfarar.  Enrolou-se na toalha. Voltou  ao quarto. Cleusa chamou novamente,  irritada:
  -- Deixe de fazer hora, minha filha.  urgente.
  Pensava devagar. Lentamente, entendeu que era  urgente. Preocupou-se. O que podia ser de to urgente? Queria se  vestir com rapidez. Seus movimentos pareciam em  cmera lenta. Na sala, a me de Emlia. Mal entrou, percebeu seu nervosismo.  A tenso.
  -- Cad a Emlia?
  -- Sei l... ontem eu voltei com o Gui e ...
  
  (p. 48)

  -- Ela no apareceu at agora. Onde vocs foram?
  Hesitou. Como responder? Falar do apartamento dos primos? As mes iam imaginar milhes de coisas. E os amigos? Odiariam se desse o endereo. Seria uma traio.
  -- Diga, Dora... diga de uma vez.
  -- Eu no sei onde ela est.
  Cleusa abanou a cabea.
  --  melhor chamar a polcia.
  -- A polcia no, me! Quem sabe, o Gui...
  Queremos saber por voc mesma. Que fizeram  ontem a noite?
  Emudeceu. Cleusa pressionou. Fez novas ameaas. Apavorada, Dora tentava encontrar uma maneira de falar do apartamento dos rapazes sem chocar a me. Salvou-se no ltimo instante.  Andr, que estava na janela, avisou:
  -- A Emlia est chegando.
  Todos correram olhar. Emlia acabara de entrar pelo porto do condomnio, completamente despenteada. Andava lentamente. Passos tortos.
  -- Que ser que aconteceu? - surpreendeu-se Dora.
  A me de Emlia despediu-se, desculpando-se pelo incmodo. Mal saiu, Cleusa voltou a fazer perguntas.  Mais calma, Dora conseguiu responder com tranqilidade.
  -- Ora, me! A turma comemorou meu aniversrio num barzinho. Depois voltei com o Gui. No sei o que a Emlia fez.
  Foi para a cozinha, tomou duas aspirinas. A cabea continuava trepidando.
  -- Dora, diga a verdade. Voc anda bebendo?
  -- No suporto lcool. Voc sabe.
  Mentir, Dora no mentia. Omitia. Conversar com a me, professores e outros colegas tornava-se igual a andar por um caminho cheio de poas de lama. Saltava um fato aqui,  outro ali. Estava se tornando experiente em rodeios. Dessa vez, foi intil. O alarme tinha soado. Cleusa no conseguia acreditar que Dora no sabia nada sobre o sumio de Emlia.
  Finalmente, Dora conseguiu escapar para a casa da amiga. Emlia estava deitada no quarto. Havia dormido um pouco e chorado muito. 
  -- Estou pssima - foi logo dizendo.

  (p. 49)

  -- O que aconteceu?
  A briga com a me fora horrvel,  contou Emlia. Mas o  pior no era isso. Resumindo: na noite anterior, depois que Dora tinha ido embora, ela continuou cheirando. Tambm bebeu vodca.
  --  incrvel, porque quando o p bate legal eu me sinto o mximo. Mas depois que o efeito acaba d uma tristeza,  horrvel. D vontade de morrer, Dora. Ento, eu cheirei vrias vezes, para segurar a tristeza. No sei o que deu em mim.
  As lgrimas rolavam pelo rosto da amiga. Dora insistiu:
  -- Conta, o que foi?
  -- S sei que uma certa hora eu tive o maior pau com o  meu namorado. Nem me lembro por qu. Eu gritei, ele gritou. No fim, foi embora. Um escndalo. E ai... eu bebi mais um pouco, cheirei... sei l... eu no me lembro direito do que aconteceu, fui entrando numa loucura. Havia um cara...
  -- Quem?
  -- Um amigo do Naldo, que eu s conhecia de vista. Dora...
  A voz de Emlia, estrangulada.
  -- Diz, Emlia. Pode me contar tudo.
  -- Acordei deitada do lado daquele cara... s de calcinha. S lembro da confuso, dele me beijando... eu acordei suada, me sentindo suja. Ele, dormindo do meu lado. Dormindo no, desmaiado. Puxa, um sujeito que eu mal conhecia. Gosto do meu namorado. Fiquei tanto tempo com ele, e nunca quis ir at o fim. Pensa que a primeira vez... sei l, devia acontecer de um jeito especial. E, de repente, eu estava l, ao lado de um  carinha qualquer. Lembrar, no lembro. Sexo, Dora. Transei. Nem lembro se foi bom, se foi ruim... mas no foi bonito, Dora.
  Agora, Emlia soluava sem parar. Dora fez um carinho na mo da amiga.
  -- Voltei de nibus, no tinha dinheiro pra mais nada. Vim pensando.  isso que quero pra mim? Esse negcio me deixa doida demais.
  --  s uma questo de saber controlar, Emlia.
  -- Tambm pensava  assim. Pensava. Esse bagulho  que controla a gente. Desde que comecei a cheirar, d uma vontade, uma secura. Quando eu fico sem, bate uma tristeza. Resolvi parar. Hoje.

  (p. 50)

  -- Parar?
  -- Voc tambm tem que parar, Dora. Ou quer acordar que nem eu, do lado de um desconhecido? Estou me sentindo um lixo! Pensa! Voc e o Gui tambm tm que sair dessa.
  -- Eu nem entrei!
  Eu tambm pensava que no tinha entrado. Ah, Dora, tenho tanta vontade de chorar que voc nem sabe.
  Conversaram mais algum tempo. Emlia voltava ao assunto, contava tudo de novo. Estava exausta. Dora resolveu deix-la descansar. Era sbado. Prometeu voltar no dia seguinte.
  Mal entrou no apartamento, percebeu o clima pesado. Cleusa passara horas pensando. Sentia-se fraca. Incompetente. Chegou  concluso de que estava dando liberdade demais para a filha.
  -- At o sumio da Emlia ficar esclarecido, voc no sai.
  -- Mas o Gui...
  --  O Gui vem visitar voc aqui. No mximo, passeiem pelo jardim do condomnio.
  Furiosa, foi para o quarto. Estava sendo tratada como criana. Teve uma desconfiana. Correu para o quarto de Andr. 
  O irmo estava debruado sobre um microscpio.  Havia um bom tempo, ganhara um conjunto de cincias. Ao receber o presente, no dera importncia. Depois de uma aula, ficara fascinado pelo assunto. Desencaixotara o microscpio. Passava horas olhando clulas.
  -- Andr, a gente precisa conversar.
  -- Ah,  voc? Dora, vem ver. Botei um pedacinho da asa de uma liblula no microscpio. Olha quantas cores... no  fantstico?
  Por um momento, Dora admirou a asa. Sob a lente de aumento, era uma exploso de cores e formas. Em seguida, lembrou-se do motivo que a fizera procurar o irmo. 
  -- Diga a verdade. Voc bateu para a me que me viu fumando baseado.
  Ele garantiu que no. Ela duvidou.
  -- Contou sim. Ela est muito desconfiada. At me proibiu de sair.
  
  (p. 57)

  -- Dora, pensa que a me  boba? Voc d a maior bandeira. Vive mole, cada. Hoje de manh parecia que tinha dormido na linha do trem.
  -- Se ela desconfiasse, tinha me dito.
  -- Quer saber? Acho a maior sacanagem da sua parte.
  -- E voc com isso?
  -- A me j anda de cabea quente por causa de grana. Todo ms faz a maior ginstica. Anda dando o maior duro pra segurar as pontas. E voc s d dor de cabea.
  -- Pra de se meter na minha vida, Andr.  Virou santo, por acaso?
  -- Posso no ser santo, mas tenho cabea. Voc enche Dora. S sabe chorar de saudades daquela turma  fresca da outra escola. Da Magda. Do carro importado. Quer Saber? Voc  uma chata.
  --  E voc, um porco.
  -- Pode me chamar do que quiser. S sei que a mame no merece isso.
  Mais um pouco, e Dora daria um safano em Andr. Santinho do pau oco, isso sim!
  Bateu a porta do quarto, voltou para o seu. Arrumou-se,  espera de Gui. Ah, se fosse mais velha! Poderia ir embora. Sair daquele apartamento horrvel. Ela e Gui pegariam a moto. Partiriam pela estrada. Quem sabe, moraria na praia. Ou na montanha. 
  -- S quero viver minha vida! - lastimou-se.
  Para sua surpresa, Gui tambm estava muito abalado.
  -- O clima pesou l em casa - explicou.
  Foram conversar no jardim. A me de Emlia fora falar com o pai de Gui. Era irm dela, afinal. No sabia a histria toda, mas pelo estado emocional de Emlia tinha certeza de que algo de grave havia acontecido.
  -- Levei a maior prensa.
  -- Gui, voc contou do apartamento do Naldo? Eu no disse nada.
  -- Nem eu. Essa parte a Emlia tambm segurou. Dora, se souberem da histria da coca, vo aprontar o maior escndalo. Do jeito que meu pai , pode at me internar.
  Arrepiou-se. Internarem Gui? Isso era coisa para viciados.
   
  (p. 52)

  -- A Emlia quer parar, Gui. Falei com ela/
  -- Parar?  exagero, nos...
  -- Aconteceu uma coisa horrvel.  Ela me contou. Voc falou com o namorado dela
  -- Liguei pra ele, quando vieram perguntar da Emlia. No quer mais saber. Disse que ela dormiu com um carinha, depois que ele foi embora. O Naldo bateu a fofoca pra ele.
  -- Sacanagem do Naldo.
  So muitos amigos, voc sabe. O Naldo achou que a Emlia no tinha o direito de fazer isso.
  Mas ela no fez de propsito! Nem sabia o que estava acontecendo.
  No rosto de Gui, uma expresso de desprezo.
  -- Conta outra. V se cai a ficha, Dora. Essas coisas ningum faz sem saber.
  Dora ficou em dvida. Era mesmo difcil de acreditar na verso de Emlia. Coca com vodca daria um efeito to forte?
  Discutiram. Dora, a favor de Emlia. Gui, contra.
  -- O pior  que a Emlia botou eu e voc na maior gelada, Dora. Meu pai est pegando pesado. S pude vir aqui porque  perto. Mas no me deu nem um troco. Mesmo que voc pudesse sair, eu no podia.
  Dora pensou um pouco.
  -- A Emlia tem razo, Gui. A gente precisa parar.
  -- Parar o qu? Eu para quando quiser, no sou viciado -  insistiu Gui.
  -- Se voc ou eu... qualquer um for pego, vai ser o maior barulho. Quer saber, Gui? No fao questo de cheirar. Experimentei, j sei como . Acho que nem um baseado a gente deve ...
  -- Um baseado no tem importncia - disse Gui, acendendo um.
  -- Depois de duas tragadas, Dora concordou.
  -- Tudo bem. Um baseado, tudo bem. Mas vamos dar um ch de sumio na turma. Imagina! Se o seu pai manda seguir a gente?
  O rosto de Gui aproximou-se, sorrindo de leve. Cada vez que ele sorria daquele jeito, com o canto do lbio, ela se emocionava. 
  -- Certo. S no quero ficar longe de voc.
  
  (p. 53)

  -- Nem eu de voc. Eu te  amo, Gui. Eu te amo.
  Beijaram-se. O mais importante era estarem juntos,  Dora decidiu.
  A partir daquela noite, houve um perodo de trgua. Dora e Emlia tornaram-se alunas bem aplicadas. Tambm, pudera. Passavam as tardes juntas, estudando. Nos fins de semana, Dora saa com Gui. Mas s para programas aprovados pelos pais. Tanto a famlia de Gui como de Cleusa exigiam saber para onde iam. A que horas voltariam. Dora passou a fazer relatos minuciosos de seus passeios. Se no tivesse to chocada com a noite em que Emlia sumiu, talvez reclamasse muito. Percebera que por traz da animao havia algo de perigoso. Prova disso era a angstia de Emlia nos primeiros tempos.  A amiga sofria com a falta da coca, s vezes dava uma vontade, uma fissura, que era de enlouquecer. Trancava-se no quarto. Tomava banho gelado.
  -- Eu nem cheirava tanto assim! Imagine se usasse todo dia.
  Emlia tambm morria de saudades do ex-namorado. Esse captulo, porm, fora encerrado. Tentara ligar para ele. Intil.
  -- Quando ouviu minha voz, xingou!
  -- Emlia, esquece esse cara.
  Emburrada, Emlia foi  deixando de falar no ex-namorado. Cumpriu a promessa. Nem de baseado queria saber.  Incentivada pela amiga, at fumar Dora fumava menos. O susto fizera com que se tornasse meiga novamente. Voltou a cuidar da casa. Pegou um livro de receitas da me e tentou fazer um  bolo. Ficou mais duro que cimento. Mesmo assim, ela e Gui comeram umas casquinhas. Riram muito.
  No perdoara Andr. O irmo se intrometera demais, pensava. Mal se falavam. Cleusa notara a frieza, sem dar muita importncia. Desde pequenos, os dois viviam brigando.
  Longe da turma, Dora e Gui tinham tempo para se curtir. Estavam apaixonados. Falavam em casamento, um dia. Algumas vezes, Dora e Emlia iam assistir a jogos da seleo. No havia dvida, Gui era um craque no basquete. Depois das partidas, saiam para tomar sorvete. Tinha orgulho do namorado. Os pais foram se acalmando. A presso diminuiu aos poucos.
  O ano terminou depressa. As frias chegaram. Dora  pensava em visitar seu pai, que finalmente se mudara para Belm, deixando a cidadezinha para onde fora inicialmente. 

  (p. 54)

  Decepcionou-se quando ele ligou. No seria possvel.   Justamente nos prximos  meses iria acompanhar um qumico ingls da companhia. O homem vinha conhecer as espcies nativas e Joel o ajudaria a se locomover pela Amaznia. Furiosa, Cleusa discutiu com o marido. No pretendia mais visitar os filhos? Joel prometeu vir assim que pudesse. Estava dando duro no novo emprego.
  Diante da decepo de Dora, Cleusa no teve como recusar o convite da famlia de Gui. Iriam todos para a casa de praia em Maresias, no litoral norte de So Paulo. Dora poderia ficar no quarto com Emlia. A me de Gui veio visitar Cleusa. Prometeu ficar de olho nos namorados.  Entusiasmada, Dora fez as malas. Pelo menos no passaria as frias inteiras naquele bairro abafado, com a janela do apartamento aberta para ver se entrava um ventinho. Andr foi para a casa dos avs em Minas. 
  Era maravilhoso voltar a brincar na areia, como  antes, com o pai! Dora acordava cedo todos os dias. Ajudava Emlia e a me de Gui a prepararem o caf da manh. Na verdade, era mais que um caf. Havia um pouco de tudo: ovos, gelia de framboesa e laranja, torradas, mamo, presunto, queijo. O caf era reforado porque depois s havia outra refeio.  Uma espcie de almoo e jantar conjugados. Ajudada pelas duas, aprendeu a fazer bolo. Era uma receita com leite de coco. Sentiu o maior orgulho quando Gui disso que estava gostoso. Depois do caf, iam para a praia. Passavam horas jogando frescobol. Entrando e saindo do mar. Ou refestelando-se ao sol como um lagarto. Depois de comer,  noitinha, saam  para passear na areia. Nessas horas, Emlia tornava-se cmplice. Ficava sentada na esteira. Ou se divertia com um sundae, enquanto Dora e Gui iam sozinhos para as pedras.
  -- No demorem muito no amasso. Seno eu vou ficar uma baleia de tanto tomar sorvete - pedia Emlia.
  Numa dessas noites, Gui levou uma esteira e deitaram, juntinhos e abraados, para olhar as estrelas. Ele a beijou delicadamente. Dora sentiu a mo dele subindo por seu corpo. Ento, percebeu que iria acontecer. Ou melhor,  queria que acontecesse. Amava Gui. Ele tambm a amava. Olhou o cu estrelado. Sempre sonhara que seria assim, bonito. Quando ele desabotoou sua blusa leve, no resistiu. Encostou-se no corpo dele. Abraaram-se. O beijo foi mais longo do que nunca. 

  (p. 55)

  -- Gui, voc me ama?
  -- Claro, Dora. Voc sabe.
  -- Gui... eu tenho medo.
  -- Fica tranqila. Nada de ruim vai acontecer com voc. Eu no deixo.
  Sentiu-se segura, como no se sentia desde os tempos de criana. Quando seu pai a pegava ano colo. Abraava. Deixou  o corpo dele colar no seu.
  Mais tarde, s de lembrar  daquela noite, sentia o corao bater mais forte.
    
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  Algumas semanas antes de 
acabar a temporada na praia, Gui passou a agir de forma diferente. No incio, no era nada que Dora soubesse descrever. Apenas uma sensao de estranheza. s vezes parecia mais alegre. Outras, mais agitado. Depois ficava deprimido. O humor, sempre variando. Emlia desconfiou.
  -- Ele anda cheirando de novo.
  -- Deixa de bobagem, Emlia. O Gui no ia fazer isso sem me contar.
  Acabou descobrindo. No bar da praia, o  banheiro ficava do lado de fora. Certa noite, estava com Emlia numa mesa. Gui demorava a voltar.
  -- Ser que se sentiu mal?
  -- Saiu. Na porta, ainda no escuro, viu o namorado de p. Falava com um amigo, conhecido como "surfista". O rapaz entregava um pacotinho. Pensou que era maconha. Estranhou. Ele havia trazido um bom suprimento de So Paulo. Esperou. Os dois se despediram e Gui caminhou na direo do bar. Surpreendeu-se ao trombar com Dora.
 
  (p. 56)

  -- Que negcio  esse? Me vigiando?
  -- Fiquei preocupada, voc sumiu! Mas eu vi sem querer. Era fumo?
  Notou a hesitao.
  -- Gui, voc prometeu!
  -- So s umas gramas. Para animar as frias.
  -- Se no tem  problema, por que me escondeu?
  -- Porque voc entrou da na Emlia. Ficou chata.
  Quis responder, mas ele argumentava.
  Tambm no precisa armar a maior batalha. A Emlia entrou numa pior, naquela noite. Posso entender. Fez bobagem. Perdeu Rafa. Comigo, com voc,  diferente. A gente sabe se controlar. 
  Reconheceu que ele falava a verdade.
  -- Nunca fiquei doido. Voc s cheirou no aniversrio.  diferente da Emlia, que quando comeava no conseguia parar. 
  Por mais que buscasse argumentos, Dora no soube o que responder. Vendo o pacotinho, lembrou-se da noite da festa. Da animao. De como tinha danado solta, como uma ave planando  sobre o mar. Nunca mais danara dessa maneira.
  -- Vem, vem comigo pra praia. S uma carreira.
  Decidiu.
  -- Vai indo, eu j te alcano. Vou avisar a Emlia. Deixa comigo, ela vai pensar que a gente quer namorar. 
  Depois daquela noite, Dora passou a cheirar com freqncia. Nunca muito, mesmo porque no havia tanto assim. Era divertido. Passava horas com Gui.  Qualquer assunto era motivo de risada. Conheceu o surfista que fornecia coca. Estudante do segundo grau, era filho de um advogado famoso. A famlia tinha dinheiro. Mas, como ele gastava muito em coca, acabava vendendo uma parte do que comprava.  Custeava a sua. No demorou muito, Emlia descobriu.
  -- Dora, voc est maluca. Como pode cheirar depois de tudo que me aconteceu?
  -- Pensei bem. Tomei minha deciso. Tem  gente que s bebe de vez em quando, tem gente que  alcolatra. J li sobre o caso. Voc no consegue resistir. Sempre quer mais. Eu no, s cheiro quando quero.

  (p. 57)

  Com esse argumento, tapou a boca da amiga. Emlia irritou-se. Achou que Dora a considerava irresponsvel. Foram esfriando, aos poucos. Mas isso no tinha mais importncia. Nada mais de passar horas no barzinho, batendo papo. Ia a praia, com Gui e os amigos. Eram tantos garotos e garotas juntos que pais e mes no viam problema nenhum. A turma toda cheirava. Ela consumia s um pouquinho, de farra. Gui usava um pouco mais.
  S para animar. Estamos em frias! - ele dizia.
  Logo surgiu um problema: dinheiro. Gui tinha gasto, at ali, tudo o que ganhara da av no aniversrio. Pediu mais um pouco  me. No incio, veio fcil.  Finalmente, ela fechou a torneira:
  -- Meu filho, onde  que  voc gasta tanto dinheiro aqui na praia?  J torrou a mesada e muito mais. Acabou.
  -- A cerveja anda cara por causa da temporada.
  -- Pois beba em casa. No sei que graa vocs vem em passar a noite metidos naquele barzinho, num barulho infernal!
  No houve jeito. Trocou o relgio por umas gramas e fingiu que o havia perdido na areia. A me ficou penalizada:
  -- Um relgio to caro!
  Para ajudar, Dora deu a correntinha de ouro, que ganhara no aniversrio. S se negou a vender o relgio que ganhara do pai. Gui torrou os objetos que possua. Foram-se tambm os culos de sol e um som porttil. Ela se assustou:
  -- A gente est gastando muito, Gui.
  --  s pra aproveitar o fim das frias. Em So Paulo, acaba.
  Voltaram queimados do sul, dali a algumas semanas. Os cabelos de Dora, compridos, tinham mechas luminosas. Cleusa estranhou a magreza da filha:
  -- L no tinha o que comer?
  -- Sei l. O mar me tira a fome.
  A me acreditou. Quis  conversar.
  -- Pensei muito enquanto voc estava fora. Sabe, minha filha, eu fui criada no interior de Minas. Meus pais eram rgidos.
  -- Eu sei. A sua me  minha av, lembra!
  Riram. Cleusa continuou:
  -- Muitas amigas minhas eram liberais. Eu no.  Seu pai foi meu segundo namorado. O nico homem da minha vida, voc entende? Mas agora, tudo est to mudado. Vocs nem falam mais em namorar, s ficar. E eu... eu no sei direito o que pensar. o que fazer. 

  (p. 58)

  -- Deixa rolar, me.
  -- Eu no quero ser chata. Diga... alguma coisa entre voc e o Gui... j aconteceu?
  -- J, me. Foi maravilhoso.
  Cleusa deu um suspiro longo. Abriu a bolsa, tirou um pacote. 
  -- Parece que eu adivinhei. No sei se eu estou certa ou errada, mas... eu comprei isso pra voc.
  Era um pacote de camisinhas. Dora riu.
  -- Que bobagem, me... o Gui e eu somos um do outro e ...
  -- Minha filha, a camisinha no  s para evitar doena. Filhos tambm. Voc   muito nova, tem um futuro pela frente. J imaginou, estar aqui no ano que vem trocando fraldas de um beb?
  Dora guardou o pacote. A me encerrou a conversa, sem jeito:

  (p. 59)

  -- Na sua idade, eu nem pensava direito nessas coisas. Enfim ...a minha me morreria se me visse dando esse presente a voc.
  No quarto, Dora pensou na atitude da me. Fora legal, bem mais do que poderia supor. O fato  que as camisinhas no eram to necessrias assim. Desde que voltaram a cheirar, tinham esfriado na parte fsica. O amor continuava o mesmo, mas Gui contentava-se com beijinhos. De noite, quando ele chegou, mostrou o pacote. Quase morreram de rir, juntos. Em seguida, ele props:
  -- Faz tempo que a gente no v o Naldo e o primo dele.  Vamos dar uma passada no apartamento deles? A marcao dos meus pais e da sua me j acabou.
  Sentiu um gelo na espinha. Recusou:
  -- Ah, no, Gui ... eles estavam entrando numa muito pesada. Voc disse que a gente ia cheirar s de vez em quando.
  De m vontade, ele explicou. S queria conseguir umas carreirinhas para animar a noite. Decidiu procurar o surfista, que tambm voltara da praia. Arrumaria algum. Recebera a nova mesada. 
  -- Ele disse que sempre vai a um barzinho que eu  conheo. A gente vai tambm. Se der de cara com ele, tudo bem.  Diz pra sua me que a gente volta cedo.
  -- Certo - decidiu Dora.
  Passearam pela Vila Madalena. Cruzaram o colega da praia. Estava cheio de pacotes para desovar, como contou:
  -- Conheci um cara ponta firme. Um tal de Elias.  enturmado com os caras l da favela. Arruma uma farinha da melhor. Purssima.
  O bolso cheio de papelotes, Gui viu Naldo de longe.
  -- Se a gente no for at l, fica chato.
  Mal avistou os dois, Naldo correu:
  -- Que saudade! Onde se meteram?
  O abrao carinhoso envergonhou Dora. Como querer se afastar de um amigo daqueles?
  -- Problemas de famlia - explicou Gui.
  Naldo riu:
  -- E eu, pensando que a Dorinha j tinha dado o fora em voc e estava livre pra mim!
  
  (p. 60)

  Todos riram. Dali a pouco estavam conversando como se nunca tivessem deixado de se ver. Dora explicou:
  -- Quando a Emlia sumiu aquela noite, deu o maior rolo. Foi por isso que a gente deu um tempo.
  Naldo concordou.
  -- A Emlia ficou doida.  bom que tenha sado da turma. Detesto gente que perde o controle.
  Em seguida, arriscou:
  -- Vocs tem alguma coisa pra me apresentar?
  Acabaram no apartamento. O primo de Naldo estava acabando um macarro de pacotinho quando entraram. O surfista tambm foi. Dora espantou-se: a sala estava quase vazia, despojada de vrios mveis.
  -- Vendi aquela droga de jogo de sala de jantar - explicou Naldo. -- Era o fim. 
  -- A minha me quase pirou quando descobriu - revelou o primo. 
  A falta dos mveis provocou uma certa inquietao em Dora. No sabia explicar o sentimento. Era desagradvel. Gui abriu alguns papelotes. O surfista tambm ofereceu algum. Todos cheiraram. Acabaram com as primeiras  carreiras e comearam a conversar. Naldo ria, com ar de moleque. 
  -- Vocs no esto com nada - declarou.
  -- Qual ? Quer ofender por qu? - irritou-se Gui.
  -- Sei de um jeito bem melhor - disse Naldo.
  Foi ao quarto. Trouxe uma seringa, ainda no pacote da farmcia. Dora horrorizou-se. Morria de medo de injeo. Tinha visto um grupo de rapazes tomando pico num filme. Dava horror. Para Gui, era motivo de curiosidade:
  -- No di?
  -- S uma picadinha. Quando bate  o mximo.
  -- Eu no topo nessa no - rebateu o surfista. --  muito louco.
  O primo preparou a seringa. Naldo aplicou no primo, depois ofereceu:
  -- E vocs? Vo ficar a caladinhos, que nem anjos de procisso?
  Subindo a manga, Gui apresentou a veia:
  -- S um pouquinho, para eu saber como .

  (p. 61)

  Alguns minutos depois, a expresso de Gui era de puro fascnio.
  -- Dora, voc no sabe como bate legal.
  Preocupada, olhou para os outros. Ningum estava gritando que nem louco. Experimentar s uma vez no era o mesmo que ficar viciada, Decidiu. Esticou o brao. Virou o rosto para no ver a agulha. A picada doeu, mas logo depois esqueceu-se disso. Era como se um vendaval entrasse em sua cabea. Uma sensao indescritvel.
  -- Eu podia voar se quisesse!
  Todos falavam ao mesmo tempo, e Dora conseguia entender tudo que estavam dizendo. Ela tambm contava um caso engraadssimo, que acontecera na praia. Era fantstico. Riam sem parar, embora ningum ouvisse ningum. Como se estivessem surfando sobre uma onda gigantesca. S caiu em si depois de algumas horas, quando bateu o cansao.
  -- Precisamos voltar, Gui.
  Ele olhou o relgio. Era tarde. Desceram. L embaixo, no conseguia fazer a moto pegar. Riram tanto que o porteiro do prdio veio pedir silncio. Foram, ainda rindo. Gui corria um pouco demais, mas ela no ligou. Tinha pressa. 
  Chegou em casa, a me j estava deitada.  Caiu na cama, extenuada. Ainda bem que era fim de semana. No conseguiria acordar para a aula no dia seguinte. Despertou cedo. A voz de Emlia dava marteladas em sua cabea.
  -- Que foi?
  -- Sua me me procurou, Dora. Disse que voc chegou supertarde. Quer saber onde  que costuma ir. Disse que no sabia, mas ela insistiu.
  -- No entendo minha me. D uma de liberal, mas s eu atrasar um pouquinho, fica louca. 
  -- Dora, fiquei super sem  jeito com sua me. Ela no  est furiosa. Ficou preocupada, s. No sabe no que  voc est se metendo. O pior  que eu sei, amiga. Sai dessa. Voc no vai conseguir segurar essa barra.
  -- Ah, Emlia, voc anda cada vez  mais chata.
  -- Dora, conheo o Gui desde pequeno. Sempre foi  atirado... rebelde... eu sei que ele est se metendo na droga e voc  indo junto.
   
  (p. 62)

  -- Vai dedar a gente, vai?
  -- No sou dedo-duro.
  -- Ento v se me deixa. 
  Cobriu o rosto com o lenol. Estava exausta. Emlia saiu, ofendida. Dormiu mais duas horas. Levantou muito depois do almoo. Olhou o brao. Havia uma marca vermelha. Botou uma camisa de  manga comprida. Na cozinha, Andr ajudava a me a lavar os pratos. Cleusa tinha uma expresso  exausta. Dora foi at o fogo se servir. A me comeou:
  -- Depois de tudo que a gente conversou, eu dei um voto de confiana e voc. Na primeira oportunidade...
  -- Ih, me, deixa! Estou com dor de cabea.
  -- Quem ficou com dor de cabea fui eu, esperando. Pensei em chamar a polcia. Dormi de cansada. De manh,  a primeira coisa que fiz foi ver se voc estava no quarto. Minha filha, parecia que voc tinha desmaiado, de tanto sono. Cheirei pra ver se voc bebeu. 
  -- Mas no bebi. Voc sabe que no bebo.
  A me, derrotada.
  -- Cheiro no tinha no.
  Notou o olhar de Andr na sua direo. Fixo. Acusador. Desviou. Comeu, sem muita fome. A comida entrava pastosa pela boca. Depois, foi dormir de novo.
  Acordou de tardezinha. Sentia-se muito melhor. Tomou um banho demorado. Foi at a sala, ligou a televiso.
  -- Hoje voc no vai sair.
  -- O que foi que eu fiz me?
  -- Sabe muito bem a que horas chegou. Amanh tem aula, esqueceu?
  -- Me, desculpa, eu perdi a hora, s isso.  Fazia tempo que no via a turma. 
  Subitamente , Dora descobriu que podia ser   sorridente, simptica. Faria de tudo para convencer a me. 
  -- Turma? Que turma, que ningum conhece?
  -- So os amigos do Gui.
  -- J estou farta desse Gui.
  -- Me, eu e ele vamos nos casar. Acredite.
  -- Casar? Deixa de dizer bobagem. Nem saiu das fraldas!
  -- Tambm, no precisa me tratar assim. Eu prometo chegar na hora que voc mandar. 

  (p. 63)

  Cleusa pensou algum tempo.
  -- Tudo bem, Dora, Eu vou confiar em voc mais uma vez. No me desaponte. 
  A moto buzinou. Correu escadas abaixo. Beijou Gui e  pulou para a garupa.
  Estava louca por mais uma dose. S uma. A  ltima, decidiu.
    
  8

  O crack entrou na vida de Dora logo depois. Quando conheceu Elias, no foi com a cara. Nem um pouco. Era agitado, tenso. Como se houvesse um fio de eletricidade dando descargas dentro do seu corpo. Magro, moreno, cabelo  ondulado. No tinha dois dentes na boca. Mal se notava, porque sorria de boca fechada. O antebrao repleto de tatuagens. Falava rapidamente, engolindo finais de palavras. Pele e  cabelo oleosos. Levava jeito de quem no toma banho todo dia. 
  Filho de um pastor presbiteriano, Elias tivera uma educao super-rgida. Em criana,  era considerado um menino modelo. Tipo tmido. Sabia recitar versculos da Bblia. Aos treze anos, conhecera o crack, atravs de um amigo de escola. Hoje, vivia fora de casa. Um dia aqui, outro ali. Conhecia todo o pessoal da favela. Ningum comentava muito como sobrevivia, mas Dora soube de cara. Traficava. No se tratava  de um traficante importante, desses que mandam nos cartis da droga. Fazia pequenos negcios. Dava a impresso de ser mo-aberta. Oferecia as pedrinhas do crack de graa aos novos amigos. 
  Na verdade, assim formava freguesia de crack. Sabia que quem usava uma vez, duas no mximo,  j no podia viver sem. Em seus dezoito anos de vida, Elias vira dezenas de pessoas experimentarem. Algumas, s por curiosidade. Depois da primeira vez, todos queriam uma outra. A sensao vinha rpida, ofuscante. Batia na cabea em questo de segundos. A pessoa se sentia poderosa. Plena. Onipotente. Acabava o efeito e vinha uma sensao amarga. 

  (p. 64)

  Um vazio. Enjo. Era preciso outra e outra pedrinha. O desejo no acabava mais. Elias j vendera crack a estudantes, empresrios, modelos. Gente rica e garotos que moravam na rua. 
  Conhecera Naldo atravs do surfista. Estava sem lugar pra ficar. Acabou no apartamento dos primos, por duas semanas. Os dois ficaram satisfeitssimos em oferecer hospedagem, paga com pacotinhos de p, pedrinhas de crack, merla e outras novidades alucinantes.
  -- O efeito  um tiro - explicou Naldo,  quando ofereceu crack a Dora.
  Dizer que ela hesitou seria mentira. Tinha curiosidade por novas sensaes. Achou timo. No tinha que tomar injeo. Era mais rpido, mais alucinante que o pico. Batia diretamente no crebro. S havia um problema: o efeito durava pouco. Logo descobriu que no podia passar sem. Dava um vazio, uma angstia, s acalmada com outras pedras de crack. Estas eram  fumadas das formas mais diversas. Em geral,  pegavam uma lata, fechavam e aspiravam atravs do buraco. Tambm usavam caixas de fsforos vazias. 
  -- Assim a gente no perde nem uma fumacinha - mostrou Elias. 
  Apesar da m impresso inicial, Dora perdeu a  antipatia por ele rapidamente. Para ela, Elias jamais negava. Flertava sem disfarce. Cravava os olhos em suas pernas. Dizia que era bonita. Dora se constrangia. Sempre aceitava um pouco de crack, de presente. Naldo brincou, certa vez:
  -- Cuidado, Gui... o Elias parece super a fim da Dora.
  Ela riu.
  -- Nem pensar! Aquele desdentado. 
  Gui reagiu de forma aptica. Ainda se  consideravam namorados. Mas tinha se tornado mais uma relao de cabea. Mal se beijavam. Gostavam de curtir o barato  juntos. Tinham longos papos. Gui atravessava uma fase de depresso. Perdera o lugar na seleo juvenil de basquete.
  -- Foi uma injustia, sempre joguei bem!
  Os amigos concordaram. Dora sentiu um desconforto. Gui andara faltando aos treinos. Quando fumava crack e jogava era um s Se faltavam as pedras, nem queria ir. Ou se comportava como um macarro na quadra. Perdia passes.  O tcnico o chamara para uma conversa homem a homem. Sem  meias palavras. Perguntara se Gui andava metido com drogas. A agressividade do rapaz forou a deciso:

  (p. 65)

  -- Voc prometia ser o maior, Gui. Se fosse franco, eu ia tentar ajudar voc. No quer se abrir. Tudo bem. Voc sai. No quero complicao pro meu time. 
  Lugar perdido, o ex-futuro campeo s sabia criticar. Pssimo tcnico, dizia. A turma aprovou sua atitude. Fizera muito bem em no contar sobre o crack . Ningum entenderia.
  -- Iam chamar  seu pai e botar voc numa clnica - comentou Naldo.
  Disso, todos tinham horror. Ningum queria saber de tratamento. Dora refletiu: tambm andava faltando  muito a escola. Esperava que ningum chamasse a me. O clima em casa j andava pssimo. O pai pedira a separao judicial. Pretendia se casar novamente. A me fervia de mgoa. Explodira com Dora. 
  Uma discusso horrvel. Cleusa fora na rea de servio lavar um pouco de roupa,  noite. Esbarrara num balde embaixo do tanque com trs camisetas sujas de molho. Esquecidas havia semanas. A gua cheirava mal.  Tinha bolor. Quando a me chamara, Dora estava no quarto, tentando fazer um trabalho de escola. Embora soubesse tudo sobre o tema, no conseguia  juntar os pensamentos. Pareciam pedaos de um quebra-cabea soltos,  desconjuntados. Irritou-se quando  Cleusa exigiu que fosse at o tanque. Olhou o balde. Parecia estar vendo um filme, como se no fosse com ela. Quando no havia  crack, era  assim. Sentia-se ausente do mundo. 
  -- No tem vergonha?
  Andr assistia a tudo, em silncio. Veio uma vergonha enorme do irmo. Com ele, a me nunca gritava. Tambm era um babaca. Passava os dias debruado sobre o microscpio.
  -- Me, voc est descontando porque o pai que se  separar de vez!
  -- Descontanto, Dora? Olha aqui!
  Cleusa puxou a filha pela cozinha, mostrando os cantos sujos. O apartamento abandonado.

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  -- Voc prometeu, ia me ajudar! No cumpre nenhuma das suas obrigaes, nenhuma!
  -- Varri a sala anteontem.
  -- No minta! Olha a sujeira nos cantos! Tudo est imundo!  No fim, Dora trancou-se no quarto. Cleusa ficou sentada na sala, exausta. Ligou a televiso. Os olhos parados no ar. Ser ver. Dali a uma hora, foi at a filha. Falou, seca.
  -- Decidi contratar uma faxineira. Vai ser apertado, mas do jeito que voc anda no sei mais o que fazer . S quero que voc pense, Dora, pense muito no que est fazendo comigo!
  Quando a me saiu, deu de ombros. Se ao menos houvesse uma pedra para fumar e viajar um pouco!  Sentiu-se injustiada. S sabiam brigar, discutir. Ningum a  compreendia. Lembrou dos amigos. Sem eles, estaria s no mundo.  Acabada. Na escola, no tinha mais ningum. Nem com Emlia se dava mais. Tigre viera falar com ela umas vezes:
  -- Dora... outro dia eu vi voc num barzinho.
  -- E dai?
  -- No sei como a sua me deixa voc andar com aquela turma.
  -- Ningum manda em mim. V se me deixa. 
  Tigre afastou-se. Com o irmo, as conversas tambm eram cada vez mais raras. No dia seguinte   briga, ele puxou  assunto. 
  -- Eu no entendo mais voc
  -- No enche!
  Andr contou que na escola comentavam que Dora estava metida com drogas. Assustou-se. De onde sara o  boato?
  -- Dizem que voc e o Gui andam com uma turma esquisita. S podia ser o tigre, concluiu. Encerou a conversa com o irmo. Ao ver o Tigre novamente, no hesitou.
  -- Voc anda espalhando muita histria a meu respeito.
  O rapaz se surpreendeu.  Garantiu no ter nada a ver com aquilo. Ela insistiu. Falou da conversa com o irmo. Tigre deu de ombros.
  -- Pensa que  invisvel, Dora?  Que ningum v seu  jeito? O povo com quem voc anda?  Que  a nica que sabe das coisas? Quer saber? V se ralar.
  Surpresa, viu Tigre se afastar. Nunca aceitara a amizade e quem sabe algo mais - que ele fazia tanta questo de lhe oferecer.  Mesmo assim, deu uma dorzinha. Um medo. Era o ltimo a se interessar por ela naquela escola.

  (p. 67)

  Entre sua turma de amigos, as coisas tambm j no eram  como antes. O motivo: dinheiro.
  At essa poca, era um por todos e todos por um.  Quem tinha alguma coisa apresentava para os outros.  Nunca fora obrigada a comprar maconha, ecstasy,  coca ou crack. Ganhava. Os primos recebiam uma boa mesada. Gui tambm. A namorada do primo de Naldo era de famlia rica.  Outros amigos tambm se viravam. Sempre algum tinha dinheiro para o p. Quando comearam a cheirar maiores quantidades, os primos venderam mais alguns mveis. Gui tambm torrou alguns presentes dados pela famlia. Durante algum tempo,  todos se ajudavam para comprar o bagulho em conjunto. Mas logo tudo mudou. Foi-se a antiga solidariedade. 
  Para sustentar o p e o crack na velocidade com que  consumiam, nunca havia grana suficiente. Os primos liquidaram com os ltimos mveis. No apartamento, a geladeira, antes cheia, vivia vazia.  S comiam ovos e macarro instantneo. Certa vez, de tanta secura, Gui pegou escondido um chuveiro de diamantes da me, vendeu. Ningum descobriu na casa dele. O anel fora da av de Gui, que dera  me.  Estava guardado para a esposa de Gui, quando ele casasse (para o irmo mais velho fora dado um presente equivalente). Gui e Dora raciocinaram que, no futuro, pertenceria mesmo a ela. No pretendiam se casar mais tarde? Estavam apenas antecipando.  Elias conhecia um receptador. Ficara com o anel a troco de  algumas pedras. Durou pouco. Chegou a vez de Dora.
  -- Eu no tenho como arrumar grana - ela se lamentou. -- Nem mesada a minha me me d. Meu pai...
  -- Olha nas gavetas. Deve ter uma joiazinha que sobrou dos bons tempos.
  Havia, sim. Um broche de ouro, com turquesa.  Uma gargantilha com guas-marinhas, fazendo par com brinco e  pulseira. Cleusa j tentara vender, mas ofereceram pouco. Guardara no fundo da gaveta do armrio embutido. Bem escondido. Dora sabia onde. 
  -- Tambm, de que vale ter jias para deixar escondidas?  -  decidiu

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   tarde, sozinha em casa, entrou no quarto da me. Deu um friozinho na barriga. Medo de que algum aparecesse. Abriu a gaveta. Ouviu um estalo, fechou depressa. Seria o irmo chegando? Esperou, tensa. Diria que estava  procurando um leno. Nada. Botou a mo no fundo da gaveta. No achava. E se a me tivesse encontrado outro esconderijo? Como dizer que no conseguira nada? Gui esperava l fora. Iriam juntos comprar as pedras. Procurou melhor. Os dedos bateram num volume. O embrulho! Abriu, retirou as jias. O corao saindo pela boca. Botou dentro da mochila. Amarrou o pacote de novo, s pressas. Com sorte, a me demoraria para descobrir. Fechou a gaveta, saiu correndo. Subiu na moto, e partiram.
  Pela primeira vez, levou pedras para casa.  Trancada no quarto, a janela aberta, fumou. Deixou um incenso aceso, para disfarar. J no dava para passar muitas horas sem nada. Tentou imaginar uma maneira de arranjar mais dinheiro. O estoque iria acabar rapidamente.     Mais tarde, no conseguia dormir. No fundo da mochila havia umas plulas. Nem sabia que era ganhei de Elias. Tomou. O sono desceu rapidamente e. envolveu-se na escurido.

  (p. 69)

  Acordou com a voz da me exaltada. Era meio dia. Perder a aula novamente um cliente desmarcara o compromisso. Cleusa viera almoar em casa. Imaginou que a me gritava por ela. Por causa da hora. Sentiu uma pontada na cabea. Segura. Logo percebeu. A me gritava com a faxineira.
  -- Ladra. Voc roubou minhas jias.
  -- A senhora no me ofenda, que eu sou honesta !!!defendia-se a mulher.
  -- A me foi buscar a certido de casamento, tambm  guardada na gaveta. Precisava de uma copia para enviar ao advogado. Notara um embrulho mal-arrumado. Dora saiu do quarto.
  -- Vou chamar a policia - declarou cleusa 
  -- Chama estou tranqila - declarou a faxineira -- No fico aqui nem mais um minuto. No nasci para ser chamada de ladra.
  A mulher saiu batendo a porta. Para a me, foi a prova de que tinha roubado mesmo. Gritou da janela. Um escndalo. Outra mulher que usava o servio da diarista no condomnio apressaram-se em despedi-la. A faxineira xingou. 
  Assustada Dora calou-se. A qualquer momento poderia ser acusada. Mas ningum tocou no seu nome. Sentiu um desespero tremendo. Vontade de cair nos braos da me. Era horrvel ficar calada. E se contasse?
  -- Vai dizer que sou viciada - pensou Dora. - nunca vai entender que posso largar quando quiser.
  A me chorava.
  -- A vezes eu pegava  as jias e olhava. Lembrava do inicio do casamento, quando seu pai ia to bem na firma.
  -- Chama a policia me props Andr.
  Cleusa abanou a cabea.
  -- Aquela faxineira j deve ter dado fim nelas, no tenho recibo, nem prova nenhuma.  perda de tempo.  
  Mais tarde ela e Gui discutiram a questo do dinheiro.
  -- O que eu ganho no da nem para min , Dora. Quanto mais pros dois.
  
  (p. 70)

  -- Egosta s pensa em voc.
  Estava no apartamento do Naldo, fumando as duas ultimas pedra. Elias entrou na sala, perguntou, esperanosa se tinha algumas. 
  -- Bem que eu queria te dar. Mas ai eu me ferro, Dora tenho que pagar o carrinha  da favela.
  Era fcil levantar uma grana segundo Eias. Bastava pegar o sons de uns carros.
  --  facial de vender eu sei quem compra .
  Continuo com o plano:
  -- Sozinho no da. Se vocs toparem ..... rachamos.
  Abrir um carro era questo de segundos. Mostraria como fazer . Com a moto de Gui dava para fugir depressa, mesmo com o alarme tocando, seria possvel pegar o som e dar o fora.. Dora e Gui se olharam pensativo.
  -- No quero roubar disse ela.
  -- Deixa de bobeira no  como se fosse um assalto  no aramada.  s pegar o sons e dar  no p. Ningum sai machucado diz Elias.
  Decidiram roubar s carros novos, mais caros.
  -- Assim a gente s leva de quem tem . Dos ricos. Imaginou Gui.
  Quando saiam na rua escolhiam o que estava mais fcil . Tarimbado Elias sabia todos os tipos de truque. Ate abaixar o vidro com um fio de nailom, abaixava. O mais rpido porem era quebrar o vidro com a chave de roda. Pegar o som e sumir. Se havia um casaco ou uma sacola sobre o banco, Dora tambm levava. Muitas vezes ela e Gui morriam de rir comentando as aventuras.
  -- Viu quando o cara saiu correndo atrs da moto 
  -- Imagina tentar alcanar uma moto poderosa s na base das pernas !!!
  -- Por sorte a gente escondeu a chapa!
  Ao se sentirem seguros, caiam nos braos um do outro. Beijavam-se. A vida ganhara um sabor de aventura. O amor  parecia mais forte. Mo eram os nicos a recorrerem  a expedientes para conseguir grana. Todos na turma, todos, de alguma maneira, estavam  arrumando dinheiro. Como? Nenhum contava para o outro. Naldo estava comprando muito mais do que antes. Como se tivesse uma fonte inesgotvel de renda. Voltara ate a ser generoso. Oferecia aos amigos. A namorada da prima de Naldo era quem tinha mais facilidade.

  (p. 71)

  A av deixara duas casas de aluguel para ele. O dinheiro era depositado no banco, numa conta de poupana. O pai guardava, para um dia, a filha estuda no exterior. Ela descobrira a senha nas anotaes do pai. Jogava o dinheiro em sua prpria conta e gastava. Como no costumava movimentar a conta o pai  cheio de trabalho nunca olhava o saldo. Que estava sempre a zero.
  A amizade de todos sofrera, porem uma transformao. J no falavam to intimamente quanto antes. Possuam seus segredos, e nem um queria abrir para o outro.
  -- Cada um na sua pensava Dora.
  O apartamento do primo se transformara numa espcie de territrio livre. A tal ponto que nem as mes e os pais dos dois, quando vinham do interior queriam ficar l.
  -- Como vocs fizerem para os velhos no descobrirem ?
  -- Surpreendeu-se Dora.
  -- Fora fcil. Os pais imaginavam os rapazes cercado de mulher. Na maior farra. O de Naldo at dissera
  -- Aproveite a vida enquanto e jovem.
  Dora sorriu. Quando imaginava o pior, os pais sempre pensavam em sexo.  Durante alguns tempo, graas ao roubo, no faltavam  dinheiro para as pedras. Cleusa brigava quando Dora chegava muito tarde. Era o de menos bastava fumar para se sentir nas nuvens. Assaltavam vrios caros na noite. Elias agora tambm tinha uma moto, que conseguiu ningum sabe como. 
  Um dia tudo deu errado. Como de habito saiam os trs. Procuravam uma rua deserta. Eram onze horas. Roubar era to fcil. A tenso das primeiras vezes acabar. S se preocupava com que diria a me quando chegasse. Tentava na medida do possvel manter a aparncia. Escolheram um veiculo entre vrios estacionados na rua. As duas motos pararam, motores ligados. Como sempre, Gui bateu com a chave de roda no vidro. O alarme estourou no ato. Um barulho estrondoso ele abriu a porta. Dora ajudou. S precisava ser rpida. Tentou desatarraxar o som. Nesse instante Gui puxou seu brao. 

  (p. 72)

  -- Corre, Dora. Algum acendeu a luz l em cima.
  Vrias pessoas apareceram na janela de um apartamento. Dora ainda tentou tirar o som. Elias gritou:
  -- Depressa, o cara est armado.
  Do apartamento iluminado, um homem atirava. Devia ser o dono do carro. As mulheres gritavam. Gui tentou subir na moto. Deu um grito. O corpo deu uma guinada, como se atingido por um vento forte. Ainda tentou se equilibrar com mo no banco.
  -- Venha, Gui - Dora gritou, no querendo acreditar no que via.
  Cada vez mais plido, Gui botou a mo no peito. Olhou para  os dedos. Um sorriso de susto no tosto.
  Sangue. Dora viu o sangue escorrendo. Quis agarrar Gui. Tudo durou um milsimo de segundo. No instante seguinte, Gui caiu de joelhos. No cho.
  O som do alarme soando. O sangue escorrendo. Gui. Sentiu uma escurido dentro de si, dor e desespero.

  (p. 73)

  9

  Dora nunca soube o que teria feito se Elias no estivesse l.
  Ia se ajoelhar, gritar por socorro. Sentiu suas mos puxando seu brao.
  -- Venha comigo! Depressa.
  Abandonar o Gui.
  -- Corre! Seno voc vai presa!
  Sem ao, deixou-se conduzir. Assustada com o barulho, os tiros. Dora fugiu. Elias acelerou pelas ruas, aos som de novos tiros no ar.
  -- Onde voc mora? - ele perguntou, enquanto a moto fazia curvas fechadas nas esquinas.
  Deu o endereo. Pediu pressa. Quem sabe se salvava dessa? Se a me tivesse sado, como vinha fazendo freqentemente, teria chance. Quando pararam em frente ao condomnio, Elias botou duas pedras de crack em sua mo.
  --  pra voc agentar. A barra vai pesar.
  -- Eu seguro.
  -- Tudo bem.
  O rapaz abraou Dora.
  -- Se precisar de mim, mande um recado. Apareo.
  Em seguida, quando menos esperava, ele a beijou na boca. Dora odiou. Mas no teve reao. Sentia-se incapaz de raciocinar. Livrou-se do abrao e correu para o apartamento. Ao entrar, respirou aliviada. Nada da me. S Andr. No quarto, estudando. Decidiu enfrentar o irmo.
  -- Preciso de um favor.  caso de vida ou morte.
  Surpreso, ele a encarou:
  -- Que foi?
  -- Diz que hoje eu voltei cedo. A que horas a me saiu?
  -- L pelas oito.
  -- Ento fala que eu cheguei nomeio da novela. Andr... o Gui levou um tiro. A barra vai pesar.
  -- Ele morreu?

  (p. 74)

  Foi um choque. Ainda no havia refletido sobre o assunto. Havia um peso enorme na cabea, queria que a vida fosse uma fita de vdeo para poder rebobinada.
  -- Eu... eu no fiquei para ver ...Andr me salva! Por tudo que  mais sagrado.
  -- Dora, voc no tem vergonha? Ate fugir, fugiu. Pensa que sou idiota, que no sei no que voc se meteu? Olhe eu vou ficar quieto. Digo que voc estava aqui sim. No  por voc.  pela me, ela no merece isso.
  -- Valeu Andr.
  -- Agora v se da um jeito na sua cara.  s olhar para saber que voc  da pesada.
  Saiu com raiva. Ate para fazer favor o irmo falava de mais. Os cabelos sujos. H muito tempo no escovava. Correu longamente. Botou o pijama. De minuto em minuto corria a casa do Gui. Ou pior, se parava na frente do condomnio. O susto inicial havia passado. Sentia-se mal. Uma traidora deixara Gui cado na rua.
  -- Como pude fazer isso com ele?
  Refletiu. Se ficasse teriam descoberto tudo, seria presa, talvez chamada de ladra. Fora salva por Elias, refletiu. Passou a mo na boca, lembrando-se do beijo.
  -- Nunca mais quero ver esse sujeito. Ele se aproveitou. Fumou uma pedra e escondeu a outra , por outro lado pensou, ele foi legal . Oferecera a pedra. Como suportar tudo sm crack?. Dali a pouco passou o efeito. Era horrvel a luz  a incomodava demais. As pupilas doam. Apagou o quarto e fingiu que estava dormindo. Ouviu a me chegar. Um pensamento passou pela cabea.
  -- Por que a me anda saindo tanto?
  Fosse qual fosse a razo, naquele dia fora uma sorte, acompanhou seu movimento. A bolsa jogada no sof, porta da geladeira aberta. Passou ate o prprio quarto. Suspirou aliviada. Ficou horas na cama de olhos abertos, sem conseguir dormir. Era esquisito. O corpo exausto, mas no tinha sono. A cabea num vendaval de pensamentos. 

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  Conseguiu cochilar l pelas trs horas da manha. Acordou com o barulho do interfone, insistente . Ouviu a me atender assustada.
  -- O que ? Pode entrar.
  Continuou deitada. Reconheceu a voz do irmo mais velho de Gui. O corao de um salto. Teria morrido? Soube em seguida que no. Ouviu  o irmo contar sua verso dos acontecimento. Gui estava no hospital sendo operado. A bala causou estragos, mas sobreviveria, sem um pedao de um dos pulmes, possivelmente. Nunca mais poderia esperar ser um campeo de basquete. A me e o pai estavam prestando declarao. Gui fora baleado roubando um som de carro. Havia uma garota e mais um rapaz com  ele, segundo as testemunhas bolso de Gui, um pacotinho com pedras de crack. Ele mesmo revirava o quarto do irmo baleado. Descobrira vestgio. Viera avisar porque...
  Cleusa gritou por Dora. Fingiu que acabara de acordar entrou na sala de roupo. Tentou parecer surpresa. Andr veio logo em seguida. O rosto da me um desespero s. Teve vontade de abra-la . Em vez disso, gritou como se no soubesse: 
  -- O que aconteceu com o Gui?
  -- Voc no sabe? Pergunta o irmo firmemente.
  -- No ..... hoje ele me deixou cedo em casa 
  Olhou para o Andr e ele manteve a palavra.
  -- Ela chegou no meio da novela.
  -- O irmo de Gui fechou a cara.
  -- No minta para ajudar sua irm. Nos descobrimos que o Gui est metido em drogas pesadas, e a Dora deve estar tambm. Eles no se largam 
  -- No, no a gente tem se visto menos - garantiu Dora. -- Deixa eu ir no hospital, deixa..
  O rapaz ergueu-se severo.
  -- Eu pensava que voc era legal Dora sempre foi uma pessoa to doce.... minha me adorava voc Dora.
  Cleusa chorava. O rapaz continuou, j em direo a porta: 
  -- Vim aqui, de madrugada, porque quis saber se voc estava bem. Se fosse verdade que no sabia de nada, voc no teria feito essa carinha de surpresa, Dora estaria  chorando, arrancando os cabelos. A descrio das testemunhas confere, era voc que estava com ele. No se preocupe, eu no vou avisar a polcia . S no ande mais com meu irmo. 
  -- Eu gosto do Gui !!
  -- Pode ate gostar. Mas fugiu, no fugiu? Ele baleado, e voc fugi. Quer saber, vou fazer de tudo para meu irmo sair dessa. Voc no  boa companhia at.
  Saiu batendo a porta, Dora olhou para me arrasada. 
  --  mentira dele eu cheguei....
  -- Cala a boca Dora..
  -- Andr confirma para ela que.....
  -- Voc tambm Andr no diga nem mais uma palavra. Eu devia ter percebido. Eu devia. A gente l tanta coisa  v, tanto programa de televiso, mas quando  com o filho da gente ... fica cega. Eu vivo com a cabea fervendo. Tentando entender vocs. Ontem recebi um bilhete da diretora da escola. Telefonei. Ela foi mais esperta. Disse que voc tem faltados as aulas, sempre mal aparece.
  -- No faltei tanto me juro!!! 
  -- Quieta Dora, quieta. Nunca bati em filho, mas se voc continuar mentindo no sei o que vou fazer. A diretora fez suposies. Falou em drogas. Aconselhou. E eu defendi voc. Defendi!! Contei tudo sobre ns. O desemprego de seu pai, a quebra do padro de vida,... o afastamento dele, a separao disse que voc no se conformava..
  -- No me conformo mesmo..
  -- Ningum aqui se conforma, eu tambm no me conformo em perder, em sofrer dificuldades. Minha vida era um mar de rosas, o que  agora? Mas tento fazer as coisas melhorar. Olha seu irmo nunca se meteu em confuso, s me deu alegria. Voc no. S sabe culpar a mim e a seu pai, como se a gente tivesse feito tudo de propsito !
  Dora olhou para me, quieta. Estava doida para fumar de novo. Ainda tinha uma pedra. S queria que aquela conversa fosse encerrada. 
  -- Acabou me estou morrendo de sono. 
  A  surpresa de Cleusa foi total!!
  -- Como voc consegue ser to cinica ? V, v deitar eu.... eu vou pensar no que vou fazer...

  (p. 77)

  Irritada Dora foi para o quarto. No percebeu que a me o seguia com os olhos. Pegou a caixa de fsforo e a pedra. Era bom fumar com a caixa de fsforo. Bastava fazer um buraquinho e .....
  A porta se abriu. As mos da Cleusa pareciam duas garras no ombro da filha.
  -- Ns nessa crise e voc vem para o quarto se drogar? No tem vergonha?
  Dora gritou quando a pedra caiu no cho. E  a me a sacudia
  -- Viciada, viciada!
  Soltou-se. Cleusa esmigalhou a pedra com o p. Dora furiosa.
  -- Voc no tem nada a ver com a minha vida!
  -- Sou sua me me!
  -- Me  deixa em paz!
  Estarrecida, cleusa percebeu:
  -- Foi voc que roubou minha gargantilha, os brincos, ainda me deixou acusar aquela pobre mulher, ela perdeu o emprego ... aqui e em outras casas. Como voc pode Dora. Perdeu toda a noo da decncia... eu.... eu tenho vergonha de voc .
  As lgrimas rolaram no rosto da me. Cleusa continuou desesperada.
  -- Tenho vergonha de  min tambm . Fui to boba, to boba que nem percebi...
  -- No fundo do corao de Dora brotou uma emoo enorme. Comeou a chorar, descontroladamente, como dizer que sentia? Queria se arrepender. Tinha vergonha sim, de ter deixado Gui cado. Vergonha de ver a me neste desespero. As coisas no deviam ter acontecido assim. Abraou a me, chorando, ficaram um tempo juntas. Cleusa chorou tambm fez carinho. Culpou-se .
  -- Eu tambm errei ... s no sei onde . Acho que eu que no soube entender o que voc sentia.
  De repente Cleusa teve uma idia. A salvao no seu entender.
  -- Vamos para casa da minha me. L no interior de Minas, voc vai fazer novas amizades . Fica longe de tudo isso! Vai descansar, quem sabe ate mudar a escola pra l.
  -- Quero sair dessa me . Topo.

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  Dora lembrou-se dos doces que a av fazia. Seria timo passar uns tempos em minas. Pegaram as malas da parte de cima do guarda-roupa. Cleusa levaria pouca coisa. S acompanharia a filha. Pediria a uma amiga da imobiliria hospedar Andr, assim ele no perderia as aulas conhecia os horrio dos nibus para a cidade dos pais, pegaria o primeiro da manha cedinho.
  Depois de tanta emoes estavam todos exaustos. Dora abraou Andr, despedindo-se. Agradeceu a tentativa de ajud-la. Entre os irmos a existir uma ternura desaparecida nos ltimos tempos.
  -- Boa sorte Dora - ele desejou. -- A gente se v nas ferias.
  Deitaram quase ao amanhecer. Dormiram apenas algumas horas. Feliz Dora pensava na nova vida em Minas. Sim ficaria livre de tudo. Seria bom comer comidinha da vov, tomar leite tirado da vaca na hora.
  De pensamento em pensamento descobriu que no conseguia dormir. Foi sentindo uma tremedeira. Os acontecimentos passavam pela sua cabea num clima de frenesi. Em seguida comeou o tremor. Era assim quando ficava privada do crack. Dava um horror, uma secura, neste dia talvez pela agitao, tudo se acentuou, bateu angstia enorme. Quis beber um copo de gua na cozinha,  molhou o rosto.
  Ao passar de volta na sala, viu a bolsa da me esquecida no sof. Ai as coisas foram acontecendo. No havia um plano definido. Agiu instintivamente. Se algum tivesse surgido naquele instante e perguntado o que fazia, ficaria surpresa. Pois no seu entender no estava fazendo nada. Como se o crebro estivesse desligado do corpo. Era a velha sensao de estar assistindo um filme protagonizado por ela mesma. Seus movimentos eram automticos, abriu a bolsa pegou a carteira.
  Havia dinheiro para pegar um txi, quem sabe ate sobraria para algumas pedras. Pegou.
  Entrou no quarto olhou as malas, abriu, agarrou algumas roupas ao acaso botou na mochila. Raciocinou que poderia ir para Minas na prxima semana. S queria se despedir dos amigos, ficar livre de tanta gente martelando nos ouvidos sim, iria para Minas no outro dia! Quando voltasse, explicaria que s fora dar um abrao na turma. A me entenderia..

  (p. 79)

  Bem devagarinho, abriu a porta da sala. Desceu ate a garagem. Se sasse pelo porto, o vigilante da noite veria. Mas era fcil abril a garagem pelo lado de dentro. J fazia isso outras vezes. Quando chegou na rua, clareava. Notou o vigia dormindo na guarita do porto. Correu sem parar. Parecia ter varado quilmetros, quando viu um txi. Fez sinal. Partiu. 
  Bateu na porta do apartamento dos primos at cansar. Derrubado de sono Naldo abriu.
  -- Fugi de casa - Dora avisou -- Fugi para sempre!
  Ele sorriu e disse que podia entrar. Tremendo ela pediu uma pedra. Uma s para passar a fissura. Enquanto fumava Dora sentia-se livre, como tinha vontade de ser!
  Exausta s acordou bem tarde. Olha a sala vazia. Estava deitada num colchonete, sem lenol. Foi ate o banheiro. Trancado. Rudos de chuveiro. Inspecionou a cozinha. Num canto havia um cacho de bananas pretejadas. Pegou uma, devorou. Naldo apareceu, saindo do banheiro enrolado numa toalha.
  -- Tudo bem?
  Ela deu em ombros. Visto de perto sem camisa Naldo parecia bem magro, embora ainda bonito. Tinha os ombros largos, mais para o atltico. Resqucio da poca em que praticava natao. Sorriu enquanto abriu a geladeira. Encheu um copo com leite frio.
  -- Quando acordo s consigo tomar leite. Fico enjoado.
  Ela contou com detalhes o que tinha acontecido. Naldo parecia ter esquecido da noite anterior. No meio da conversa o primo entrou na cozinha. Estava chegando da rua.
  -- Estou caindo em p.
  Ultimamente o primo estava tentando montar uma banda de rock. Os ensaios atravessavam a madrugada. Ouviu a metade da histria e apavorou-se:
  -- Naldo, Dora que loucura!
  Ela no podia ficar ali, explicou. Se Gui abrisse o bico, seria o primeiro endereo que mencionaria.
  -- O Gui no  dedo duro - defendeu Dora.
  Os primos concordaram. No era no. Mas quem sabe a reao de um sujeito ferido, com a famlia, e a polcia em cima.  

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  -- Pensando bem at o apartamento tem que ficar limpo, vamos esconder o bagulho - refletiu Naldo.
  -- Vocs vo me botar no meio da rua? Assustou-se Dora.
  Ningum pretendia fazer isso,  claro. Eram amigos Naldo lembrou.
  -- O Elias se mudou para casa na Frei Caneca. Eu sei onde .
  Elias? Dora sentiu um calafrio, lembrando-se do beijo.
  -- Ele no  um cara ruim, Dora. Fica tranqila. Se ele tentar alguma coisa, voc abre o jogo. Diz que no quer, ele vai entender - refletiu Naldo.
  -- Se pesar, voc fala com a gente. Com mais uns dias se for preciso, eu arrumo outro lugar pra voc ficar.  que minha namorada esta viajando seno voc iria para casa dela. Prometeu o primo.
  Afinal, na noite anterior Elias fora muito legal. Tivera sangue frio. Fora salva por ele. No havia alternativa. Ajudou os primos a arrumar o apartamento, esconderam as pedras dentro de um livro oco. Por fora parecia de verdade. Abrindo era como se fosse uma caixa. Ficava junto de outro livro de Naldo empilhado num canto do quarto.
  -- Se algum aparece, eu digo que no vejo voc h dias. Garantiu Naldo.
  Foram at a casa da rua Frei Caneca. Por fora dava arrepio.
  Era uma manso abandonada. Havia uma varanda enorme. A porta da frente estava fechada com correntes e cadeados. Entraram pelos fundos, atravessaram uma cozinha com a pia de mrmore arrebentada. Chagaram na sala. O teto fora, algum dia lindo. Era eram enfeitados por baixo relevo. O cho de madeira, tinha buraco por todas as partes. Pilha de lixos nos cantos. A parede esburacada com reboco caindo estava coberta de inscries, desenhos. Dois colchonetes estavam em um canto. Num dele uma garota estava deitada, embaixo de um cobertor. Dora estranhou porque fazia um calor absurdo. A garota tremia.
  -- Cad o Elias? Perguntou Naldo.
  -- L em cima - responde a garota.
  J na porta Dora virou-se surpresa. Havia algo de familiar naquela voz. Mas a garota j havia se enrolado no cobertor. Naldo subiu os degraus de uma escada de mrmore gasto.  

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  -- Elias! - chamaram.
  Ele apareceu no alto da escada. Apesar do medo, ela sentiu alvio. Elias no a abandonaria. Tinha certeza.
  -- Sujou, Elias. Sujou - disse, apenas.
  -- Sobe.
  Entrou num quarto de persianas quebradas,  tambm fechadas com cadeado. Havia um  armrio velho, algumas caixas de papelo e um colcho com lenis e cobertores em cima.
  -- Aqui ns vivemos numa boa. - explicou Elias.
  Haviam invadido a casa, abandonada havia anos. Eram vrios moradores. Dois rapazes dividiam o outro quarto. Havia gente que passava uma, duas noites e depois sumia. Elias era uma espcie de xerife local. Todos entravam e saam por trs, sem dar muito na vista. Estavam sem gua, mas conseguiram puxar fazendo uma gambiarra nos fios da rede pblica. Para tomar banho, se viraram com uma torneira do vizinho do fundo.

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  -- Tem um buraco no muro - contou Elias. -- De dia, a casa  um escritrio. De noite, o segurana fica na frente.  mole entrar e usar a torneira do quintal. 
  Essa foi a parte que Dora odiou. No queria ficar suja. Parecer uma mendiga. Elias contou que s vezes ia na casa dos pais. Quando o pastor no estava, a me dava comida, roupas limpas. 
  -- O velho  que no podia me ver. Diz que sou um castigo. 
  -- Nunca mais vou poder voltar pra casa - Contou Dora.
  -- Eu ajudo voc. Conheo um restaurante por quilo pra gente comer. O dono tambm deixa tomar banho l, de vez em quando. 
  Elias sorriu para ela. Apesar da falta de dentes, de repente parecia bonito. Comoveu-se com sua solidariedade. Naldo despediu-se. 
  -- Est entregue, Dora. Mas... voc s fica aqui um tempo. Eu vou arrumar um lugar melhor.
  -- Tudo bem, Naldo. 
  O rapaz despediu-se, sem jeito. 
  -- Bem que eu queria que voc ficasse l no ap. Ia ser legal. Voc sabe que eu gosto de voc, Dora. Mas o meu primo tambm  dono do apartamento. Se voc precisar, me procure. Naldo abraou-a, forte. Despediu-se beijando o canto de sua boca. 
  Quando ele desceu as escadas, Dora sabia que no faria mais nada por ela, espontaneamente. Na cabea dele, o problema estava resolvido. Poderia passar l o resto dos seus dias, e Naldo no mexeria uma palha. Tinha seus prprios problemas. O principal era conseguir dinheiro para as alucinaes.
  -- O que vai ser de mim? - Dora estremeceu.
  Sabia perfeitamente o tipo de lugar onde viera parar.
  -- Vou viver como mendiga - pensou.
  De repente, sentiu uma angstia maior que todas as outras, um sofrimento que no vinha da falta de crack. Era isso, afinal, a liberdade? Agora podia viver sem regras, sem ningum em cima. Sem a me, sem a diretora, sem os colegas. Longe do irmo, sempre to certinho. Longe do tigre, sempre querendo se aproximar. Valia a pena? At a noite anterior, tinha comida, uma cama quente. Subitamente, estava naquele casaro abandonado. Moraria num canto de um quarto com janelas quebradas, onde o vento entrava de noite. Elias interrompeu seus pensamentos:

  (p. 83)

  --  legal voc ter vindo, Dora. Vamos traar um rango.
  -- Estou quase sem grana.
  -- Eu pago.  comemorao.
  Hesitou, de leve. Ele insistiu.
  -- Mais tarde a gente passa a mo no som de uns carros e voc se recupera. D pra viver legal.
  No restaurante, ele a ajudou a fazer o prato. Arroz, feijo, salada, canelone, carne de panela. Tudo misturado. Ele comeu pouqussimo. Dora no. Tinha um enorme apetite.
  Voltaram logo. Estava louca para fumar uma pedra. Entraram na casa, apressados.
  A garota que dormia na sala chamou.
  -- Elias!
  Novamente, Dora teve a estranha impresso de  reconhecer aquela voz. Quem?
  Foi atrs de Elias. Meio sentada, meio deitada, a garota pediu.
  -- Arruma algum, estou estalando.
  -- De jeito nenhum, voc me deu calote outro dia. 
  A garota revistou os bolsos,  arrancou algumas notas amassadas, jogou.
  -- Pega. Est pago.
  O rapaz contou. Acenou com a cabea.
  -- Tudo bem. D pra trazer algum. Espera a.
  Dora percebeu que a garota tremia sem parar. Elias subiu as escadas correndo.
  -- J volto.
  -- Quer um copo de gua? Acho que tem uma garrafa l no quarto, ofereceu Dora, com pena. 
  Notou um estremecimento, como se a garota estivesse inquieta. Pela primeira vez, ergueu o pescoo. Dora  assustou-se. Nunca vira um rosto to magro em sua vida. Esqueltico.
  Passou o susto, veio a surpresa. Um instante depois, o  reconhecimento.
  -- Magda?!  mesmo voc? Voc, Magda!
  
  (p. 84)
                             
   10

  Era a ltima pessoa do mundo que esperava encontrar naquela casa. Magda, a filha do dono da fbrica de chocolates! Magda, sempre em carros importados, com motorista! A de manso com piscina! No, no podia ser ela. Mas, apesar do rosto magro, do cabelo sujo, do tremor incessante dos braos, no havia dvida. Magda!
  -- Dora?
  A voz de Magda tinha se tornado rouca, como se  estivesse com um pigarro na garganta. Levantou-se do colcho, apoiou-se na parede. Dora notou a falta de equilbrio. Teve um impulso. Correu at ela, abraou-a. Sentiu o cheiro azedo do corpo sem banho. Continuou abraando forte, bem forte. Separaram-se, Magda sentou-se.
  -- Ento, voc tambm est nessa.
  Sentiu-se mal. No queria se comparar com Magda. No estava cada como ela. Sara de casa, apenas. Era uma situao transitria, at... parou um instante. No sabia o que dizer depois de at... At o qu, afinal? Estremeceu. Em seguida, acalmou-se. Raciocinou. Afinal, no era dependente das pedras. O irmo de Gui estava errado. A me tambm. No era viciada. Poderia parar, se quisesse. Era s questo de tempo. Lembrou-se da manso onde Magda morava, fazia to pouco tempo! Como viera parar ali?
  -- J tinha experimentado fumo umas vezes - contou Magda. -- Tudo bem. Meu  tio fuma h anos... a, as coisas foram rolando. Lembra da Tnia?
  -- Aquela que era filha de um cirurgio plstico? A que queria virar modelo?
  -- Foi ela quem me apresentou a coisa. Uma outra menina l na escola tinha uns amigos, e eles gostavam das pedras. Era uma turma muito doida. cido, ecstasy... a gente  comeou as sair junto. A, um dia me deu um negcio... eu ca no cho do banheiro de uma danceteria, babando, batendo os ps, as pernas... a maior bandeira. Todo mundo se mandou. Chamaram a polcia. Meu pai e minha me descobriram tudo. Fui parar numa clnica. 

  (p. 86)

  Apavorou-se. J ouvira falar de internao. Perguntou a Magda como era. 
  -- Um horror. A gente perde o domnio sobre a prpria vida. Tem de obedecer em tudo. Hora de jantar,  hora de almoar. Hora disso, hora daquilo. L dentro mesmo tinha um carinha que me arrumava  pedras. Fumava dia e noite. Descobriram. Foi um escndalo. 
  Fora uma peregrinao, de sanatrio em sanatrio.  Quando saa, sentia-se bem. Saudvel. Visitou a Europa com a me. Na volta,  reencontrou Tnia, a amiga que lhe apresentara as pedras. Refizeram a amizade. Na casa de Tnia, ningum desconfiava. Ela se enchia de coisas at as orelhas, sem dar bandeira. Saam juntas. Os pais de Magda achavam bom. Um dia, aconteceu de novo. Exagerou. Teve a overdose no prprio quarto. Foi encontrada pela governanta. Acabou no hospital. Quase morreu. Fora de perigo, o pai decidiu:
  -- Voc vai fazer um tratamento de desintoxicao.
  -- Eu no estava afim de tratamento algum. A vida  minha, no ? Eles queriam me obrigar, e eu no ia permitir. Meu pai veio me buscar no hospital. Queria me levar direto para a clnica. Era longe. Ele parou num posto para botar gasolina. Fingi que ia pro banheiro. Fugi pelos fundos. Devem estar me procurando at hoje. 
  -- Como voc vive, Magda?
  Houve um silncio. Ela deu de ombros.
  -- Sei l. Como d. Escuta, voc tem algum pra me apresentar?
  -- O seu j est aqui - disse Elias, que voltara silenciosamente, e estendia um pacotinho.
  Magda pegou o papel amassado, abriu, trmula. No parecia mais notar a presena de Dora.
  -- Depois a gente se v, Magda - disse Dora, subindo. A amiga nem levantou o olhar, enquanto fumava as pedras. No quarto, Elias foi taxativo.
  -- No  legal voc andar com ela, Dora.
  -- A gente estudava junto!
  -- Tem gente que no consegue se controlar... que vai fundo demais. Ela  assim. Faz qualquer negcio pra conseguir a coisa. Se voc andar com ela, vo pensar que  igual.

  (p. 87)

  -- Igual como, Elias?
  -- Ela sai com os caras. Qualquer cara que d uma grana ou que arrume bagulho.
  Ficou chocada.
  -- A Magda? No pode ser, ela  de famlia fina... ela... Elias a observava friamente. Ficou em silncio. Vira o estado de Magda. 
  -- A gente no devia avisar a famlia dela? Sei l, ajudar?
  -- Voc quer ser dedo-duro, Dora? Queria que avisassem a sua?
  --  diferente.
  -- Diferente como? Ningum tem nada a ver com a vida do outro.
  Acendendo um fogareiro, Elias retirou um pacotinho do bolso.
  -- O que voc vai fazer?
  -- Umas pedras. Comprei coca, da boa. Misturo com  bicarbonato, esquento... voc no sabe como ?
  -- Nunca fiz.
  -- Ajuda aqui. Assim sobra mais pra gente.
  Aproximou-se. Aprendeu a dar o ponto, misturando bicarbonato com a coca, e esquentando, at a pasta ficar parecida com uma calda grossa. A separar as pedras, deixar secar. Depois, fumariam. Sentiu-se tonta.
  -- Preciso descansar.
  -- Deita.
  Elias abriu espao no prprio colcho. Ela hesitou.
  -- Ficou com medo de mim?
  -- No,  que...
  -- Eh, Dora... vai enfrescar? Estou dando a maior fora. Arrumo lugar pra ficar, comida. Voc nem agradece?
  Tremeu. E se Elias a botasse na rua? Para onde iria? Ao apartamento de Naldo? Mas ele tinha dito que no podia ficar l! Voltar para casa? Agora sua me estaria uma fria. Seria levada para Minas... naquele dia mesmo. Por um instante, at ficou com vontade de ir para Minas. Entretanto... no ntimo sabia que no podia viver sem as pedras. Pelo menos por mais algum tempo. Pensou em Gui. Como estaria no hospital? Lembraria dela? De que adiantava pensar nele, afinal? Estavam longe um do outro. Separados. Talvez Gui fosse internado para tratamento. S podia contar com Elias, era a verdade. Sentiu-se comovida. Fora ele quem lhe estendera a mo.

  (p. 88)

  -- Voc  legal comigo, Elias.
  Deitou-se ao seu lado. Abraaram-se. Quando sentiu os dedos dele escorregando por seu corpo, tentou pensar em outra coisa. Como se no fosse com ela. Era apenas um filme a que estava assistindo. Um filme. A atriz se parecia com ela, era s. Mais tarde fumaria de novo. Tudo aquilo seria apenas lembrana.
  Desde aquele dia, passou a viver com Elias, como  se estivesse casada. Sentia-se segura, pois ele cuidava de tudo para ela. Arrumava comida. Drogas. O que ela quisesse, era s  pedir. Os amigos logo ficaram sabendo. 
  -- O coitado est maluco por voc, Dora - comentava Naldo. 
  Depois, ele se lamentava. 
  -- Sorte dele. Eu  que fui burro de levar voc para l.
  -- Deixe de histria, Naldo, voc nunca esteve afim de verdade.
  -- Pode ser e pode no ser. Como  que voc sabe?
  Riam. Ela sabia que ele gostava dela, sim. S no tivera oportunidade. Ou melhor, quando ela aparecera no apartamento, no soubera aproveitar a chance. Agora, arrependia-se. Era tarde. Ao lado de Elias, Dora se sentia bem.
  Ningum tocava no nome de Gui. Como se ele tivesse morrido. Uma vez sozinha, no resistiu. Ligou para a casa  dele de um orelho. 
  -- Quero falar com o Gui.
  Do outro lado, a voz da me. Ouviu uma respirao forte, de surpresa. 
  -- Quem ? Dora?
  Ia desligar, a outra continuou falando. 
  -- Dora,  voc, eu sei. J soube que fugiu de casa. A sua me est louca, desesperada. Procurou a polcia. Morro de pena dela, no se faz isso com uma me. Mas fique sabendo. No quero mais ver voc perto do meu filho.
  -- S quero saber... e o Gui... como est?
  -- Devia ter vergonha de perguntar. Voc deixou o Gui cado na rua, pensa que no sei? Fique longe do meu filho, Dora. Longe. Voc  pssima influncia pra ele. Graas a Deus, ele est se tratando. Voc tambm devia se tratar. Volte pra casa. Ou tambm vai acabar levando um tiro, como o meu filho.
  
  (p. 89)

  Lembrou-se dos filmes policiais. E se localizassem o telefone? Desligou.
  Nem por um instante pensava em voltar. Tudo ocorrera exatamente como imaginava. Gui, internado.
  -- Os pais sempre querem mandar na vida da gente -  pensou.
  Naquele dia, fumou o dobro. Dora se enchia de crack cada vez mais. Quando ficava muito eltrica, tomava comprimidos para dormir. No dia seguinte, nem conseguia se mexer, de to cada. Uma vez, chegou a ter conscincia do que estava acontecendo. Lembrou de um filme que falava sobre rs. Segundo o filmo, se uma r for jogada na gua fervendo, ela pula fora. Mas se for colocada na gua fria, sendo aquecida aos poucos, morre cozida. Por um instante,  sentiu-se como essa r. Se algum tempo atrs tivessem descrito sua vida atual, duvidaria. Ela, que fazia tanta questo de carro importado, morando em cortio?
  Afastou os pensamentos e nunca mais foi tomada pelas dvidas. Caiu numa rotina. Ela e Elias acordavam tarde. Faziam caf no fogareiro. De vez em quando bebia leite na padaria. Ajudava Elias a passar as pedras. Em dois era mais fcil. Comiam no restaurante por quilo. Banho, cada vez menos. Uma vez a cala jeans estava to suja que comprou outra e jogou fora a anterior. Fumavam crack, muito. De noite, roubavam sons de carros.
  s vezes dava um branco na cabea. De repente, estava fora desse mundo. Quando voltava a si, no se lembrava do que acontecera. Elias no estranhava. Tambm tinha esses sumios. Um estranho tambm no notaria, No desmaiava. O crebro vagava. Outras vezes tentava pensar, e no conseguia. A cabea misturava os fatos. Certas tardes, acordava e  olhava em torno, estranhando. Pensava estar em seu antigo quarto, no apartamento da me. 
  Acabou se tornando, novamente, amiga de Magda. Conversavam muito. Preocupava-se com ela, sempre trmula. Quase no comia mais. Uma ou duas vezes, quando passava pela rua Augusta, de madrugada, percebeu a amiga. Rodando pela rua. No era como as outras prostitutas, muito pintadas, com saias curtas, oferecendo-se aos clientes. Magda caminhava como uma personagem de pesadelo. O rosto adolescente e o corpo magro diziam tudo. Quem parava sabia do que se tratava. Droga. Apesar da m aparncia, nunca faltavam clientes. 
 
  (p. 90)

  -- Vou falar com ela. Ver se sai dessa - decidiu Dora. 
  -- Deixa pra l. Voc no tem nada a ver com isso - insistiu Elias. 
  Desistiu. Que argumentos usaria? Era cada um por si. Certa noite, ao ver Magda entrando num carro, sentiu uma pontada de dor. Como a amiga, at pouco tempo to esnobe, podia cair assim? Voltou para a manso abandonada. Foi para o quarto fumar.
  Meses se passaram dessa maneira. Muitas vezes sentiu saudade da me. Do pai. At do Andr. Nunca pensara que ia sentir falta do irmo. Temia ligar. Levar bronca. Melhor pensarem que estava longe. Em outra cidade. No se preocupava muito em ser encontrada pela polcia. Quando se olhava no espelho, sabia. Era outra pessoa. Cabelos compridos, com duas trancinhas na frente. Rosto bem afinado. Uma tatuagem no ombro, nova. Tambm perdera um dente. Mal se notava, era no canto da boca. Fora at divertido. O dente havia cado ao acordar. Como se fosse de leite. Riu.
  A  rotina tornou-se fumaa de uma hora para a outra. Simplesmente, um dia, Elias no voltou.
  Tudo aconteceu de forma misteriosa.  Acordou s duas da tarde, e ele no estava l. Estranhou. Desceu. A moto presa na escada, presa com o cadeado, como sempre. Mais estranho ainda. Cruzou com outro rapaz que morava na casa. Perguntou de Elias. 
  -- Saiu faz uma hora, com uns carinhas. Eu vi.
  -- Quem?
  -- Uns carinhas... gente que no  daqui. Vieram atrs dele. Conversaram um pouco e foram embora juntos. Acho que eram da pesada. Pelo jeito.
  Veio um medo. Elias no dissera nada sobre sair. Apavorou-se. Sabia que ele no havia pago uma dvida. Estava rolando havia meses. Elias comprara coca para fazer pedras e  acabou gastando o dinheiro todo. Esperava repor, roubando som de carros. Vendendo crack . Mas cada vez se atolava mais. Muitas vezes ele mesmo dizia:

  (p. 91)
  
  -- Com traficante, ningum d o calote. 
  Se ela se preocupava dizia que era bobagem. Daria um  jeito. Agora estava sumido.
  Correu at Magda. Enrolada no cobertor, a maquiagem borrada, ela aconselhou  Dora a se tranqilizar.
  -- O Elias  muito chegado dos carinhas da favela. Quase irmo. 
  De noite, ele no voltou. Fumou uma pedra. Sentou-se no  colcho, sem conseguir dormir.
  -- O que ser de mim? 
  Dois dias depois, estava desesperada. Foi de amigo em  amigo.. Nenhum sabia. Telefonou para a me de Elias, sem se identificar. 
  -- O meu filho no aparece h duas semanas. Quem est falando?
  Desligou. Procurou traficantes. A maioria no sabia de  nada, outros evitavam o assunto. Naldo encontrou com o  surfista que Gui conhecera na praia. Fora quem introduzira  Elias na turma. Especulou. O garoto conhecia uns sujeitos da pesada. Informou-se.
  -- Dora,  parece que apagaram o Elias.
  No podia acreditar. Elias, morto, por uma dvida! Chorou. Imaginava o rapaz sozinho na mo dos sujeitos. O medo. A reao. A dor. 
  -- Pelo que eu sei - contou o surfista -, eles do uma  surra e depois acabam com o carinha  bala.
  -- Nem saiu no jornal! Se tivesse sado, eu ficava sabendo!
  -- Se liga, Dora. Pra cada um que sai no jornal, tem uns dez de que ningum mais houve falar. Eles somem com o corpo. Ou o polcia encontra, vai para o necrotrio... muito mais tarde, a famlia acaba achando.
  Em lgrimas, tomou coragem. Ligou para a me de Elias. Sem se identificar, contou tudo. A mulher soluava de outro lado. Quis saber quem era. Dora desligou novamente. Dias depois, fez outra tentativa.

  (p. 92)

  -- Estava esperando seu telefonema. O corpo... o corpo estava no IML. H dez dias. Todo furado  de balas.. Ns... ele foi encontrado num bairro da  periferia. No mato. Tivemos de enterrar imediatamente, estava... nem d pra dizer como estava! Mas se voc quiser, amanh vai haver um culto religioso em sua memria. Eu digo onde .
  Dora agradeceu. Mesmo receosa, decidiu. Iria. Seria uma forma de se despedir de Elias. Conseguiu tomar banho. Botou suas melhores roupas, prendeu o cabelo. Magda  aconselhou. 
  -- No v, devem estar de olho. Vo pegar voc.
  -- Vou sim, Magda. Pelo Elias. 
  Pegou o metr. Desceu, seguiu as informaes da me do rapaz. Chegou perto da igreja protestante onde o pai de Elias era pastor. Esperou num bar, queria entrar com a cerimnia comeada. Meia hora depois, andou at l. Da calada ouviu o canto de um coral. Ao entrar, sentiu uma sensao de conforto. Havia quanto tempo no entrava numa igreja! Sentou-se no fundo, num banco vazio. A igreja estava cheia. 

  (p. 93)

  Notou as mulheres de cabelos compridos, saias pelo joelho. Crianas. Garotas da idade dela. Sentiu-se muito mais velha. Pareciam to calmas, to felizes, cantando. Ao final da msica, todos se sentaram. Um homem, que devia ser o pai de Elias, subiu no plpito. Falou sobre os caminhos de cada um. O livre-arbtrio. Muitas vezes, ouvira o padre falar da mesma maneira. Como cada um tem o direito de escolher a prpria vida. Um direito dado por Deus. Uma mulher aproximava-se. Sentou-se a seu lado.. Era rechonchuda, de culos. Cabelos grisalhos. Tocou sem brao levemente. 
  -- Foi voc quem ligou, no foi?
  Apavorou-se. Tinha certeza. Agora algum chamaria a polcia!
  -- Dora, voc deve ser Dora. Meu filho falava muito de voc. Eu... eu sou a me do Elias... e ele... ele amava voc... e  eu esperava conhec-la um dia.
  Quis se levantar.
  -- Vou embora. No sou Dora nenhuma.
  A mulher a impediu, delicadamente.
  -- No tenha medo. Eu seu que  voc, sim... conheo todo mundo nesta igreja. Eu agradeo voc, Dora. Muito. Se no fosse o telefonema, talvez meu filho fosse enterrado como um indigente. s vezes sumia meses inteiros. Eu j  estava acostumada. Nunca saberia a verdade. Di, di muito. Mas sempre  melhor saber. Agora espero que esteja em paz. Com Deus.
  -- Eu... eu tambm espero que ele esteja em paz,  dona. Ele foi legal comigo. Ajudou quando eu precisava.
  -- Ento, Dora, oua. Eu quero ajudar voc, se voc precisar. Quero dar amor a voc, como fez meu filho. Venha para a minha casa. Fique conosco, Dora. O tempo que quiser.
  A msica comeou novamente. A mulher abraou Dora. Choraram, uma nos braos da outra. At deu vontade de  desistir de tudo. Ficar sentada naquele banco, acompanhar a me de Elias at sua casa. Contar tudo. Dormir numa cama quente. Tomar leite morno de manh. Levantou-se.
  -- No d, dona. No d. 

  (p. 94)

  -- Telefone, ento! Vamos conversar, Dora. Como amigas. Quando quiser. 
  Saiu quase correndo. Conversar o qu? A mulher viria com o mesmo discurso de sempre. Gostara da me de Elias, sim. To doce. Mas e dai? Se ela deixasse, agiria como todos os adultos. Tentaria mandar nela. Pensou em Elias. Na sua dedicao. Nunca estivera apaixonada por ele. Jamais esquecera o Gui. Mas Elias, sim, demonstrara amor. Ela  ajudara a fumar as pedras. A fazer a dvida.  Ele morrera, assumindo toda a culpa. Chorou, andando pelas ruas. Mais tarde, no quarto, continuou chorando. Ao mesmo tempo, tremia. O que fazer dali por diante? As pedras estavam acabando. O dinheiro, curtssimo. Como viver? A porta se abriu. Magda entrou, pronta para sair. Bastou v-la para comear a chorar. 
  -- Que foi? - perguntou a amiga, saindo da apatia.
  -- Eu no sei o que fazer Magda. Como viver. 
  -- Faz que nem eu. Se vira. 
  Abanou a cabea. 
  -- No tenho coragem. Sair com uns caras que nem conheo?
  -- Qual , Dora? Pensa que eu gosto? A primeira vez que eu sai com um cara por grana, quase morri de vergonha. Ficava pensando: Magda, Magda, como voc faz uma coisa dessas? A segunda vez foi mais fcil. Finjo que no  comigo.
  -- Eu... eu no...
  -- Dora, vai querer bancar a santa o resto da vida? 
  Teve uma idia.
  -- Magda, me empresta uma grana.
  -- O qu?
  -- Eu compro um estoque de coca, da boa. Sei fazer pedras. O Elias me ensinou. Vendo. Vai dar lucro. Voc tira o seu de graa. 
  Viu que Magda hesitava. 
  -- E se voc no conseguir vender? 
  -- Fica tranqila. A turma que eu conheo compra. 
  A amiga sacudiu os ombros.
  -- Tudo  bem. De manh eu trago o dinheiro. Mas se voc me der uma rasteira...

  (p. 95)

  Passou a noite torcendo. Para que Magda no desistisse! Era a sada!
  Para sua surpresa, ela cumpriu com o prometido. De manh, apareceu com uma boa quantia. Com a ajuda de um dos rapazes da casa, Dora arrebentou a corrente da moto de Elias. Levou a um receptador, j conhecido. Aumentou o capital. Depois, telefonou para o surfista. Encontraram-se. Falou da compra. Ele surpreendeu-se com a quantia. 
  -- Eu no tenho tanta coca comigo. Ajudo a arrumar, se voc me oferecer uma presena. 
  Foram juntos at a favela, no caro dele. Olhou as ruas esburacadas. Cheiro de esgoto. Entraram num barraco.  Dois sujeitos de camiseta e bermuda sorriram.
  -- Nem saiu do maternal e j quer se meter nos negcios? - riu o mais gordo. 
  Estendeu as cdulas.
  -- Eu pago. 
  -- Pera a - disse o mais novo, que devia ter uns vinte e  cinco anos. - Voc pode levar na boa. 
  -- Na boa?
  -- Transa com a gente. 
  Horrorizou-se. O surfista abanou a cabea.
  -- Ela no faz programa no.
  O rapaz gargalhou
  -- Todas comeam sem fazer. Mais tarde, at imploram para ganhar na boa.
   O outro no deixou a discusso se prolongar. Botou a coca num espelho. Esquentou. Fez as carreiras. Experimentaram.
  --  boa - verificou o surfista.
  Dora comprou. Misturou com bastante bicarbonato, para  render. Mais tarde, vendeu as pedras a Naldo, ao primo e  namorada. Sobraram muitas. Dividiu com Magda. Passaram a noite tecendo sonhos. O lucro fora bom. Alugariam um apartamento em breve. Era s juntar mais dinheiro. Magda insistiu:
  -- Se voc fizesse programa, a gente juntava uma grana legal.
  Ficou ofendida. Discutiram. Logo fizeram as pazes. Magda desculpou-se.
  -- Tudo bem. Ningum faz o que no quer. 
               
  (p. 96)

  Sozinha no quarto, calculava. Bastava sair com um ou dois sujeitos. Ela e Magda teriam fundos para uma quantidade maior de pedras. Com o lucro, nunca mais precisaria fazer isso. L dentro, argumentava consigo mesma, horrorizada. No, no poderia fazer uma coisa dessas. Mas com Elias no fora assim? Pensara que seria ruim .. e nem sentira nada! Nos dias seguintes, consumiu as pedras resultantes do lucro. Economizava na comida, fazendo s uma refeio por dia. Tambm, nunca sentia fome! Nas noites seguintes, Magda no trabalhou, fumando uma pedra atrs da outra. O dinheiro de ambas acabou rapidamente. Um dia pela madrugada. Foi chamar a amiga para irem comer alguma coisa. Magda dormia, enrolada no cobertor. Notou o corpo debatendo-se, agitado. No quis cham-la. Saiu sozinha.
  O dinheiro s dava para um caf com leite e po com manteiga. Devorou. Nervosa, caminhou pela rua Augusta. Amanh teria de encontrar uma sada. Talvez emprestar  de Naldo. Pagaria logo. Ou, quem sabe poderia roubar um som. Tinha medo de fazer isso sozinha, mas... Notou um carro parado a seu lado. Assustou-se. Seria algum conhecido? Um sujeito de uns trinta anos botou a cabea para fora.
  -- Entra aqui.
  Ficou esttica.
  -- Entra logo, e a gente discute quanto . S no quero ficar parado, algum conhecido pode passar.
  Olhou em torno. Ningum estava vendo. Percebeu vrias garotas fazendo ponto. Fora 
confundida, com uma delas. Quase disse que no. Sem saber por qu, fez exatamente o contrrio do que pretendia. Abriu a porta e entrou.
  Mais tarde, nem saberia descrever o homem. Foi apenas a primeira vez.

  (p. 98)

   11

  O dinheiro comeou a entrar rapidamente. Sumia mais depressa ainda. Nunca conversou sobre o tema com a Magda.Envergonhava-se. Nenhum dos amigos da turma fazia perguntas. Deviam suspeitar de alguma coisa. Refletia, s vezes, que Magda estava certa. Na primeira vez, chorou muito.Pensou em Gui e em Elias. Em breve, tornou-se mais fcil. Ao sentir o corpo de um homem sobre o seu, tentava pensar em outra coisa. Fingia que no era com ela. Refugiava-se na j conhecida fantasia de que estava assistindo um filme. A personagem era igual a ela. Tinha o mesmo nome. Os mesmos hbitos. Os mesmos sentimentos. Mas no era ela, Dora. Era apenas uma desconhecida.
  Sentia-se calma. Havia o suficiente para comer, comprar pedras. Dormia boa parte do dia. s vezes, a situao pesava. Alguns homens pediam que fizesse coisas que pareciam horrveis. Era maltratada. Chegou a levar uma surra. Em vrias ocasies, recusaram-se a pagar e fora abandonada longe de casa, em ruas vazias. Chorava no incio. Foi ficando insensvel. Como se houvesse uma parede de vidro entre ela e a realidade. Tudo o que acontecia no atingia seu corao. No de verdade. 
  Novamente, entrou numa rotina. Acordava tarde. Passava horas conversando com Magda. Comprava e vendia pedras. Fumava muito. A cabea viajando a maior parte do tempo.
  Numa tarde, acordou com uma gritaria. Apesar do corpo pesado, correu para a escada. Na sala, Magda brigava de tapas com os dois rapazes que dividiam um dos quartos da casa.
  -- Magda! - gritou.
  -- No se mete - avisou um deles.
  O outro empurrou a amiga contra a parede. 
  -- Devolve o que voc roubou.
  -- Desgraado, idiota, me solta! Babaca.
  A boca de Magda sangrava. Dora desceu a escada em cmera lenta. 
  -- Vocs esto fazendo o maior escndalo. Vai dar polcia.
   
  (p. 99)

  Diante da palavra mgica, acabou a briga. Todos tinham horror de polcia. A histria veio  tona. Aparentemente, Magda roubara a droga de um deles. Uma caixa de comprimidos para dormir. Ela garantia que no. Revistaram. Estava em baixo do seu colcho. 
  -- Aqui voc no fica mais.
  Olho roxo, Magda teimava.
  -- Mudei pra c antes de vocs.
  -- Dane-se!
  Havia um pacto, no escrito, de que ali dentro ningum roubaria ningum. Dora pediu ao que fora roubado:
  -- Perdoa ela, foi s dessa vez.
  -- Coisa nenhuma. No  a primeira vez. Essa desgraada vive metendo a mo nas coisas da gente. 
  Enraivecida, Magda pegou a mochila, enfiou seus poucos pertences.
  -- Tambm no quero mais ficar aqui.
  -- Pra onde voc vai? - gritou Dora. 
  -- Dou um jeito.
  Desesperada, Dora implorou que tudo fosse esquecido. Nenhum dos envolvidos topou. Observou a amiga fechar a mochila. Despediram-se.
  -- Dou um toque de onde estiver morando.
  Sozinha, encarou os dois rapazes, com raiva. Um reagiu:
  -- Se no estiver satisfeita, v com ela.
  Arrepiou-se. Para onde? Percebeu que, naquela casa, j no dava ordens. Como no tempo do Elias. Era apenas mais uma moradora. Por pouco tempo, possivelmente. Os rapazes estavam trazendo a turma deles para l. Se fosse expulsa, para onde iria?
  -- No vou pensar nisso agora - decidiu.
  Voltou ao quarto, fumou. Sentiu-se melhor. Pouco depois, saiu  rua. Comeu um pozinho. Resolveu passar pelo apartamento de Naldo. Desabafar.
  Quando abriu a porta, o amigo fez cara de surpresa. 
  -- Dora! Nem que tivesse sido combinado.
  Da sala, veio um grito.
  --  ela?
  O corao pulou de alegria.

  (p. 100)

  -- Gui?
  Um instante depois, estavam nos braos um do outro. Beijaram-se.
  -- Eu tinha vindo aqui saber de voc. De repente, voc aparece! Telepatia, Dora!
  Naldo, o primo e a namorada sorriam, animados. Serviram vodca.
  -- Vamos comemorar.
  Gui contava sua histria. A polcia e a famlia fizeram a maior presso. Queriam endereos. Contatos com traficantes. Ele no revelou coisa alguma.
  -- O ferimento ajudou. Se insistiam muito, eu dizia que estava com dor. 
  -- Esperto! - elogiou Naldo.
  Depois, fora para a clnica.
  -- Foi pssimo. Eu ainda nem podia respirar direito, porque a bala atingiu o pulmo. Era obrigado a ouvir discurso, a fazer curso, falar com psiclogo.
  -- Foi duro deixar as pedras? - perguntou Dora. 
  -- Era obrigado a me manter limpo. Sofri bastante. Com o tempo foi passando. Acostumei a ficar sem. 
  Naldo admirou-se. 
  -- Voc largou tudo? 
  -- Estou limpo - garantiu Gui. 
  Magoada, Dora descobriu que ele sara da clnica havia tempos.
  -- No me procurou? 
  -- Nem podia. Todo mundo estava de olho em mim. Sua me avisou a polcia de seu desaparecimento.
  -- Eu sei. Uma vez liguei para sua me e levei  coice pra todo o lado.
  -- Fiquei sabendo. Enquanto o cerco estava fechado, eu fiquei na minha. Da natao pra casa, da casa pra natao. Estou nadando todo o dia, pra melhorar o flego. Agora, eles tem confiana de novo. No vigiam mais. 
  Abraou Dora. 
  -- Morri de saudades. 
  Saram juntos. Como nos velhos tempos, subiu na garupa da moto. Mostrou onde motava. Ao entrar, Gui ficou chocado. 
  -- Dora,  um cortio.  horrvel.

  (p. 101)

  -- J me acostumei. Alm de qu,  provisrio. Quando tudo melhorar, saio daqui.
  Subiram. Ele passou o dedo nos seus cabelos.
  -- Pensava em voc sempre. 
  -- Eu tambm, Gui.
  Envergonhada, lembrou de Elias. E nos outros rostos  annimos da noite. Como contar a Gui, que nem suspeitava? Tentou ser franca. Falar. 
  -- Tem muita coisa que voc no sabe.
  Ele a abraou forte.
  -- Deve ter sido uma barra. Eu sei. Fico triste de no ter podido ajudar voc. Voc  muito corajosa, Dora. Enfrentou  a vida. No precisa contar tudo que aconteceu. Fiquei sabendo de voc com o Elias. Sei l, doeu, me machucou. Mas agora tudo bem. Eu entendo. 
  Dava uma sensao boa de calor, de proteo, estar assim, abraada. 
  -- Eu te amo, Dora. Amo muito.
  Apesar de se sentir bem, percebeu que o corpo comeava a tremer. Voltava a secura, os sintomas da falta do  bagulho. Ficou constrangida. 
  -- Gui...  superlegal voc ter vindo. Vendo voc at d vontade de ficar limpa. Longe do bagulho. Mas... eu... eu... quero dar uma fumadinha.
  -- Tudo bem.
  Procurou. Tinha umas pedras na barra da cala, embrulhadas. No achava. Nervosa, tateava com os dedos. Ele pegou sua mo.
  -- Fica fria.
  Abriu a carteira, tirou um pacotinho do esconderijo. Abriu, mostrou as pedras.
  -- Mas... pensei que voc estivesse limpo, Gui.
  Ofendido, ele replicou:
  -- Claro que estou. Aprendi a me controlar. 
  Fez um buraquinho numa caixa de fsforos vazia, acendeu a pedra. Fumou.
  -- No quer?
  De to surpresa, Dora mal conseguia falar.
  -- Ento voc no deixou?

  (p. 102)

  Gui deu de ombros.
  -- At tinha deixado. Mas fui a uma festa da turma da natao. Um carinha ofereceu. Topei, s uma vez. Tenho fumado de vez em quando. No sou mais viciado. 
  Estendeu a caixinha. Ela aceitou. Ficaram um tempo conversando, abraados no colcho. Mais  tarde, ele foi embora. Cada no colcho, Dora sonhava com Gui. Agora, sim seriam felizes!
  Gui comeou a aparecer todos os dias. Com a desculpa da natao, livrava-se da famlia. Beijavam-se, de vez em quando. Mas s. Com a droga o desejo sumia. Conversavam muito. Ele ia embora ao anoitecer, para no despertar suspeitas da famlia. Jamais tocava em temas delicados. Como o dinheiro de Dora. Nunca perguntava de onde vinha. Nem pretendia perguntar, pelo que ela percebeu. Sem mesada, Gui abastecia-se com ela. Que nunca negava. Afinal, se amavam! Um dia pretendiam casar!
  Em breve, Gui estava fumando mais do que antes. Como ele voltava para casa cedo, ela ficava livre para procurar clientes. Saa sozinha. Sempre aparecia algum. s vezes, nem precisava sair. Apesar de terem expulso Magda, os dois rapazes eram legais com Dora. Sempre dispostos a arrumar alguma coisa. Desde de que ela fosse boazinha. Muitas vezes, incomodada, pensava no silncio de Gui. Suspeitaria de alguma coisa?
  -- Claro que ele sabe - disse Naldo, certo dia.
  -- Tem certeza?
  -- Ningum  idiota, Dora. Para ser franco, eu mesmo fiquei chateado sabendo que voc caiu nessa. Pode se dar mal. 
  -- Sei me cuidar - ela garantiu.
  Naldo aparecera sem ser esperado. Quase nunca ia at ela. Parecia ter alguma coisa a dizer. 
  -- Abre o jogo, Naldo. 
  -- Vou ser franco, Dora. Sabe que eu gosto de voc. Bastante. 
  Emocionou-se. Muitas vezes, ele parecia pronto a se declarar. No seria mais feliz com um cara como ele? Algum mais velho, mais seguro? Esperou para ouvir o conselho.
  -- Legal, Naldo.
  -- Acho que o Gui est se aproveitando.

  (p. 103)

  -- O Gui? Ele gosta de mim.
  -- Gostar, gosta. Mas gosta mais do bagulho. Ele est se aproveitando da grana que voc ganha. Pensa, Dora... se ele gostasse de voc como antes, acha que ia deixar voc morando aqui, nesse cortio?
  -- E voc? Sempre diz que gosta de mim... mas foi quem me trouxe pra c.
  -- Pensa que no me preocupo? J briguei com o meu primo, pra ver se deixa voc ir pro apartamento. Ele no topa. Diz que voc  menor, pode dar rolo.
  -- Ento me deixa em paz, Naldo. No venha fazer fofoca do Gui, que eu no gosto. 
  -- Abre os olhos, Dorinha. No  s esse negcio de viver aqui.  ele nem se importar como voc arruma dinheiro.
  -- Fica difcil contar pra ele.
  -- Sei l... se eu fosse seu namorado, nunca ia deixar voc  ficar numa pior. E nem ia aproveita de voc.
  Trocaram um olhar. Por um momento, Dora imaginou que ia abra-la. Disfarou. Quando Naldo partiu, as palavras martelavam em sua cabea.
  -- Gui me ama, eu seu!  exagero de Naldo. 
  Ao mesmo tempo, a dvida crescia. Gui se dependurava nela. No havia dvida. Dora j se acostumara a ir  a favela. Era conhecida, respeitada pelos traficantes. Comprava sempre dos mesmos. Disfarava, quando um deles insistia em transar.  Nem queria pensar nessa possibilidade. As garotas que topavam nunca mais saiam dessa. Acabavam presas aos traficantes, como mulheres de um harm. Aos annimos que encontrava na rua, no devia satisfao. Mas os traficantes acabavam tomando conta da vida da pessoa. Enquanto dissesse no era capaz de sentir orgulho de si mesma. Tremia quando pensava no assunto. E se um dia fosse obrigada a ficar com um deles? Naquele barraco horrvel? Depois se consolava. Impossvel.
  Estava ganhando o suficiente. No havia por que ter medo. S a situao mudou com a volta de Gui. O consumo cresceu bastante. Nem sempre havia dinheiro. Dora  comeou a comprar a prazo. Dava um jeito de pagar a dvida. O traficante nunca negava. Mas avisou:
  -- Um dia vai pagar do jeito que eu quero.
 
  (p. 104)

  Cada vez que ia comprar, ele pressionava mais um pouco. Um dia saiu de l trmula. Gui a esperava na entrada da favela. Abraou-o, fortemente. 
  -- Que foi?
  Contou tudo. Se esperava proteo, estava muito enganada.
  -- O que tem? 
  -- O que tem? 
  -- Sair com ele.
  Afastou-se, chocada. No conseguia entender. 
  -- Gui, ele  horrvel.
  -- Deixe de frescura, Dora. Pensa que no sei o que  voc anda fazendo? Sai com ele de uma vez, pra facilitar. 
  De repente, a mscara de Gui caiu. Conseguiu v-lo pela primeira vez. Teve um arrepio. O Gui de antes no existia mais. O rapaz gentil, delicado, que conhecera na festa de Emlia fazia tanto tempo, morrera. Em seu lugar surgia um sujeito interesseiro, sem escrpulos. Capaz de qualquer coisa para conseguir as pedras mgicas. 
  -- Gui, no acredito que voc me disse uma coisa dessas.
  Ele sacudiu os ombros. 
  -- Sei l. Voc mudou muito, Dora.
  -- E voc, Gui? 
  Chorou. Antes, amavam um ao outro. Agora, tudo que os unia eram as pedras. Com dor, lembrou-se de Elias. Ele, sim, a amara. Naldo estava certo. Gui se aproveitava.
  -- Gui... acho melhor a gente dar um tempo.
  Discutiram. Nem quis carona na moto. Caminhou chorando at o metr.
  -- Eu no quero viver assim!
  Chegou em casa, ficou um tempo diante do espelho. Estava horrvel. Sentiu vontade de deixar tudo. Mudar de vida. Como? Lembrou-se do tempo que ia  igreja, acreditava em Deus. Automaticamente, acendeu uma pedra. Fumou, sentada no velho colcho. Um rato passou no canto do quarto. Nem ligou. Antes morria de medo. Nojo. Agora, estava acostumada. Como tambm se acostumara com a falta de luz. Havia alguns meses tinham descoberto a gambiarra. Acabara a energia eltrica.
  Ouviu a sirene, nem ligou. Era comum o barulho das viaturas. Costumava brincar que eram os policiais com pressa de chegar em casa. Ligavam a sirene s para escapar do trnsito, dizia. 

  (p. 105)
 
  A luz vermelha entrou pela janela. Refletiu-se na  parede, num movimento de vaivm. Chapada, observou a claridade, curiosa. Repentinamente veio o barulho. Passos pesados. Gritos. Levantou-se tonta. No havia tempo de pegar nada. Os policiais subiam a escada rapidamente. Correu para a janela sem vidros. Empurrou a persiana estragada. Havia um telhadinho logo abaixo. Pularia de l para o quintal. Era s passar pelo buraco do muro do vizinho para estar salva!  A lanterna delineou seu vulto na escurido.
  Quando ia saltar, agarraram suas pernas, com fora. Algum torceu seu brao direito. Mordeu a mo de um homem, que revidou com um tapa. Sacudiu o corpo. Um outro botou a lanterna no seu rosto.
  -- Quieta.
  Outro policial admirou-se.
  --  novinha.
  -- Leva pro camburo.
  Quis falar, foi empurrada escada abaixo. A viatura estava cheia. Os rapazes da casa desfiavam os palavres mais pesados de que se tem notcia. Dora foi enfiada no fundo, mos e ps algemados. Um policial assumiu o volante. Sirene ligada. O camburo voou para a delegacia.
                            
  12

  Esperou horas num banco. Uma poro de pessoas aguardava a vez de dar depoimento. Sozinha, uma jovem com o rosto arrebentado chorava. Um bbado tentava parecer sbrio, mas no conseguia manter-se em p. Dois adolescentes, algemados, esperavam sentados. O grupo a que pertencia Dora, da casa da Frei Caneca, xingava. 
  -- Quem ser que dedou a gente? - perguntou um dos rapazes.
  A resposta no demorou muito. A porta da sala do delegado foi aberta. Um  homem  de terno e gravata, com jeito de advogado, saiu. Atrs dele, um  senhor gordo, de rosto cansado. Em seguida, uma senhora bem-vestida, com colar de prolas. Depois, uma jovem alta, tambm com jias. Vestido de seda suave como uma nuvem. Dora reconheceu o pai, a me e a irm de Magda. A amiga caminhava ao lado da me. Rosto abaixado, desfeito em lgrimas. 
 
  (p. 106)

  -- Foi voc, desgraada! Eu acabo com sua raa! - gritou um morador da casa. 
  -- Magda! - surpreendeu-se Dora. 
  -- Meu tio me viu na rua. Eu no tive culpa! - gritou Magda, apavorada. 
  O pai de Magda espetou o dedo em direo ao rapaz. 
  --  melhor calar a boca, menino. Ou ganha mais uma acusao. 
  Passou o olhar sobre todos, inclusive Dora, sem reconhec-la. 
  -- Ningum se atreva a se aproximar da minha filha de novo. 
  -- Magda, no me deixa aqui! - gritou Dora. 
  -- Pai, a Dora no tem culpa. 
  A Irm deu um passo  frente.
  -- Sei muito bem que tipo de gente vocs so. Foram vocs que botaram a Magda nessa vida. Suma da vida dela!  um aviso. 
  -- Ningum precisou fazer a cabea da sua irm, garota. Ela j veio de cabea feita - gritou outro rapaz. 
  A famlia arrastou Magda. Ela olhou para Dora desesperada. Parecia fora de si. Dora tambm no conseguia entender. Estaria to mudada assim, para nem ser reconhecida? Um policial aproximou-se. Chamou uma garota que morava na casa havia trs semanas. Magda desapareceu pela porta de  sada. 
  -- No posso contar com ningum - pensou Dora. 
  Algumas horas depois, foi a sua vez. Passaram uma tinta preta, oleosa, em seus dedos. Tirou a impresso digital. Fez fotos. Quando se sentou em frente ao delegado, notou sua expresso de desgosto. Sabia que estava suja, despenteada. A camiseta rasgada.
  -- Seu nome.
  Imaginou a me chegando. A vergonha. Mentiu.
  -- Regina Ferreira.
  -- Endereo da famlia.

  (p. 107)

  Hesitou. Lembrou-se da casa onde vivia com os pais antes. Foi o que deu. Respondeu pergunta atrs de pergunta. Quantos anos tinha. H quanto tempo vivia fora de casa. O delegado determinou:
  -- Vai para a UAI.
  Como soube depois, tratava-se da Unidade de  Atendimento Inicial da FEBEM, o rgo do governo que cuida dos menores infratores.
  -- Eu no fiz nada! - quis se defender.
  Ningum respondeu. Foi embora, levada pela viatura. Uma hora depois, era recebida pelo coordenador da unidade. Na  recepo deixou todas as suas roupas. At o brinquinho que certa vez ganhara do pai  teve que tirar. Ganhou jeans, camiseta, calcinha, tnis. Tomou banho. Fazia quanto tempo que no sentia a gua quente na pele! Saiu com os cabelos molhados. Recebeu uma cama. Na do lado, uma garota acordou, observou-a, com espanto.
  -- Como voc chama?

  (p. 108)

  -- Dora. Mas eu disse que chamo Regina.
  -- Sueli.
  Deitou-se, exausta. Apesar do corpo doer de cansao, no conseguia dormir. Sentia uma secura, sofreguido. Contorcia-se na cama. Na manh seguinte, todas as garotas  foram acordadas bem cedo. Sentia a pele escaldar.
  --  falta - diagnosticou a companheira de quarto.
  Chamaram o coordenador. Esticava o corpo, tremia.
  -- Voc pode ficar deitada. O quarto, eu tranco por fora. Passou o dia assim, tremendo. A boca parecia rachar. Mais tarde, conseguiu se levantar para o almoo. Refeio simples: picadinho, arroz, salada. Notou a colher de plstico. Evitavam os talheres de metal porque muitas garotas roubavam para fazer armas. Comer, impossvel. Bastou botar uma colherada no estmago para sentir  nsia de vmito.
  Algumas meninas arrumavam-se, cuidadosamente. Iam para a aula de canto.
  -- Os garotos tambm esto no coral.  o mximo! - disse uma delas entusiasmada. 
  Enjoada, Dora nem conseguia falar. Uma psicloga a chamou para conversar. Queria saber sua histria. Contou apenas algumas partes. A moa foi gentil. 
  -- Regina. 
  -- Ahn? 
  -- Aqui na ficha diz que voc chama Regina. 
  -- 
  -- Seu nome  esse, de verdade?
  --  sim. 
  A moa suspirou. Percebia a mentira. 
  -- Vou ser franca com voc. J vi muita menina na sua situao. Estou aqui para ajudar. Mas tem uma coisa. ? Eu no posso fazer nada se voc no quiser. Quem ajuda a gente  a gente mesma. 
  Ouvia, mas era impossvel se concentrar. O zumbido na cabea aumentava. O olho tremia. Nem responder conseguiu. Pouco depois, na sala de televiso, encontrou a garota com quem dividia o dormitrio.
  -- Como foi?
  -- Eu no estou legal. 

  (p. 109)

  --  assim mesmo. Eu pensei que ia ficar maluca quando vim pra c, faz vinte dias.
  -- Vinte?
  -- A gente fica aqui at 45 dias. Depois, mandam para outras unidades. Depende do caso. A minha famlia tem vindo me ver. Mas vai ser difcil sair. Fui pega com uma carga pesada. 
   A nova amiga explicou que morava num bairro muito pobre. Comeou a sair todo o fim de semana. Ia danar num salo das imediaes. Fez amigos rapidamente. A droga entrou em sua vida com a mesma velocidade.
  -- Eu trabalhava num salo de beleza. Manicure. Pegava pesado para ganhar uma mixaria. Comecei a passar pacotinho. No era bem traficante. Mas laranja.  assim que chamam a gente que fica no meio, de laranja. Ou avio. Ficava ajudando, entregando. Tirava uma grana e ainda sobrava pra cheirar.
  -- O que aconteceu?
  -- Fui pega numa batida. Pra dizer a verdade, nem fiquei assim to chateada. Agora vejo que s dava cabeada. O ruim  ficar longe do meu filho.
  Surpresa, Dora olhou a outra. Devia ter uns dezesseis anos, no mximo.
  -- Filho?
  -- Est com seis meses. Minha me cria. Voc no tem nenhum?
  Sem flego, Dora percebeu que poderia ter tido, sim. Havia meses no tomava cuidado. Lembrou-se do pacote de camisinhas dado pela me tanto tempo antes. Que bobagem no ter usado! Arrepiou-se: o que faria com um beb de colo? Pensou nas doenas horrveis que podia ter pego. Quando sasse dali, queria fazer um exame geral.
  Agora, no conseguia mais pensar. A cabea cheia de pontadas. 
  Mergulhou na escurido. Foi levada para a cama. Acordou de madrugada. Eltrica, novamente. Tremendo. Com um desespero danado. Vontade de morrer. De manh, preparou-se para um novo dia de horror.
  -- Eu vou morrer se continuar assim. Preciso de alguma coisa.

  (p. 110)

  -- Isso passa - avisou o coordenador. 
  Ao meio-dia, chegou um camburo, seguido por um caro verde. Os policiais mandaram cham-la. Entrou na sala, apavorada. A me, acompanhada por um homem moreno, de cabelo encaracolado, a esperava, de p. 
  -- Dora!
  Tremia, sem conseguir se mexer. Cleusa correu abra-la. Mas no ltimo instante parou  sua frente, hesitando em  dar carinho. Dora parecia uma desconhecida. 
  -- Est to magra! 
  -- Me!
  Chorou
  -- Por que fugiu, Dora?
  Ficou parada sem resposta.
  -- Voc vem pra casa. Conosco.
  Encarou o acompanhante da me. 
  -- Quem ?
  Cleusa hesitou.
  -- ...  o Paulo, Dora. Advogado da imobiliria. veio comigo, para ajudar em alguma coisa. E... bem,  melhor voc saber logo. Estamos juntos. 
  -- Juntos? 
  -- Muita coisa aconteceu, querida. Em casa, voc vai ficar sabendo de tudo. 
  Voltaram  delegacia. Os policiais haviam suspeitado de que seu nome era falso desde o incio. Procuraram nos arquivos. Sua descrio era parecida com a de muitas desaparecidas. Algum teve a idia de ir at o endereo que ela dera. O novo inquilino da casa chamou os vizinhos. A partir da, foi fcil. Localizaram Cleusa. 
  -- Que marcada! - pensou Dora. -- Dar logo o endereo antigo!
  Teve uma audincia com o juiz. Severo. O homem lembrou:
  -- No consta nenhuma acusao grave contra voc. No h razo pra ficar detida. Mas quero dizer uma coisa. J  vi outras garotas iguais. Algumas comeam assim. De um dia para outro. Acabam envolvidas em alguma histria horrvel. Cometem crimes. A sua famlia se comprometeu a ajudar na recuperao. Aproveite a oportunidade. 
 
  (p. 111)

  Achou o juiz chato. Quase bocejou.
  Ao chegarem em casa, Andr ficou parado na sala. Estava com uma expresso estranha, como se tivesse nojo dela. 
  Cleusa sugeriu:
  -- Andr, abrace sua irm.
  O irmo abraou, sem vontade. Ela tambm estendeu os braos em torno dele, sem apertar. Estava to cansada! Sentiu o cheiro de limpeza do irmo. Admirou-se. H muito tempo seus amigos no cheiravam assim! Tremia. A me no parecia ver. Queria despejar as novidades.
  -- O sei pai veio aqui... ficou desesperado por causa do seu sumio. Aproveitamos para resolver nossa situao. Estamos divorciados, agora. Ele se casou novamente. E eu... eu e o Paulo... ele se mudou para c o ms passado, Dora. 
  Ficou quieta, com raiva. Como a me podia esquecer o pai to depressa? E ele, abandonar a todos? Observou Paulo. Era muito menos elegante que seu pai. Vestia um terno apertado, sem charme algum. Cleusa continuava, decidida:
  -- Nunca perdi as esperanas de achar voc. Enquanto ns procurvamos, eu me informei. Sei que  difcil largar as drogas. Voc quer largar, no quer?
  Fitou a me em silncio. Esta continuou, nervosa. 
  -- J liguei para uma clnica, antes de sair para a delegacia. 
  -- Voc vai me internar?
  --  preciso, Dora. Entenda... eu fao isso por amor. Todos ns.  uma clnica cara. Seu av vendeu uma casinha de aluguel, l em Minas. Para custear seu tratamento.
  -- A casa, ele vendeu?
  -- Ns no tnhamos de onde tirar dinheiro.
  Emocionou-se. Teve vontade de chorar de novo. Sentiu-se como se fosse um monte de lixo.. A casinha era a nica reserva que o av tinha para a velhice.
  -- No preciso de clnica.
  --  melhor, Dora. Veja como est tremendo. Suando.
  O rosto queimava. Gostaria de poder explicar. Bastava fumar umas pedras e ficaria bem. Poderia ir parando aos poucos.
  --  Voc nunca vai entender, me.
  -- Tento fazer o que  melhor. Voc vai para a clnica. Hoje mesmo.
 
  (p. 112)

  Ficou calada, com raiva. Se pudesse fugia de novo. Mas estava exausta. Partiram no finalzinho da tarde. Roupas, nem tinha mais. S as que ficaram no apartamento, quando fugiu. A maior parte estava curta e larga. A cala danava na cintura. Os trajes com que fora encontrada haviam sido devolvidos. Cleusa os jogara no lixo. 
  -- Voc se vestia com esses trapos?
  Na clnica, foi recebida por um mdico jovem. Ele examinou seu olho. Mandou respirar fundo. Auscultou o corao.
  -- Desnutrio profunda. Amanh cedo faremos exames de sangue. 
  No resistiu:
  -- Doutor, no agento mais. O corpo todo di. 
  -- Eu sei. Voc vai ser medicada. A sensao ruim logo passa. 
  Foi levada para um quarto. Recebeu soro. Comprimidos. Adormeceu. E assim comeou seu tratamento. 
  Odiou cada minuto. Sentia-se numa priso. 
  -- Eu seria capaz de largar por mim mesma se me deixassem em paz!
  Acabou entrando na rotina da clnica. Havia sesses com  os terapeutas. Aulas de pintura. Dana. Ginstica. Remdios, embora no soubesse bem o que estava tomando. Teve uma boa notcia dias depois. Segundo os exames de sangue, no havia sido contagiada por nenhuma doena terrvel. 
  -- Teve sorte - disse um rapaz de dezoito anos, que tambm se tratava na clnica. 
  Chamava-se Edmundo. Era aa terceira vez que se internava. 
  -- Voc tambm teve sorte? - perguntou Dora. 
  Edmundo abanou a cabea. 
  -- Usei muita seringa. Na hora do lance, a gente fica to louco que aproveita a seringa de qualquer um. Peguei o vrus nem sei quando. Ainda no se manifestou. Mas o mdico diz que se eu me meter com a coca de novo meu corpo vai se enfraquecer. 
  -- No d pra parar?
  -- Eu tento, mas no consigo. Aqui na clnica, eu penso que larguei de vez.  s voltar para casa, entro no bagulho de novo.
  Dora sorriu, superior. 
 
  (p. 113)

  -- Eu no. Sempre me controlei. Uso s quando quero. 
  Edmundo gargalhou.
  -- Deixa de besteira. Chegou aqui mais magra que um palito. 
  Ofendeu-se.
  -- Voc no entende. Ningum entende. 
  Apesar de brava, acabou contando toda sua histria para o novo amigo. Foram, aos poucos, fortalecendo os laos.
  --  uma sorte ter conhecido voc, Ed. Aqui s d pra conversar com voc - dizia. 
  Com os terapeutas, fechava-se. Um psiclogo explicava.
  -- Sair do vcio  como subir uma escada, um degrau de cada vez. O primeiro  reconhecer que voc  doente. 
  -- Eu no sou doente! - revoltava-se.
  -- Usar drogas , sim, uma doena. Como doente, voc deve tomar precaues. No pode experimentar. Basta experimentar uma vez, novamente, para a vontade voltar mais forte. 
  Odiava a conversa. Ele continuou explicando. 
  -- Voc deve pensar dia a dia. Cada dia deve ser uma vitria. Quando for se deitar, pense. Hoje, eu fiquei limpa. So 24 horas. Amanh sero 48. V contando. Quando tiver um ms, diga para si mesma: Agora, estou limpa h um ms. E assim por diante, at que os meses se transformam em anos. A vitria  sempre dia a dia.
  Remexeu-se na cadeira. Era um tdio ouvir tudo aquilo. O rapaz fez uma ressalva:
  -- S quero dizer mais uma coisa, Dora. Tudo depende de voc. Se eu fosse mgico, era outra coisa. Mas no sou. No adianta eu querer que voc se afaste das drogas. Quem precisa querer  voc.
  De noite, no quarto, lembrava do passado. De Gui. De Elias. De Naldo. Tinha saudades. E Magda, estaria numa clnica como ela? Sentia-se tremendamente s. A raiva era to forte que provocava mais tremores do que a falta de droga. 
  -- Odeio todo o mundo!.
  Dava at vontade de chorar, tanta era a pena que sentia de si mesma. Aos poucos foi resolvendo sair da droga. Queria ser livre de novo. Sem depender de traficantes, de homens que encontrava na escurido. Sem ter medo da polcia, ou  vergonha de encontrar a me. Sem ver o nojo nos olhos do irmo. Sim, seria livre!

  (p. 114)

  -- Vou ficar limpa. Nunca mais ningum bota a mo em mim!
                        
  13

  Saiu da clnica oito quilos mais gorda. Cabelos cortados, penteados, parecia outra. No sentia falta de fumar ou cheirar. Tinha saudades do Edmundo, que se tornara um  grande amigo. O rapaz sara havia um ms. Cleusa que a visitara sempre, comprara roupas novas, do seu tamanho. Achou horrvel mas agradeceu. Na sala do apartamento havia bolo e refrigerante. De amiga s Emlia. 
  -- Ainda bem que voc saiu dessa! - felicitou-a Emlia. Estava acompanhada de um rapaz alto, bonito. 
  --  meu novo namorado. Entrou em arquitetura este ano. A gente est junto. 
  -- Sentiu uma pontada de inveja.  Por que a vida de todo o mundo parecia tomar um rumo e a dela no? Emlia estava trabalhando numa vdeo-locadora do bairro. Contou que vrias colegas de classe tambm haviam arrumado trabalho. Outras deixaram a escola.
  -- A Mrcia foi obrigada a se empregar de domstica.
  Lembrava-se da Mrcia, bem pobrezinha. Teve d. Domstica?
  -- Mas entrou no turno da noite,  muito esforada - continuou Emlia.
  Falou tambm de Tigre. Tambm estudava  noite agora. A oficina do pai ocupava todo o tempo.
  -- Est mais crescido, com cara de homem. E quanto mais velho, mais bonito, o demnio! - riu Emlia. - Outro dia perguntou de voc.
  Mas no era de Tigre que queria saber. Quando encontrou um pretexto para ficarem a ss, quis saber de Gui. Apesar da briga que haviam tido, sentia saudades. Emlia se entristeceu

  (p. 115)

  -- Sumiu.
  -- O qu?
  -- O meu tio e ele brigaram pra valer. Um dia ele apareceu sem moto. Com uma  histria furadssima de que tinham roubado. Vai daqui, vai dali, descobriram. Tinha torrado em droga. Quando o meu tio apertou, ele quebrou tudo que tinha na sala. Mesa, cadeira. Alucinado. Meu tio largou mo. Botou o Gui pra fora de casa.
  -- No acredito.
  -- Ele parecia um bicho, Dora! Foi horrvel. O bairro todo assistiu. A, no outro dia, minha tia teve uma crise. Implorou pra trazerem o filho de volta. Meu primo, o irmo dele, bateu a cidade toda atrs do Gui. Acabou achando. O Gui j  maior de dezoito anos. Disse que no voltava.
  -- No voltou? E foi viver do qu?
  -- Est morando num cortio, com uma mulher bem mais velha. O irmo diz que a tal mulher tem jeito de ser da pesada. Acha que ela e o Gui so traficantes.
  Arrepiou-se. Devia ser verdade.
  -- Emlia, prometo que vou procurar o Gui. Falar com ele. A amiga a observou, surpresa.
  -- Dora, ficou maluca? Voc nem saiu dessa e j quer voltar?
  -- S disse que...
  -- Saquei o que voc disse. Mas pense bem... se for atrs do Gui, vai acabar usando tudo de novo.  hora de cuidar de voc, Dora. 
  Irritou-se. Emlia era uma chata. No entendia nada. Ela, Dora, sabia se cuidar. Notou que o irmo sara da sala no meio da conversa. Quando a amiga foi embora, foi procurar Andr. Estava compenetrado, brincando no computador. Ela nem sabia que ele tinha computador. 
  -- Voc no que falar comigo, Andr?
  O irmo deu de ombros.
  -- Voc j encheu demais, Dora. A me quase enlouqueceu por sua causa e, mal chegou, voc j quer saber do Gui.
  -- Tambm no precisa brigar comigo.
  -- Acha que  fcil ficar na escola ouvindo falar de voc?
  -- Eu sei de muita coisa que a me no sabe. 

  (p. 116)

  -- Sabe do qu?
  -- Que voc andou at fazendo programa.  o que falam por a. Parece que o Gui bateu para uns amigos, e acabou chegando pra mim. 
  -- O Gui no tinha que ter falado nada. Ele bem que se aproveitou. E voc no tem o direito de se meter na minha vida. 
  -- Quer saber, Dora? Voc s d dor de cabea. Deixa eu brincar na net. 
  Era horrvel ver o irmo falar assim. 
  -- Chato. Voc sempre foi um chato, Andr. Eu fico sumida um tempo e voc prefere falar com um computador. Alis, nem sabia que voc tinha. 
  -- O Paulo, o novo marido da mame, me deu. 
  -- Eu no gostei do jeito dele. 
  -- Dora, v se me deixa. Voc continua a mesma, sempre cheia disso, cheia daquilo. Voc viu a cara com que chegou, quando foi presa? Parecia um espantalho. Francamente!  Mil vezes o Paulo do que voc. 
  Saiu do quarto,  irritada. Talves devesse mesmo  procurar pelo Gui, refletiu. No houve tempo para tentar encontrar amigo nenhum. Na manh seguinte, Cleusa arrumou a mala. 
  -- Voc vai visitar seu pai. 
   Assustou-se. E a escola?
  -- Seu pai j mandou a passagem. O vo sai hoje  tarde. Imediatamente, tirou suas concluses.
  -- Voc quer se ver livre de mim. Quer ficar sozinha com o Paulo. 
  -- Como voc pode ser to injusta, Dora? Sofri o diabo quando voc sumiu. Passava o dia todo pensando onde  foi que eu errei. Quase perdi o emprego, de tanto desespero. Por sorte, foram compreensivos. Se no fosse o apoio do Paulo, nem sei o que teria sido de mim.
  -- Ele no me suporta. Mal fala comigo.
  --  timidez. No sabe como se comportar perto de voc. Voc  uma estranha para ele, Dora. E ele, para voc. Mas com o tempo vo se dar bem. 
  Magoada, no conseguia ouvir mais nada. Cleusa continuava. 
  -- S achamos que  melhor ficar longe dos antigos amigos por um tempo. Para a recuperao ser definitiva. 

  (p. 117)

  Embarcou como o previsto. Ao chegar, o pai a esperava no aeroporto. Quase no o reconheceu. Estava moreno, queimado de sol. Magro, muito diferente do executivo gordo como um pozinho francs de algum tempo atrs.
  -- Dora!
  -- Pai, voc est um gato!
  Beijaram-se, Ele apresentou uma jovem de cabelos negros compridos. Jeito de ndia. Grvida.
  --  a Guta. Minha nova mulher.
  Foi um susto. Que o pai casara novamente, j sabia. Mas... ia ganhar um irmozinho? Muda, entrou no carro. Sentiu-se, novamente, excluda. Ningum se importava realmente com ela. Cada um vivia sua vida. O pai, animado:
  -- Fiquei louco querendo saber o que tinha acontecido com voc. Briguei com sua me. Quase larguei o emprego.
  Notou o olhar de Guta examinando seu rosto. O calor era sufocante. Uma crosta de suor sobre a pele. O pai parou diante de uma casa velha, sem pintura. Havia uma varanda com duas redes velhas. Achou horrvel.

  (p. 118)

  -- Esta era a casa dos pais de Guta. Mudaram para um stio. Quando vm a Belm, ficam aqui. 
  -- Sala ampla. Mveis confortveis, mas gastos. Vrios quartos. Guta mostrou um. 
  -- A janela do seu quarto d para a mangueira. Viu que bom? - contou sorridente.
  Nem respondeu. Acaso se importava com a mangueira? Tentou sorrir quando a madrasta mostrou o quintal,  repleto de rvores. Sentiu o esforo de Guta querendo ser simptica. Desconfiou. Parecia forado. O pai tambm falava das vantagens do lugar. 
  --  s acostumar com o calor. Aqui  muito mido e abafado. Mas a cidade  linda. Se voc quiser, pode ficar morando aqui para sempre. Estudar.
  Notou o olhar de Guta cruzando com o do pai. Chegou  concluso de que a madrasta no gostava dela. Ao mesmo tempo, se perguntava:
  -- Como meu pai pde casar com uma ndia?
  Recordou-se da poca em que estudava em colgio de ricos. O que diriam suas antigas colegas vendo aquela mulher de olhos rasgados? Sentiu revolta, muita revolta.
  Sentados na cozinha, aps o jantar, conversaram. Soube que a av de Guta era ndia mesmo, capturada na selva.
  -- Veio para a cidade amarada de mos e ps, como um bicho - contou a moa com orgulho.
  A me de Guta ainda sabia fazer chs de erva para tratar qualquer doena. Dora quase abriu a boca para dizer que esses chs devem provocar a maior viagem. No final da refeio, Guta se levantou para lavar os pratos. 
  -- Ajude um pouco, Dora - pediu o pai. 
  Tinha vindo trabalhar de domstica? No disse nada. Foi para a pia. 
  Queria dormir at tarde, mas o pai a acordou cedo. Era fim de semana. Passearam pela cidade. Conheceu o Mercado Ver-o-Peso. Divertiu-se com as barracas estranhas, que vendiam ps misteriosos. Folhagens. Ossos. Caveiras de bichos. Amuletos. Comeu Tacac, um prato tpico de Belm.  vendido nas ruas. Parece uma gosma branca com camaro seco. Adorou.  Mais tarde, receberam a visita de uns amigos da empresa. Um dos chefes, americanos, tinha gmeas. Ruivas como espigas de milho, com doze anos. Barulhentas. Teve dor de cabea. Refugiou-se no quarto. Ouviu as risadas durante horas. 

  (p. 119)

  A m impresso acentuo-se na semana seguinte. Logo descobriu que a madrasta seguia uma rotina rgida de limpeza da casa. E que esperava a ajuda dela, Dora. Acordava cedo. Punha mesa do caf, mas deixava a loua para a enteada. Depois limpavam a casa, varriam o quintal. O almoo era leve. Preparavam juntas o jantar. Sem saber cozinhar, Dora ficava como ajudante. Descascava batatas. Batia bifes. Guta falava sem parar, contando histrias da vida e da floresta. 
  J ouvira mil vezes sobre o encontro e o namoro de Guta com o pai. Joel estava fazendo um contrato no escritrio onde ela, Guta, trabalhava como secretria. De tanto esperar na sala, acabaram batendo papo. Da conversa, veio o convite para o encontro. Comeou o namoro, que logo acabou em casamento. Para Dora, parecia que Guta tentava se desculpar. Justificar o romance com Joel. Era intil. Dora tinha opinio formada.
  -- Foi assim que ela roubou meu pai da minha me - revoltava-se.
  Por mais que Guta tentasse se aproximar, Dora criara uma muralha. Respondia por monosslabos. Era at rude. A madrasta passou a falar menos. Trabalhavam na cozinha, em silncio. Uma noite, quando se levantou para ir ao banheiro, ouviu a conversa do casal.
  -- Ela no gosta de mim - dizia Guta. -  fechada. Fica num silncio insuportvel.
  -- Meu bem, voc precisa ter pacincia - dizia o pai.
  -- Eu sei. Mas antes, quando estvamos s ns dois, era to bom!
  No banheiro, Dora chorava. S queria ficar em paz.  A conversa de Guta a atordoava. Alm disso, era obrigada a limpar aquela casa enorme! E quando Guta tivesse o beb?
  -- Vai querer que eu lave as fraldas sujas de coc!
  Quando a madrasta pediu para varrer as folhas, no dia seguinte, recusou-se.

  (p. 120)

  -- No sou escrava.
  -- Que foi, Dora? Aqui todos ns trabalhamos. At seu pai ajuda na casa. E tem mandado uma parte do salrio para sua me. No temos dinheiro para botar empregada.
  -- Foi por isso que me chamaram, no foi? Quando meu irmozinho nascer, vou ficar com todo o servio. 
  -- No seja injusta. Minha me vai ficar comigo trs meses. Sabe o que eu acho, Dora? Voc  mal-educada, mimada. Trabalho desde pequena, meu pai nunca teve muitas posses. Olhe para as minhas mos. 
  Guta mostrou as palmas, com calos. 
  -- Quando eu era pequena entrava no mato com meu pai. S mais tarde  conseguimos melhorar de vida, construir esta casa. Gosto de ser til. Voc no. Varre a casa como se estivesse sendo torturada. Se meteu com drogas. Deixou seu pai de cabelos brancos antes do tempo. preguiosa. Chata. Se considera superior a tudo.  uma  tonta. Se ficasse perdida no mato, como eu j fiquei, morria no mesmo dia. 
  -- No fale assim comigo. Voc no  minha me. 
  -- Falo o que quiser, e voc vai ouvir. Pena que eu no seja sua me. No ia deixar voc ficar atormentando todo mundo, como faz. 
  -- Voc no tem nada a ver com a minha vida! Vou embora daqui!.
  -- V, se quiser. Quando seu pai disse que viria,  fiquei contente. Passo o dia todo sozinha. Seria algum para conversar. Estava disposta a ajudar, a ser sua amiga. Mas voc foi uma decepo!
  Ao chegar, o pai encontrou a mulher na cozinha, nervosa. Contou o que acontecera. Dora trancara-se no quarto emburrada. 
  -- Faa as pazes com a Guta, Dora. 
  -- Ela me ofendeu.
  -- J sei tudo que aconteceu. Vocs so parentes. Devem se dar bem.
  -- De uma ndia, eu  no esperava outra coisa. Parece uma canibal. Ainda bem que no me botou no caldeiro para assar.
  Guta ouviu da cozinha. Entrou no quarto, magoada. 

  (p. 121)

  -- Agora voc me ofendeu - Dora. Tenho muito orgulho de ter sangue ndio.  to bom quanto de branco, preto ou qualquer outro. Quer saber? Hoje em dia, o certo no  falar em ndio. Mas em povo da floresta. Voc tem preconceito, cabea ruim!
  Joel quis botar panos quentes:
  -- Gosto muito de voc, minha filha. Mas...
  -- J sei o que vai dizer, pai.  com ela que voc casou. J fiz minha mala.
  A madrasta  mudou de atitude. Parecia arrependida.
  -- Dora, voc  muito nova.  Talves no tenha conscincia de tudo que est dizendo. Eu... eu... quer dizer, ns. Ns vamos fingir que nada disso aconteceu. No gosto de ver seu pai chateado. Vamos comear de novo. Ser amigas. 
  -- Vou  embora, nem que seja a p.
  Chegou a So Paulo um dia depois. No aceitou voltar de nibus. Seriam trs dias na estrada. Forou o pai a comprar o  bilhete de avio. Joel pde pagar parcelado em rs vezes. Despedira-se friamente. A me a esperava no aeroporto, com  o novo marido. Abraou-a.
  -- Fiquei preocupada! Por que voltou to depressa?
  -- A Guta me odeia!
  Chorou emocionada.
  No apartamento, tambm no se sentia bem. O irmo continuava do mesmo jeito. Sempre metido no quarto, com o  computador. Sozinha em casa o dia todo, morria de tdio. Queria voltar  escola, mas era preciso esperar o fim do semestre e o reincio das aulas. Meses! De noite, incomodava-se ao ver Cleusa e Paulo em clima de lua-de-mel. Parecia absurdo que a me ficasse de beijinhos naquela idade. Ainda por cima, com um estranho. Mesmo que o estranho fosse seu novo marido. A timidez de Paulo tambm a irritava. Falava baixo. Mal se dirigia a ela. S fazia perguntas comuns. Notou que, com Andr, conversava mais. Batia papo. Falavam sobre os times de futebol. Com ela, mal se expressava:
  -- Tudo bem?
  -- Tudo bem - respondia.
  Chegou a concluso de que Paulo tambm no gostava dela.

  (p. 122)

  Queria sair, Mas no tinha um centavo. Cleusa no fornecia sequer o dinheiro para a conduo, por medida de segurana.
  -- A me nem imagina como  fcil conseguir grana - pensava. 
  Mas no tinha vontade de sair com homens novamente. Quando lembrava, at suspirar de alvio, suspirava. Fora uma sorte no ter pego doena nenhuma. Ou ficado grvida de um  desconhecido. De tarde, passeava pelas ruas do bairro. Cruzou com Tigre, uma vez. Ele parou, surpreso.
  -- Dora?
  Era um gato, sem dvida. Mais forte, de camiseta e jeans. O rosto marcado, com os traos mais adultos. Ela sorriu. Era bom encontrar algum do passado. 
  -- Tigre. 
  -- Voc est mais bonita. 
  Agradeceu, vaidosa. Era incrvel. O tempo passava, e Tigre continuava com aquela queda por ela. 

  (p. 123)

  -- Soube que est limpa.
  -- Nunca mais fumei, nem baseado - contou Dora.
  -- Legal. Quem sabe a gente pode se ver uma hora dessas. Ir a um barzinho.
  Safou-se depressa.
  -- Minha me no deixa, por enquanto. Virei prisioneira. Sorriu compreensivo. Ela voltou para o apartamento, animada. Era bom flertar. Mas no queria nada com o rapaz. Achava Tigre muito atraente. O problema era outro:
  -- Apesar da tatuagem, do cabelo, ele  muito certinho. Vai querer dar lio de moral.
  Tinha ataques de irritao. Era horrvel viver assim,  sem liberdade. Como uma criminosa. Se pretendia sair, Cleusa sempre dava um jeito de dificultar. Ou acabava indo junto. 
  -- Cinema, querida? Sabe que o Paulo est louco para ver esse filme?
  Arrastava o marido.
  -- Ainda por cima, fico segurando vela - lamentava-se Dora. 
  A me devia pensar que ela, Dora era mesmo muito burra. Incapaz de perceber seus estratagemas. Depois de algumas semanas, decidiu romper as amarras. Foi ao telefone pblico. Ligou para Edmundo, o amigo da clnica.
  -- Vamos nos ver, Dora! Por que no ligou antes?
  -- Fui pra Belm.
  Combinaram o encontro. Ele foi busc-la, depois ela no  tinha nem como pegar nibus. Duas horas depois, entrava no apartamento onde Edmundo vivia com a famlia.
  Ed, no era rico, como tinha imaginado. Morava em um bairro de classe mdia, em um sobrado geminado dos dois lados. Por dentro, a casa era ampla, mas no luxuosa. Tinha trs quartos, sendo um de hspedes. 
  -- Meus pais no tm problema de grana - contou ele.  At ser internado pela primeira vez, Ed trabalhava fora. Pagava a faculdade. Os pais tinham desfalcado a poupana para pagar os tratamentos. 
  -- Eles estavam guardando para comprar um apartamento na praia. Quase tudo foi embora. 

  (p. 125)

  Mesmo assim, no recusavam dinheiro do filho. Principalmente depois de saberem que ele tinha o vrus. Preferiam economizar em outras coisas. Nada faltava a Ed.
  -- Eu me sinto mal, no merecem o que fao com eles - comentou, com remorso.
  -- E sua sade, tudo bem?
  -- Sei l... volta e meia, acho que vou morrer. Logo.
  Lacrimejou. Gostava tanto dele! Abraaram-se.
  -- Eu toro por voc.
  -- E eu por voc, Dora.
  Edmundo abriu uma gavetinha. Tirou um pacotinho. 
  -- Topa dar uma cheiradinha?
  Foi um impacto. O corao saltou. Sabia que devia recusar. Lembrou-se do terapeuta dizendo que cada dia era um dia. Cada recusa, uma vitria. Entretanto... que mal faria uma cheiradinha? Percebeu que bem no ntimo fora por isso que procurara Edmundo. No havia perigo. No tinha droga em seu prprio apartamento. Nunca mais cairia numa pior.
  -- S pra melhorar o astral.
  A sensao voltou, ofuscante.
  Mal terminou, preparou outra carreira.

  14

  Voltou ao crack em uma semana. Tudo aconteceu to rapidamente que Dora nem se sentiu dona do prprio destino. Resolveu visitar Naldo, acompanhado por Edmundo. Quando saram para o apartamento dos rapazes, pensava em fazer apenas uma visita de cortesia. At ela acreditava nesse pretexto. Ao entrar, espantou-se com a magreza de Naldo. Parecia um cabide. Um amigo e a namorada  estavam na sala. O rapaz cado em um colchonete, aparentemente adormecido. A moa, de ccoras, cabea abaixada, balanava para cima e para baixo. Naldo parecia deprimido.

  (p. 126)

  --  a herona. Ficam assim durante horas,  fora do mundo. Ela j havia experimentado em Amsterd e botou meu amigo nesse negcio. At a faculdade ele j abandonou.
  Dora reparou no tom de pele amarelado da moa.
  -- S fazem se picar agora - explicou  Naldo. - Quando acaba o efeito, no conseguem ficar nem um dia sem. D uma tremedeira danada. Parece que o corpo di que  uma  loucura. Soube de um sujeito  que quis largar. Ficou trancado num quarto trs dias e voltou. Quase enlouqueceu de tanto sofrimento. 
  -- Cad o seu primo?
  -- Voltou pro interior.
  Segundo o Naldo, o primo fora jurado de morte pelos traficantes. Muitas dvidas. O jeito foi confessar tudo aos pais. Fugir. 
  -- S me safei porque ele garantiu pra famlia que no curto droga. 
  O primo est vivendo na fazenda, alguns quilos mais gordo. Arrumara namorada no interior. 
  -- Outro dia falei com ele por telefone. Diz que no quer outra vida. S cuidar de vaca, de cavalo, plantao. Ainda por cima, quis me dar conselho. Disse pra eu largar tudo tambm. Agora sim, ele pirou de vez! - riu Naldo.
  Puxou o pacotinho de crack, ofereceu.
  -- Quer, Dora, para matar as saudades?
  Hesitou s um instante. Percebeu que estava  louca para aceitar. Dali a pouco estava fumando. Para Edmundo, acostumado com pico, foi uma novidade. 
  Continuou fumando nas semanas seguintes. Graas ao novo amigo, dinheiro no era problema. Edmundo sempre dava um jeito de arrumar grana. Dora desconfiava que ele andava vendendo alguns objetos da casa, se a me perceber. Mas no fez perguntas. Tambm voltou a encontrar Gui, atravs de Naldo. Cumprimentaram-se, como velhos migos. A briga  j fora esquecida. O amor dera lugar a uma nova emoo, um calorzinho no peito. Nada mais. Soube que ele e a nova namorada fabricavam crack em pedras. Revendiam. Apesar da alegria, Dora teve uma sensao desagradvel. O antigo namorado parecia bem mais velho. Estranho, tambm. De repente o olhar de Gui ficava vago. No respondia coisa com coisa. Usava casaco de couro no calor. Os cabelos sujos.

  (p. 127)

  -- Voltei pro apartamento da minha me, Gui. Vi a Emlia.
  Ele revelou, desinteressado:
  -- s vezes eu ligo pra minha me. Fico sabendo das novidades. 
  Mais tarde, Edmundo admirou-se.
  -- Esse carinha foi o maior amor da sua vida? Que gosto, Dora!
  -- Ele no era assim, Era um gato!
  Surpreendeu-se. Gui no era assim quando se conheceram. Nem Naldo.
  -- Todo mundo foi ficando muito diferente, Ed. Acho que  o lance do crack.  preciso muita grana pra sustentar. A pessoa passa o tempo todo atrs de dinheiro. Antes, voc no imagina como o Naldo era brincalho. Agora fala com um jeito triste, amargurado.
  -- Tambm, com a vida que ele leva.
  Assustou-se:
  -- Que vida?
  -- Voc no sabe?
  Edmundo conhecia Naldo de vista, antes de serem apresentados.
  --  garoto de programa. Sai com todo o tipo de gente. Mulher, homem. 
  No queria acreditar. Refletindo melhor, aceitou. Devia ser verdade. 
  -- S pode ser!  assim que ele consegue a grana. 
  Sempre fora bonito. Lembrou-se dos sumios do amigo, que mais tarde aparecia esbanjando.
  -- Por que voc ficou to chocada, Dora? Voc tambm fez, j me contou. 
  -- Eu sei,  bobagem. 
  Dentro, doa muito. Agora entendia por que ele nunca dissera nada quando ela comeara a fazer programas. Quantas vezes pensara em ficar com Naldo! s vezes, quando o via, seu corao batia mais forte. Resolveu no pensar no assunto. Cada um era dono da prpria vida.
  Foi ficando cada vez mais prxima de Edmundo. O rapaz tinha fixao por ela, embora nunca tenha tentado dar sequer um beijo. Eram como irmos. Viam todos os dias. Ed era generoso. Quando a deixava em casa, sempre a presenteava com umas pedras. 

  (p. 128)

  Certo dia acordou com Andr batendo na porta. 
  -- Deixaram um bilhete pra voc.
  Era dele. Abriu o envelope no quarto. Mais pedras. O aviso de que ia viajar uma semana com os pais. A amizade de Edmundo dava uma sensao de calor. 
  -- At na hora de viajar ele pensou em mim!
  Indiretamente, o gesto do amigo precipitou uma  briga familiar. Foi como se todos estivessem suspeitando de algo, mas no tivessem coragem de falar. Na tarde seguinte ,  sentou-se na cama, acendeu a pedra. Aspirava a fumaa, quando Andr entrou. 
  -- Que susto!
  Andr nem fez questo de disfarar.
  -- Voc no tem vergonha, Dora? O v vendeu a nica casa de aluguel que ele tinha, a me raspou a poupana para pagar seu tratamento... e voc tem o descaramento de  fumar no quarto. Nem disfara.
  -- No sou mais viciada. Fumo s quando eu quero! - explicou Dora. - Quer experimentar?
  Andr a encarava. Por um momento, acreditou que ele fosse aceitar. 
  -- Mentira, Dora. Pensa que eu no percebo? Seu jeito de olhar... meio fora do mundo... o nervosismo... s vezes troca as palavras, muda de assunto sem mais nem menos. A me e o Paulo tambm acham que voc est ficando esquisita. Voc  viciada, sim! Daqui a pouco vai estar na rua, como antes. 
  -- Pra de se meter na minha vida. 
  --  s isso que voc diz? Todo mundo arrancando os cabelos por sua causa... e voc diz que  se meter na sua vida? Quer saber, Dora... antes eu fiquei quieto. Agora conto tudo pra me. 
  Apavorou-se. 
  -- No se atreva. Quebro sua cara.
  -- Pode ameaar  vontade. No me assusta. Eu no vou ficar calado enquanto voc acaba com a vida da me, do Paulo, do pai.

  (p. 129)

  -- Eles que se danem! Ningum gosta de mim!
  --  pra gostar? Com voc metida nessa porcaria?
  Ouviu a porta de entrada se abrindo.
  -- Cale a boca! - gritou, escondendo a caixinha de fsforos com a pedra dentro.
  A voz de Paulo veio da sala. -- Vocs esto gritando tanto que d pra ouvir da escada.
  Paulo entrou no quarto, que estava aberto. Andr, paralisado.
  --  melhor dar uma segurada na briga. A Cleusa est chegando. S parou um instante para falar com a vizinha do trreo. Sua me anda muito nervosa ultimamente. Outra hora eu converso com vocs pra saber por que estavam discutindo. 
  Foi a gota d'gua. At ele queria se intrometer?
  -- Voc no tem nada com isso - disse Dora.
  Paulo ainda quis evitar o confronto.
  -- Tudo bem, no quis forar nada. S achei...
  -- Ningum perdeu pra achar.
  Andr entrou na conversa.
  -- Dora, o Paulo no atacou ningum. No precisa ser grossa. 
  -- Agora voc  o puxa-saco, o queridinho da casa?
  Cleusa apareceu na porta. 
  -- Ouvi o barulho. Que foi, Paulo, que...
  O irmo estourou:
  -- Peguei a Dora fumando crack no quarto. Disse que ia contar e contei. Pronto.
  -- Traidor!
  Em choque, Cleusa nem conseguia falar direito. Lacrimejava.
  -- Fumando... aqui... Dora... como  voc pode, depois de tudo que...
  -- De tudo o qu, mame? Agora quer cobrar a  conta pelo que fizeram?
  -- No fale assim com sua me - respondeu Paulo.
  -- Pois falo, falo e falo. E voc cale a boca. No manda em mim - irritou-se Dora. - Que negcio  esse de falar em tudo que fizeram por mim? No pedi para fazerem nada! Se eu quiser ficar no crack at ficar dura e seca, o que vocs tm com isso?

  (p. 130)

  -- Voc  minha filha! - assustou-se Cleusa.
  -- E da que sou sua filha! E dai? Quando voc veio pra esse bairro no perguntou se eu queria. Quando quis casar de novo, tambm no perguntou! Me botou naquela escola de pobre e nem quis saber se eu gostava!
  -- Ns perdemos tudo o que tnhamos! Voc no pode nos acusar se ...
  -- Ah, no posso?! Vocs nunca se importaram comigo. No, de verdade! Deu chance e voc e o pai j se arrumaram. Eu fiquei sem pai, sem me, sem casa!
  -- O Paulo  legal. E a Guta tambm - defendeu Andr. 
  -- Pra de ser egosta, Dora!
  -- Fica quieto, puxa-saco! Ningum est nem a pra mim. Nenhum de vocs!
  Emocionada com as prprias palavras, Dora  chorava. Cleusa ainda tentou acalmar os nimos.
  -- No  voc que est falando.  a droga. Quando passar o efeito...
  -- Feche essa boca, que voc nunca me entendeu! - gritou Dora. 
  Paulo perdeu a pacincia. 
  -- No fale assim com a sua me. Ser que voc  um bicho, que no tem sentimentos? Agora  comigo! Cad a droga!?
  -- Ela bota debaixo do colcho. Eu vi - avisou Andr.
  -- Vai tudo embora. J! Voc se cura, nem que seja  fora! - rugiu Paulo. 
  Ergueu o colcho. Dora agarrou-se  nos travesseiros, mas Paulo era mais forte e Andr ajudava. Cleusa soluava, alto. Desequilibrada, Dora caiu no cho. Paulo agarrou o pacotinho, foi para o banheiro. Quando ia atirar no vaso, Dora agarrou uma tesourinha de unhas e pulou em cima dele. Enfiou as lminas nas costas. As pedras rolaram pelo cho. Paulo gritou, mais de susto que de dor. A camisa empapada de sangue. Dora recolhia as pedras rapidamente. 
  -- Voc no manda em mim!  Voc no  nada meu - ameaava Dora, ainda de tesourinha na mo. 
  Apoiada no batente, Cleusa estava plida.
  -- V embora, Dora. 

  (p. 132)

  -- O qu? Eu moro aqui!
  -- No mora mais. Pegue sua trouxa e v de uma vez.
  -- O apartamento  meu tambm. Foi meu pai quem comprou!
  -- No suporto mais, Dora. V antes que eu chame  a polcia! Voc est destruindo a mim... ao seu irmo... v embora, v para a vida que voc escolheu.
  Revoltou-se. De repente, parecia ver tudo claramente. Apontou Paulo. 
  --  ele, n? Quer ficar com ele sozinha. Pois eu vou. Tambm no suporto ver as fuas de vocs todos. Vou cuidar da minha vida. 
  Correu para a porta. Desceu as escadas correndo. Ouviu o grito de Cleusa. 
  -- Dora! Espere! Espere!
  No parou. Na rua, continuou correndo desvairada, atravessando ruas, cortando caminhos. Criando desvios, para no ser seguida. S parou quando estava exausta. Era de noitinha. Esperou a respirao voltar ao normal. Sara com a roupa do corpo sem um centavo. Nas mos, apenas as pedrinhas dadas por Edmundo. 
  -- Que importa, estou livre!
  Em breve, acreditava, tudo estaria resolvido. O amigo emprestaria algum dinheiro. Estava viajando,  verdade. Naldo a abrigaria, por alguns dias. O primo no morava mais l, no havia problema. Foi ao ponto de nibus mais prximo. Escolheu um senhor de jornal debaixo do brao. Aproximou-se. 
  -- Eu perdi minha carteira. O senhor me arruma para a conduo?
  O homem olhou, desconfiado.
  -- S para a conduo, por favor. Minha me j deve estar preocupada. 
  Ele pegou uns trocados do bolso. Ela agradeceu. Quando desceu no centro da cidade, caminhou algumas quadras at o apartamento de Naldo. Sentia um pouco de fome. Ainda bem que tinha pedras. Poderia fumar uma, assim que chegasse. Entrou. Foi barrada pelo porteiro. 
  -- Vou no Naldo. Voc me conhece, venho sempre aqui. O porteiro a observou, surpreso. 

  (p. 133)

  -- No sabe?
  Veio um calafrio.
  -- Do qu?
  -- O Naldo teve um ataque do corao, antes de ontem. Quer dizer, falam que foi do corao. Mas aqui no prdio comentam que foi droga.
  Quase teve um ataque de choro.
  -- Ele morreu?
  -- S sei que foi pro hospital. Ontem o pai e a me vieram arrumar tudo. A me chorava sem parar. Pelo que falara,. no sei se sai dessa no.
  Perguntou sobre o hospital. O porteiro no sabia qual era.
  -- Passa outro dia. Quem sabe eu fico sabendo de alguma coisa.
  Parecia impossvel.
  -- Sei que voc era amiga dele - continuou o homem. - Quer um conselho? Suma daqui. A polcia j veio me perguntar se conheo algum da turma. 
  Fez um esforo para andar at o prximo quarteiro. Apoiou-se na parede. Com dificuldade, refletiu.
  -- No  hora de chorar. Preciso de um lugar pra ficar. Pelo menos por hoje.
  Lembrava-se vagamente do endereo de Mnica, uma garota que conhecera no apartamento de Naldo. A que usava herona. Tinham se encontrado outras vezes. Conversaram. Sabia onde ela morava, uma vez haviam passado em frente. Usou novamente o truque de pedir dinheiro para a conduo. Depois, rodou horas pelo bairro at encontrar o prdio. Era um endereo elegante. Interfone na portaria. Ficou com medo de que Mnica no a recebesse. Sentiu um alvio enorme quando foi autorizada a subir. 
  Era um apartamento de andar inteiro. Mnica morava com o pai, vivo, e a av. Tudo muito chique, Muito elegante. Foi recebida na porta. Vestida de preto, com o cabelo esverdeado e um piercing no nariz, Mnica era uma figura extica. Plida, magra, fazia um tipo elegante. Movimentava-se pausadamente. 
  -- Dora, que foi?
  -- Voc soube? Do Naldo?

  (p. 134)
 
  -- Pior... eu estava l.
  Levou-a para a sala. Conversaram longamente. Naldo sofrera uma overdose. Mnica e o namorado chamaram uma ambulncia, mas sumiram antes de ela chegar. 
  -- Ficamos com medo do rolo - confessou Mnica. - Mas o meu gato, que conhece a famlia do Naldo, diz que est na UTI. Tem chance de se salvar. 
  Dora tomou coragem.
  -- Minha me me botou para fora de casa. O Ed foi viajar... precisava...
  -- Pode ficar no quarto de hspedes - explicou Mnica. 
  -- Mas no d bandeira. Aqui em casa eu me controlo. Se estou muito louca, me tranco no banheiro. 
  Pensou em Naldo abandonado, sozinho, na overdose. Talvez se, em vez de fugir, tentassem socorr-lo, as chances de recuperao seriam maiores. Teve raiva de Mnica e de todos os amigos, incapazes de ajudar numa hora dessas.
  -- Que cara  essa, Dora?
  Disfarou. Precisava de abrigo. 
  -- Deu fome. 
  Na cozinha fez um sanduche. Quando foi tomar banho, Mnica emprestou uma camiseta, calcinha. Ofereceu:
  -- Pode ficar com esse jeans ...  velho.
  Serviu, com a barra dobrada. Apertava na cintura, mas tudo bem. No quarto, que tinha banheiro privativo, fumou uma das pedras salvas do ataque de Paulo. Seria preciso economizar, at a volta de Edmundo. Mas  estava to nervosa que uma pedra s no foi suficiente. Fumou outra. 
  Tentou ser simptica durante o dia seguinte. Conversou horas com a av de Mnica. Tomou cafezinho. O que restava das pedras se foi. Voltaram os velhos sintomas. Secura na boca. Tremor.
  -- Acho que estou gripada - explicou  av da amiga. 
  De madrugada, no agentava mais as pontadas na cabea. No teve dvidas. J percebera que Mnica deixava a bolsa em qualquer lugar. Nem devia saber quanto dinheiro tinha na carteira.  Pegou metade. Saiu bem devagarzinho para no notarem. Conhecia uns pontos. Comprou pedras. Fumou agachada na sarjeta, com uma garota traficante. Voltou quando amanhecia. J tinha sido apresentada como hspede ao porteiro.  Entrou sem que chamassem pelo interfone. Deitou-se.

  (p. 135)

  O rosto duro de Mnica foi a primeira coisa que viu ao despertar.
  -- Desgraada.
  Quis se fazer de inocente.
  -- Que foi?
  -- Voc pegou minha grana.
  O dinheiro fora retirado do banco no dia anterior. Mnica sabia exatamente quanto tinha.
  -- Quebrei a cara quando fui pagar meu bagulho.
  Perdera a compra de herona.
  -- Quase levei porrada.
  -- No fui eu. 
  -- Se manda. 
  -- Eu no tenho pra onde ir.
  -- Ajudei voc, e  assim que me retribui. E olha que nunca fui muito com a sua cara. Mas ajudei. Pensei no Naldo. Ele gostava tanto de voc. Por isso dei bobeira. Nem reconhecer, voc reconhece. D o fora.
  -- Vou falar com sua av. Ela me deixa ficar.
  -- Ela est dormindo. Se voc for encher a pacincia dela, leva uns tapas. V de uma vez!
  Enfureceu-se.
  -- Tambm nunca fui com sua cara. Quer saber? Nem essa porcaria de jeans eu quero!
  Foi no varal. Pegou o vestido com que chegara, ainda dependurado. Botou, mido.
  -- J vai tarde - disse Mnica.
  Na rua, correu para um telefone. Talvez Edmundo j tivesse voltado da viagem. Com o resto do dinheiro, bem escondido na calcinha, comprou fichas. Ligou. Suspirou aliviada quando um homem atendeu.
  -- Quem quer falar com meu filho?
  --   a Dora, amiga dele.
  Houve uma pausa do outro lado. Percebeu uma voz masculina e outra feminina discutindo. O homem voltou ao telefone.
  -- O meu filho foi internado de novo.

  (p. 136)

  -- Mas o que...	
  -- No vem com histria, garota. Ns j andvamos desconfiados... vendo voc e ele pra cima e pra baixo. Descobrimos tudo na viagem. Agora, v se no aparece mais. Ou eu chamo a polcia!
  Ouviu o estalido do telefone.
  Pensou nas alternativas. Poderia procurar Gui. Mas e a mulher com quem ele vivia? E se fosse ciumenta? Com um arrepio, lembrou-se da casa da Frei Caneca. Seria uma alternativa. 
  Exausta, caminhou at l. Demolida. S restavam algumas paredes. Na frente, uma placa de madeira anunciando um prdio de apartamentos. 
  -- E agora?

  15

  Rodou pela cidade  horas e horas. Tudo parecia dar errado. Bateu at uma pontinha de remorso.
  -- Bobeira ter roubado aquela grana da Mnica. 
  Tinha a convico, porm, de que acabaria sendo expulsa de qualquer maneira.
  -- Confiei demais no Ed. 
  Sentia-se magoada. Trada. Como ele pudera falar ao pai sobre ela? Como pudera desaparecer justo nesse momento? Tinha sido ele quem oferecera a primeira carreirinha  de coca, assim que voltaram  a se ver. 
  -- Estava limpa... e ele me botou nesse negcio de novo. Nem conseguia sentir raiva. No ntimo, talvez soubesse que essa era apenas sua verso dos fatos.
  -- Quem sabe eu teria acabado cheirando de qualquer jeito. Lembrou-se de quando aceitava dinheiro de homens. No queria voltar a fazer isso. Sentia-se mal s de pensar. Mas no havia alternativa. Poderia conseguir dinheiro para um hotel.  Uma penso, no mnimo. Muitas garotas viviam disso. Por que no poderia viver tambm? Seria fcil.
  -- O que custa fazer de novo? 

  (p. 137)

  A fome aumentava. Mendigou dinheiro com alguns transeuntes. Conseguiu para um hambrguer, fritas e Coca-Cola. Devorou tudo. Ao entardecer, voltou para seu antigo  ponto, perto da rua Augusta. Notou que algumas prostitutas,  profissionais, a olhavam com desagrado. Uma se atreveu:
  -- Que pensa que veio fazer aqui, fedida?
  Com medo, nem respondeu. Andou alguns metros. A outra a encarava. Sabia que tinha uma aparncia triste. Vestido amassado. Cabelos despenteados. Nem escovara os dentes de manh! Apesar disso, tinha uma vantagem sobre as outras. Parecia uma garota de famlia, no uma profissional.
  -- Os clientes sempre sabem que meu negcio  outro. Que s estou aqui por causa do bagulho - disse para si mesma. 
  Um carro parou. Dois rapazes fizeram sinal. Tremeu. Dois? Era o cmulo da humilhao. Sentiu que estava caindo, caindo. Por pouco no deu meia-volta e correu sem parar. Para onde? No podia voltar para a casa da me, raciocinou. No, depois da briga com Paulo. Fora expulsa. Agora estava por conta prpria. Topou dar uma volta. Combinou o preo. No carro, usou o velho artifcio. Abstraiu-se. No era com ela. No estava l. Era um filme, e apenas assistia. O olhar perdeu-se no vazio.
  Quando percebeu, estava indo em direo a um bairro distante. Isolado.
  -- Pra onde vocs esto me levando?
  -- Fique quieta - disse um deles, tomando uma cerveja. Um calafrio bateu na espinha. J ouvira histrias horrveis. Sobre surras. Garotas que sumiam.  Uma amiga de Magda, profissional das ruas, muitas vezes avisara. 
  -- Nunca entra em carro com dois.
  Caiu em si. Como pudera cometer essa besteira?
  --  melhor vocs pararem essa porcaria.
  O do bando de trs puxou seu pescoo. As mos agarraram sua traquia.
  -- J mandei calar a boca.
  Gemeu. Calou-se. Nervosa, procurava uma chance de escapar. O rapaz mexia em seu cabelo com agressividade. O do volante botou a mo em sua perna. Ainda tentou dominar a situao.

  (p. 138)

  -- E a grana? Ainda no vi nada.
  O motorista deu uma gargalhada. Ela encolheu-se. Decidiu parecer assustada.
  -- Assim  que eu gosto - disse o outro.
  O carro parou no semforo. Era uma grande avenida. No teria outra chance. Foi rpida. Destravou a porta. Abriu, pronta para saltar. O de trs a agarrou pelo vestido, o outro pela perna. Conseguiu botar um p pra fora, gritou.
  -- Socorro!
  Os dois gritaram palavres. Debateu-se um instante, notou outros carros por perto. Ningum se mexia. Assistiam  cena. Como se fosse mesmo um filme e ela no fosse um  ser humano, sofrendo, implorando ajuda. Desesperada, imaginou que iam coloc-la para dentro de novo. Mas os rapazes se assustaram. O do volante soltou sua perna, para mexer no cmbio. Ela deu uma guinada com fora, conseguiu sair com o corpo inteiro. O vestido se rasgou nas mos do de trs, o carro arrancou no vermelho. Ela rolou na sarjeta, raspando joelhos e braos. Finalmente, uma mulher desceu de um carro. 
  -- Venha, vou te levar pra um pronto-socorro.
  Conseguiu ficar de p. Todo o corpo ralado, mas no devia ter quebrado nada. 
  -- No precisa. Moro perto. 
  Mais algumas frases, conseguiu se livrar, O corpo doa. S tinha um desejo: descansar. 
  Notou uma estao de metr por perto. Estava na avenida Radial Leste, no outro extremo da cidade. Sabia voltar. 
  -- Voltar, para onde? - angustiou-se.
  Desceu no centro. Caa uma garoa fina. Parou num carrinho de cachorro-quente, pediu um, Os trocados estavam terminando. Apalpou uma pedra no bolso. Pensou em buscar outro cliente. Tinha medo. Alm do mais, com o corpo todo ralado, cheio de manchas de sangue, quem iria querer? Andou mais um pouco, mancando. Percebeu uma grande animao embaixo do viaduto. Pessoas faziam fogueiras, cozinhavam feijo. Algumas sentavam-se num velho sof. Um casal deitava-se sobre jornais. Todos maltrapilhos, sujos. Aproximou-se, mas no muito. Perto deles, no estaria sozinha. De longe, a polcia pensaria que ela faia parte de alguma daquelas famlias. Sentou-se de ccoras contra uma pilastra. Um bbado a olhou de longe, riu. Ficou quieta, com medo. O machucado doa. No tinha mais foras para caminhar. 

  (p. 139)

  -- Vou passar a noite acordada - decidiu.
  Com cuidado, conseguiu acender uma pedra. A penltima. Fumou. Ficou bem, pelo menos por algum tempo. Curiosamente, ningum se aproximava dela. Riu.
  -- Devem ter medo de mim.
  De longe, observou-os enquanto comiam. O cheiro da refeio deu nojo. Pernas, braos, costelas estalavam. Como se estivesse deitada em arame farpado. Assistiu enquanto, um a um, todos se deitavam na calada. Um rapaz, quase adolescente, fez sinal, chamando, mostrando um colcho. O dele. Ela fingiu no ver. Algumas horas depois, continuava de olhos abertos. Todos dormiam. Fechou os olhos e adormeceu tambm.
  Despertou com a claridade do dia. Algum sacudia seu ombro.
  -- Acorda.  hora de dar o fora. Daqui a pouco os  meganhas vm limpar a rea.
  Surpresa, notou o rapaz da noite anterior. Era, de fato, muito mais novo do que parecera no escuro. Talvez tivesse a idade de Andr. De longe, uma mulher, com duas crianas menores, os observava, fazendo sinais. Demorou algum tempo para tomar conscincia de onde estava. Levantou-se com dificuldade.
  -- Quer caf? - ofereceu o rapaz.
  Os membros, entorpecidos. O corpo, cheio de crostas. Caminhou at a mulher. Recebeu uma xcara de caf ralo. Quando a mulher falou, espantou-se. Era educada, embora um pouco rude. Percebeu que olhava com pena.
  -- Est toda machucada.
  -- Eu sei.
  No disseram mais nada.
  -- Voc no tem  pai, me?
  -- No tenho mais ningum - explicou Dora.
  Um homem de jeans, camiseta e ar cansado aproximava-se.
  -- Quer sair com a gente?

  (p. 141)

  A me explicou que vendiam frutas em um semforo.
  Tinham um esquema com um sujeito e ganhavam um pouco sobre cada caixa vendida. Pai, me e trs filhos viviam disso. s vezes quando faltava fruta, vendiam buqus de flores.
  -- Quem fica com a grana pesada  o dono do ponto. Mas sempre entra algum - disse o pai. -- Se quiser ir, bom lavar essas feridas.
  Quase respondeu que no era mendiga para vender fruta em semforo. Calou-se a tempo. Tinha fome, precisava de dinheiro para o crack ... Perguntou onde podia se lavar. Eles conheciam uma bica clandestina, perto da avenida Vinte e Trs de Maio. A me s vezes lavava e secava as roupas da famlia nesse lugar. Aceitou.
  Passou o dia debaixo de sol escaldante. Pensava que ia desmaiar a cada momento. Nem fumar podia. Sentia-se to mal que j no sabia se era falta do crack, a fome ou simplesmente cansao. Cada caixa de figos vendida - era o produto do dia - rendia pouqussimo. Para comprar mais pedras, precisaria trabalhar uma semana. Notou que o chefo, dono do ponto, a observava. Era um sujeito de uns trinta anos. Simptico. Quem sabe?
  Quase deu um tapa em si mesma. Como? Uma noite antes estava num apartamento chiqussimo, hospedada por Mnica. Agora, era capaz de querer unir-se a um sujeito daqueles? Pior ainda. Passava o tempo todo de olho para fugir se passasse o carro de algum conhecido.
  Apesar do mau humor, continuou vendendo. Era preciso sorrir, insistir em cada veculo. A maioria fechava o vidro, virava a cara. Alguns compravam.
  -- S pra ajudar - disse um motorista.
  Teve vontade de gritar que no precisava de esmola. Fechou a boca.
  Mais tarde, sentada perto de um fogozinho improvisado, embaixo do viaduto, conversou com a famlia. Surpreendeu-se. A histria no era, afinal, muito diferente da de seus pais. At dois anos atrs, moravam numa casa alugada, num bairro da zona norte. O pai trabalhava numa metalrgica. Ganhava bem, tinha carro. Os meninos, na escola paga. Simples, mas de bom nvel. Um dia, perdeu o emprego. Tentou vrias coisas. Montou um negocinho, deu errado. As economias acabaram. Passou a viver de bicos. O dono da casa exigiu um aluguel maior. Foi preciso deix-la. Tentaram um barraco numa favela. Nem isso conseguiram. No houve alternativa, a no ser viver na rua.

  (p. 142)

  --  s at a situao mudar - garantiu a me.
  Dora nem soube o que responder. Mudar como? Se em dois anos nada surgira. No entendeu como a mulher ainda tinha esperana. 
  -- A gente vai achar uma sada. Os moleques ainda voltam pra escola. 
  Espantada, Dora descobriu que conhecia mais sobre becos sem sada do que a mulher. Pois vira, durante o dia, o garoto mais velho enturmado com uns meninos de rua. Em breve ele estaria no crack. Talves assaltando. Trocou um olhar rpido com o pai. Nunca vira tanta tristeza no semblante de um homem. 
  -- Ele est desesperado - percebeu Dora. -- Sabe que no tem como sair dessa. 
  Lembrou-se do pai quando perdera o emprego. A deciso de ir para a Amaznia a revoltara tanto! Teria tido outra alternativa? Sentira medo de acabar como esse homem?  No, no queria pensar nisso agora. A mulher estendia um gomo de laranja. Havia apenas uma, que ela havia dividido entre todos. 
  -- Pegue.
  Deu um n na garganta. Apesar de sofrer tanta desgraa, aquela mulher era capaz de generosidade. Dora aceitou. Deixou o gomo se dissolver devagar na boca. Uma delcia. Percebeu que no teria coragem de fumar crack na frente daquela famlia. Muito menos de apresentar o bagulho aos meninos. Levantou-se.
  -- Eu vou.
  Todos se admiraram.
  -- Para onde? - perguntou a me.
  -- Fique com a gente - ofereceu o pai. Uma garota como voc sozinha na rua... o que pode acontecer
  Tinha vergonha de tanta bondade. No havia como dizer no. Decidiu partir quando todos estivessem dormindo. Fumaria a ltima pedra mais tarde. Depois, veria o que fazer. Mas, nesse instante, aconteceu algo surpreendente.

  (p. 143)

  Um vulto esqueltico, de cabelos cortados em pontas, jeans rasgado e camiseta imunda, aproximava-se. Dora sentiu um  arrepio do ver a figura, recortada contra as luzes da cidade. 
  -- Diabo - disse a me. -- De novo.
  -- Que foi?
  --  uma doida que vaga por aqui - explicou o garoto mais velho. -- s vezes, quando a cabea fica limpa, at  legal. Mas a maior parte do tempo no fala coisa com coisa. Briga por qualquer besteira.
  -- Foi ela quem quebrou meu jogo de caf. Era a ltima coisa que restava da minha casinha. Ganhei no casamento. Eu deixava guardada num esconderijo, atrs de uma rvore. A diaba descobriu e quebrou tudo - contou a me, triste. - Agora no tenho mais nada para lembrar de quando era bom.
  A figura aproximou-se, estendendo a mo cadavrica, s pelo e osso.
  -- Tem caf? - balbuciou.
  A me encheu uma canequinha de lata, estendeu.
  -- O pior  que a me nunca diz no - contou o garoto.
  Para Dora, parecia que o mundo havia cado. Atrs daquela pele amarelada, de olhos fundos, ela reconheceu Magda. Magda, sem sombra de dvida. Pela segunda vez, a amiga surgia perdida  sua frente. Como se vagassem no mesmo mundo e vivessem dando esbarres uma na outra. Agora no tinha vrios dentes da frente. Outros, podres de tantas cries. O cabelo, um trapo. A orelha cheia de  brinquinhos. Manchas roxas no corpo.
  -- Magda! - gritou.
  A amiga, a fitou, sem reconhec-la. Dava dor ver aqueles olhos vazios.
  -- Um dia tambm vou ter olhos assim? - assustou-se Dora. 
  Insistiu:
  -- Magda, sou eu, Dora. No lembra de mim?
  Lentamente, Magda tentou um sorriso. Como se a  lembrana penetrasse pela fresta de seu pensamento.
  -- Ah... Dora... Voc, Dora?
  Reagiu como se fosse um vampiro  procura de sangue. Estendeu a mo, pediu.

  (p. 144)

  -- Tem pedra, Dora?
  A famlia toda as observava. 
  -- Voc conhece essa ai? - espantou-se a me. 
  Quis explicar quem era Magda, no conseguiu. A me puxava os filhos para si.
  -- Essa a no  gente - continuou a me. -- Faz qualquer coisa pela droga. Nem os mendigos querem saber mais dela. 
  -- O pai dela  um industrial. Mora numa manso.  rico. Os outros sorriam com descrdito. 
  -- Se fosse rico no ia deixar a filha virar esse molambo de gente - afirmou o homem. 
  Magda agarrou Dora. 
  -- Arrume uma pedra... por tudo... eu preciso, Dora. 
  A atitude da me mudara. Era dura. 
  -- Pensei que voc era uma coitadinha. Fiquei com d, vendo tanto machucado. Agora vejo.  da turma dessa a. Eu tenho pena... muita pena... mas no quero meus filhos metidos com esse negcio. No quero acabar com o futuro deles, no. 
  -- Que futuro, dona? - retrucou Dora, irritada. - Vocs no tm futuro nenhum.
  -- Enrole a lngua na boca, que  melhor. Meus filhos vo ser gente, ouviu?
  -- Se manda - disse o pai. - A gente no quer nada com viciado. 
  -- Queria mesmo ir embora. Vocs  que insistiram pra eu ficar - disse Dora. 
  Abraou Magda pelo ombro.
  -- Venha, eu arrumo o bagulho. 
  Arrastou a amiga. Estava to magra que dava at d. Ergueu o queixo, orgulhosa. De fato, sentia-se humilhada. 
  -- Nem embaixo do viaduto me deixam ficar. 
  No havia tempo para se lamentar. Puxou Magda ao longo do viaduto, procurando um lugar. Tudo estava ocupado. Famlias inteiras viviam no calado. Em alguns lugares,  percebeu figuras solitrias sobre colches. Magda empacava. Era preciso insistir para continuar. Finalmente, achou uma porta de loja vazia, na calada oposta. De manh, seria preciso  partir antes que abrissem. Acomodou Magda, com carinho. Pegou  sua ltima pedra, acendeu. Apresentou. Magda aspirou a fumaa, trmula. Em seguida, foi sua vez.

  (p. 145)

  -- Nunca pensei que ia dividir essa pedra, justo a ltima. Mas  por voc, Magda.
  S cochilou, a noite toda. Acordava a cada movimento da amiga. Magda tinha um sono intranqilo, Falava frases incompreensveis. Debatia-se contra a calada, com espasmos musculares. Talves fosse esse o motivo de tantos machucados. Quando a amanh chegou, foi um alvio. Tentou conversar. Magda no falava coisa com coisa.
  -- O que aconteceu com a gente? - perguntou Dora. - No faz muito tempo, eu fui a sua festa de aniversrio, Magda. Tinha um super-som, tinha tanta comida que nem consigo lembrar. E agora? Como  que voc pde ficar assim?
  Em silncio, Magda babava. Parecia uma boneca de pano solta.
  -- Eu sei que voc vai ficar louca da vida comigo. Mas no pode continuar na rua - decidiu Dora. 
  De fato, seus companheiros da noite anterior tinham razo: um homem to rico como seu pai no deixaria a filha nesse estado. Enviaria Magda para um tratamento. No exterior, talvez.
  -- Voc vai para a casa, Magda. Eu vou salvar voc.
  Passou a manh pedindo esmolas. Em apenas duas noites de rua, sua aparncia no era mais a de uma garota de classe mdia. O vestido rasgado. Sujo. A falta de banho! Tornara-se igual aos mendigos a quem torcia o nariz com  desprezo.
  A cada um que passava, pedia auxlio. Arrastara Magda at um muro. Indicava a amiga no cho, sentada, com ar ausente. Muitos se afastavam, como se tivessem nojo. Ou medo. Alguns davam moedas. Juntou o suficiente para levar Magda a um bar. Pediu caf com leite, po com manteiga. O rapaz do balco no queria servir.
  -- Aqui no  lugar de mendigo.
  Brigou. Desfiou um cascata de palavres. O dono do bar saiu do fundo.
  -- Cala a boca seno vai pra rua a tapa.
  -- Eu pago! - gritou, mostrando as moedas.

  (p. 146)

  Para se livrar, o homem mandou fazer sanduches de mortadela. Deu caf quente em copos de plstico. Nem cobrou. Bastava que dessem o fora. Comeram na rua, encostadas numa parede. 
  -- Vamos, Magda. 
  A amiga, passiva. Ausente. Conseguia andar, embora Dora tivesse que pux-la pela mo. Tomaram um nibus. Depois outro. Caminharam at os muros da manso. Quando viu onde estava, Magda ganhou nova vida. Quis fugir. Estava to fraca que Dora conseguiu segur-la, apesar da revolta da outra. 
  -- Venha, Magda! Seu pai, sua me, sua irm, todo mundo  vai ajudar voc. Eu garanto. 
  Falava o que vinha na cabea. Precisava lev-la de volta pra casa. Foi difcil. S conseguiu graas aos lapsos de Magda, que subitamente esquecia onde estava. Levou at os portes.Na guarita, um guarda perguntou feroz:
  -- Que  que voc quer?
  -- Esta aqui  a Magda, a filha do dono. Juro!
  O rapaz estranhou. Chamou pelo interfone. 
  -- Tem duas garotas de rua aqui. Uma diz que  a filha do seu Almeida. 
  Dali a pouco uma senhora de uniforme aparecia no porto. Ao ver Magda, fez uma expresso de horror. 
  --  a menina! Ai, meu Deus!
  Outros empregados aproximavam-se, com expresso de espanto. Formaram um crculo. Para surpresa de Dora, ningum se mexia. 
  -- Vocs no vo pr a Magda pra dentro - admirou-se.
  -- O copeiro foi telefonar para o patro. Todo o resto da famlia est viajando, desde que...
  -- Desde o qu?
  A mulher calou-se. Uma empregada apareceu com uma bandeja. Pes, copos de refresco. Para Dora era muito estranho. Magda doente e todos hesitavam. Pegou um po, comeu. Magda tremia, cada vez mais assustada. O copeiro apareceu, vermelho. Envergonhado. 
  -- O patro disse que ela no pode entrar.
  -- O qu? - espantou-se Dora. - Voc no deve ter explicado direito.  a filha dele.

  (p. 147)

  -- Expliquei sim. Ele disse que no tem mais filha. 
  A governanta chorava. Fez um carinho em Magda. 
  -- Que desgraa. 
  A duras penas, Dora conseguiu que a governanta explicasse tudo. Antes de fugir pela ltima vez, Magda tivera uma crise de falta de crack. Tentara sair para comprar, foi impedida. Partiu para a violncia. No desespero, havia esfaqueado a irm e o sobrinho, ainda um menino. Sobreviveram. Mas a famlia desistira de tentar o tratamento. A me e a irm foram passar uma temporada na Europa,  para esquecer e tratar da sade. Havia uma ordem expressa para que Magda nunca mais fosse admitida naquela casa. 
  -- Vejam o estado dela - implorou Dora. - No fala coisa com coisa. 
  -- O pai largou mo - explicou o copeiro. At que est certo. Se fosse minha filha, tambm  renegava.
  -- Pelos menos, me arrumem uma grana - implorou  Dora. - Ns no temos para onde ir!
  O copeiro e a governanta fizeram uma vaquinha. At o segurana participou. O copeiro fez uma exigncia. 
  -- V se no aparece mais aqui! O patro proibiu. Pode at botar a gente na rua!
  Envergonhada, Dora partiu com Magda. Contou o dinheiro. S havia uma alternativa. Procuraria Gui. Mesmo que a mulher dele pusesse obstculos, no iria deis-la na mo. Ainda mais com Magda daquele  jeito. Pegaram um nibus at o bairro onde ele morava. Sabia vagamente o endereo. Mas conseguiu achar a casinha de Gui. Casinha? Era um quarto-e-cozinha nos fundos de uma casa velha, junto com  muitos outros. Um cortio. Ele e a companheira estavam dormindo. Acordou de mau humor. Dora explicou a situao. Mostrou o dinheiro. Ele disse que podiam dormir no  cho, por alguns dias. 
  -- S at a Magda melhorar. Com ela em condies, a gente vai embora. 
  A companheira de Gui aceitou a situao com raiva. Exigiu que pagassem as pedras que consumissem. O dinheiro que Dora conseguira dos empregados seria suficiente por alguns dias. Isso acalmou a mulher.

  (p. 148)

  Tudo comeou a dar certo. Com descanso e algumas refeies, Magda ganhou alguma cor. Dora sentia-se orgulhosa. Acompanhava seus progressos. Pela primeira vez no mundo, cuidava de algum. Torcia por Magda. 
  -- Essa ai no tem mais conserto - afirmou  a companheira de Gui. -  que nem um zumbi. Acho que a cabea ficou lesada. Quando tem crack,  fica falante animada. Quando no tem, fica de olho parado, uma morta-viva.
  Dora nem quis responder. Evitava discusses com a dona da casa. Preferiu fumar uma pedra, em silncio. Um dia, tudo seria diferente! Magda voltaria a ser recebida pelos pais. Perdoada. Trataria os dentes. Engordaria. Voltaria a ser a garota chique e esperta de antes. O fio dos pensamentos levou Dora para outra pergunta. 
  -- E eu?
  Pensar em Magda fazia ela pensar nela mesma de uma  outra forma. Se fumasse demais agora, se no conseguisse dinheiro, a outra estaria perdida. 
  Algum tempo mais e Magda se tornou mais falante. Os pensamentos clareados. Gui veio falar com Dora. 
  -- Acho que agora j d. 
  -- Pra qu?
  -- Pra vocs irem. Eu prometi s uns dias... voc disse que era s at a Magda ficar legal. Faz mais de um Ms. 
  Implorou por mais duas noites. 
  -- Pra levantar uma grana. 
  No dia seguinte, explicou a Magda que deveria ficar s. Esta recusou-se. Agora, tinha horror de ficar longe de Dora. 
  -- Vou conseguir dinheiro, volto logo - explicou.
  -- Eu ajudo. Consigo grana! - insistiu Magda.
  Dora fez que no. Saiu, passou o dia abordando os transeuntes no centro da cidade. Pedindo. Voltou, comprou mais pedras e guardou a sobra dentro do tnis. Com sorte, em mais  duas tardes conseguiria para um hotelzinho. Por pior que fosse, seria um teto. 
  -- At que pedir na rua d lucro! - riu com Gui.
  Quando voltou na noite seguinte, Magda no estava l.
  -- Ela disse que ia ajudar voc a ganhar dinheiro - explicou a mulher dele. 

  (p. 149)

  -- Mas eu pedi pra vocs tomarem conta dela!
  -- Dora, voc est muito no-me-toques com a Magda - cobrou Gui. - Ela  mais rodada que voc, esqueceu?
  -- Olha para mim! Esbravejou a mulher. -- Tenho cara de bab?
  Havia alguma coisa errada, Dora podia sentir no ar.
  Magda no voltou de manh. Nem no resto do dia. Dora rodou as ruas prximas, na esperana de que ela houvesse perdido o endereo. Ou tivesse sofrido um dos lapsos to comuns! Nem sinal. Perguntou aos garotos da rua. Um lembrava-se de alguma coisa. 
  -- Vi, sim, uma moa como voc disse, entrando num carro com dois carinhas.
  Arrepiou-se. Entrou no quarto-e-cozinha, discutiu. A companheira de Gui reconheceu:
  -- Tem dois carinhas, sim, que vivem rodando o pedao. Sei l quem so. Nem tenho obrigao de saber. A Magda tem idade pra saber dela mesma. Saiu pra rua pra faturar, e dai?
  -- Voc armou para ela sair, isso sim. Queria que trouxesse grana. Quem sabe, pegava e nem me dizia.
  -- Est me chamando de ladra.
  -- Ladrona, sim! Voc sempre foi contra mim porque tem cime do Gui!
  A outra furiosa:
  -- Cime desse panaca? Quer saber? Quem paga o aluguel aqui sou eu. D o fora. Se quiser, leve o Gui junto e faa bom proveito!
  Atracaram-se. De raiva, Dora chutou uma panela cheia de crack que estava no fogo. A mulher gritava de desespero, vendo perdido todo o material. Mesmo assim Dora no parou de brigar. Chutou a cama, quebrou os copos. S Gui conseguiu control-la, quando veio correndo da rua. Foi expulsa da casa
  -- Dora, voc ficou maluca! - gritou o rapaz.
  Nem respondeu. Passada a raiva, s conseguia chorar. Por Magda. Dois sujeitos. Seria o mesmo carro onde entrara fazia alguns dias? Lembrava-se do clima de violncia. Do medo.
  Muito mais tarde, ouviu falar de um grupo que fazia violncia explicita. Filmes em que as garotas eram surradas de verdade, estupradas. Eventualmente, aniquiladas. Vendidos no mercado negro, em muitos paises. Mas isso s soube por ouvir falar. Jamais saberia o que aqueles rapazes queriam com ela. Nem se foram eles que levaram Magda. Nunca soube de nada. Pois Magda desapareceu completamente. 

  (p. 150)

  Passou dias e noites pedindo esmola, comprando pedras de crack de garotos de rua. Procurando Magda sob viadutos, em favelas. s vezes, ouvia falar de uma garota parecida. Ia atrs. Muitos moleques de rua, mendigos, pequenos traficantes, sabiam da histria. Imaginavam ser sua irm que desaparecera. Respeitavam. Passou por situaes horrveis. Como quando foi assaltada por um bando de pivetes, que roubaram todas as suas pedras. No levaram mais porque no tinha. Em outra ocasio, chegou a ganhar dinheiro ajudando a passar maconha e papelotes de cocana num posto de gasolina. O traficante tinha um acordo com o dono. Rodava tambm pelos bares  do bairro de Vila Madalena. Fornecia papelotes.
  Inmeros freqentadores da noite j conheciam o vulto magro de Dora. Dormia onde desse, com quem aparecesse. Ia vivendo. Certa vez, viu Mnica, vestida de seda,  descer de um carro importado, acompanhada por um rapaz super bem arrumado. Quis fugir, no deu tempo. Mas a ex amiga, de quem roubara dinheiro, no a reconheceu. Perguntou se tinha hero.
  -- Tenho no - falou disfarando a voz.
  O rosto de Mnica estava se tornando seco, como se um  bicho a comesse por dentro. Mas nada disso a interessava.  Queria encontrar Magda.
  -- Era a nica pessoa que gostava de mim nesse mundo!
  Culpava-se, com remorso:
  -- Ela pediu para ir comigo. Para no ficar sozinha.
  Sentia necessidade de algum. Um amigo. J no tinha iluses. 
  -- Ningum liga pra mim. Cada um cuida apenas do que  seu.
  Nem podia ser de outra maneira. Lembrou-se de que ela mesma assaltara a bolsa da me, a de Mnica. 

  (p. 151)

  -- Tambm fui assim, s pensava em mim - concluiu.
  Algo mudara dentro dela. Antes, sua angstia era apenas para conseguir as pedras. Agora, havia alguma coisa mais. No sabia expressar com palavras. 
  Talves nunca tivesse descoberto como retomar a prpria vida. Se no acontecesse uma coisa mgica.

  16

  Estava deitada sob um viaduto,  num lugar que j se tornara seu. Era estranho. Quando comeara viver na rua, parecia que toda a cidade estava tomada. Alguns pivetes eram donos de pedaos e s ofereciam abrigo a quem era da tribo. Nunca quis se envolver com eles. J vira brigas suficiente para preferir ficar sozinha. Mas havia alguns lugares mais tranqilos. Era como viviam pessoas como as da primeira famlia que Dora encontrara. Pais de famlia desempregados, migrantes sem oportunidade.
  Para sua surpresa, at pessoas com emprego fixo dormiam na rua. Como algumas empregadas domsticas e faxineiras. Recebiam to pouco em seu trabalho que no tinham como pagar aluguel. Tomavam banho e comiam no servio. De noite, ajeitavam-se em colches ao relento. A maioria das vezes, sem o patro saber. Alguns operrios e camels tambm faziam isso. Os ltimos sofriam o diabo para proteger as mercadorias dos ladres. 
  Uma vez, conheceu o dono de uma banca de revista que escavara no cho da esquina onde tinha o quiosque. Embaixo, fizera sala, cozinha, quarto. Uma casa inteira. Conseguira gua e luz, instalados! Teve at inveja.
  -- E eu que antes s pensava em carro importado - surpreendia-se Dora. 
  Ultimamente, refugiava-se perto de duas velhas. No sabia direito quem eram. Falavam com sotaque caipira. Uma delas costumava contar que eram de famlia de fazendeiros do interior. Perderam tudo em briga de herana. Vieram para capital em busca de parentes. No encontraram nenhum. 

  (p. 152)

  -- Uns cafajestes, os meus sobrinhos - lamentava-se a mulher. 
  Mostrava um prato com borda de ouro e desenho de uma paisagem no fundo, como prova de sua condio anterior.
  -- Ficava pendurado na parede da sala!
   A outra senhora, sempre calada, abaixava os olhos quando ouvia essas histrias. Parecia morrer de vergonha. As duas pediam esmola. S assim conseguiam comer. Perto delas, Dora sentia-se mais segura, embora soubesse que no poderiam fazer nada diante de alguma violncia. Mas havia um certo calor humano junto daquelas vovozinhas to agradveis. 
  Numa dessas noites, fumava a terceira pedra. A mulheres dormiam, enroladas em cobertores, apesar do calor. O dinheiro tinha acabado de novo. Como fazia agora todo o dia, Dora perguntou-se:
  -- O que fazer?
  Lembrou-se do prato com borda de ouro que uma das velhas sempre mostrava. Devia valer alguma coisa. Teve uma sensao de desconforto ao lembrar-se do orgulho da mulher. Do que o prato significava para ela. 
  -- De qualquer jeito, algum vai acabar roubando. Que seja eu. 
  Abriu devagarzinho a sacola da mulher e tirou o prato. A luz bateu na borda de outro, iluminando a paisagem pintada na porcelana. Uma mulher de vestido comprido num banco, um cavalheiro curvado. Friso dourado. 
  Um rudo fez com que erguesse a cabea. Um velho, de  barbas brancas, cheirando a lcool, estava diante dela. O corpo coberto de andrajos. Estendia uma fruta. 
  -- Quer?
  -- Assustou-se. Ficou parada com o prato na mo. Finalmente, conseguiu entender que ele estava oferecendo a fruta. Avanou os dedos, pegou. Surpresa, descobriu que era uma pinha. Fruta cara, difcil de algum dar. No comia desde que... desde que sara da casa da me. Antes que agradecesse, o velho falou:

  (p. 153)

  -- O que voc vai fazer?
  Era como se algum tivesse tirado as palavras de sua boca. O homem acabou a cabea e reforou.
  -- Pense bem, minha neta. 
  Com a fumaa do crack dando voltas na cabea,  nem conseguiu responder. Respirou fundo, queria perguntar quem era ele. Por que a chamava de neta? Como percebia sua angstia, suas dvidas? O velho virou as costas e afastou-se. Dora  lembrou-se das histrias de seu av. O pai de seu pai, bbado, que desaparecera de casa. O homem de quem o pai falava com mgoas, pois o abandonara ainda menino. 
  -- Seria ele mesmo, meu av?
  No sabia. Quase impossvel. Hoje o av estaria muito velho. Dificilmente vivo. Seria seu av ou somente um homem que a vira cometer o furto? Teria confundido as coisas, na fumaa do crack?  Mas, por alguns segundos, aquele desconhecido fora, sim, o seu av! Quando criana, ouvira dizer que ganhar pinhas dava sorte. Acariciou a fruta, cheia de caroos. No fora um sonho, a fruta era de verdade.
  Olhou o prato de porcelana, ainda na sua mo. Sentiu uma enorme vergonha de si mesma. Como era capaz de roubar o nico pedao de felicidade daquela velha?  O que tinha se tornado, afinal? Lembrou-se Gui. Quando conhecera, queria ser jogador de basquete. Acusava o pai de no permitir. Mas ele mesmo destrura sem sonho. E Magda? Lembrou-se de Magda na ltima fase. Babando. Falando frases sem sentido. Quanto tempo demoraria para ficar assim? Ou para levar um tiro, como Elias? Para secar, como Naldo, at uma overdose? Mas acima de tudo o resto de Magda reaparecia diante de seus olhos esquelticos. Sujo. O olhar vago.
  -- Eu sou lixo.
  E, para sentir que no era to lixo assim, botou o prato de porcelana novamente  na sacola da velha, embrulhado nas roupas, como estava. Sentou-se e deu uma mordida na pinha. 
  Brotou um sentimento em seu corao.
  -- Preciso mudar de vida!
  Ultimamente se sentia to fraca! Tantas dores no corpo! Talvez fosse encontrada, levada para uma instituio. Para qu? Passaria a vida indo da casa de menores para a rua, da rua para a casa de menores... Quando fosse maior, para a  cadeia?

  (p. 154)

  -- Ah, se eu me apaixonasse por algum!
  Pura iluso, concluiu.
  -- Quem transa as pedras nunca quer ningum. No, de verdade. Pra que sonhar?
  Tentou pensar. E se deixasse de fumar? De cheirar?Arrumasse um emprego?
  Pela primeira vez, teve conscincia.
  -- Eu no consigo. Mesmo que tentasse no conseguiria. Deu vontade de chorar. Pensava ter tudo sob controle. Mas no.
  -- O bagulho  quem toma conta de mim. No eu dele.  A cabea rodava,  procura de uma soluo. Afinal, lembrou-se de algum que um dia estendera a mo.
  -- Vou ver se ainda lembra de mim!
  Mal amanheceu, reuniu as bagagens que ainda possua. De p, observou as velhas dormindo. Tranqilas, talvez estivessem sonhando com os dias suaves na fazenda. Com pitangueiras carregadas, com roms. Sentiu-se feliz por no ter roubado o prato. Ao mesmo tempo, voltava a secura na garganta. Os olhos ardiam.
  Com dificuldade, conseguiu lembrar qual era a estao de metr. Ao descer, no sabia que rua tomar. Perguntou pela igreja. L, informou-se sobre a casa do pastor.  Andou dez quadras. s vezes se apoiava na parede, de tanta tontura. Achou o endereo. A me de Elias abriu a porta, sem  reconhec-la..
  -- O que ?
  -- Sou Dora. 
  A mulher nem conseguia falar. 
  -- Voc est to diferente. 
  Quase virou as costas. Nem fora convidada para entrar. Era tudo iluso.
  -- Espere!
  A porta se abriu inteiramente.
  -- Entre,  entre. Dora, que bom que voc veio!
  Tomou um banho. A mulher ofereceu saia, blusa, roupas de baixo. 

  (p. 155)

  --  moda de gente velha, mas...
  Aceitou e entrou num banho quente, como no tomava havia muito tempo. O pastor acordou enquanto ela estava no chuveiro. Ao sair do banho, ouviu o casal falando baixinho.  Tremeu. Iria para a rua de novo?
  Nesse momento, teve certeza. Apesar da angstia,  causada pela falta de pedras, queria sair dessa. Mudar de vida. Sim, de verdade! Era como se o banho fosse uma fronteira entre a  sua vida anterior e uma nova,  que ainda no comeara. No conseguia mais pensar em voltar para a rua. Em dormir sob viadutos, pedir esmola ou aceitar um homem qualquer. Entrou na cozinha da casa modesta, com medo. Os dois estavam sentados  mesa, tomando caf. A mulher apresentou o marido.
  -- Este  o Esdras. Meu nome, acho que voc tambm no sabe!
  -- O Elias sempre me falava. Nunca esqueci. Clarice. Olharam-se. O pastor abaixou a cabea, pensativo.
  -- Quer comer alguma coisa?
  -- Vocs no vo me botar pra fora?
  Clarice sorriu.
  -- Que bobagem! Quantas vezes eu pensei em voc. Torci para que me procurasse. 
  -- No consegui fazer meu filho sair das drogas. At hoje penso onde foi que errei - disse o pastor. Se puder fazer alguma coisa por voc... vou me sentir bem. 
  -- No sou protestante. Sou catlica - explicou Dora.
  -- O importante  ajudar voc a sair dessa. Esse negcio de que todos os catlicos e protestantes vivem brigando  histria. Eu me dou muito bem com o padre dessa parquia. Depois, vamos falar com ele - avisou Clarice.
  -- Plida, Dora mal conseguia falar. A falta de crack estava batendo pesado. Sentou-se, com uma sufocao. O pastor ligou para um mdico, que morava num prdio prximo. Por sorte, ainda no havia sado para o trabalho. Veio em seguida. Deu-lhe um calmante. Aconselhou que a internassem. Parecia incrdulo.
  -- Ela est muito fraca. Chegou ao fundo do poo.
  Clarice ligou para o padre. Pediu ajuda para encontrar uma clnica gratuita. Ele veio at a casa. Devido ao calmante, Dora mal conseguia falar. Era um padre jovem, alegre. Tentou anim-la, fez brincadeiras. Deixou Dora no quarto e se reuniu com Clarice e o marido. Conversaram muito. 

  (p. 156)

  O calmante  fez efeito. Adormeceu. Quase de noitinha, foi  despertada pela mo suave de Clarice. 
  -- Dora, fizemos uma coisa... no se voc vai gostar. 
  Levantou-se, tonta. Demorou algum tempo para perceber onde estava. 
  -- Chamamos sua me. Est l na sala. 
  Revoltou-se. Como podiam cometer tal traio. Sua me, que a expulsara de casa!
  -- Encontramos o endereo enfiado dentro de uma  carteirinha... no tinha telefone. Meu marido foi at l. Conversou com sua me. Ela fez questo de vir. Foi preciso, Dora. Voc  menor. Nenhuma clnica aceitaria o seu caso sem autorizao.
  -- Vocs me traram. Alem disso, ela no quer saber de mim. 
  -- V falar com ela, Dora. Garanto que voc vai ficar surpresa. Apesar da moleza do corpo, seus olhos estavam duros. Entrou na sala com dio. Quando pudesse, decidiu, fugiria daquela casa. Melhor ficar nas ruas do que...
  Foi envolvida pelos braos da me. Cleusa chorava. 
  -- Dora... procurei tanto por voc! Pensei que nunca mais... Manteve o corpo duro. Ficou em silncio, enquanto a  me falava e falava. Paulo estava sentado numa poltrona, rgido. 
  -- Querem mostrar que se preocupam comigo na frente  dos outros. Depois, me expulsam outra vez! - pensou, com raiva. 
  O padre desligou o telefone triste. 
  -- Nada. No tem vaga em clnica gratuita. S ficando na  fila de espera. 
  Dora horrorizou-se. Sabia que no ia agentar. 
  -- A gente procura uma clnica paga. Eu dou um jeito - declarou Cleusa.
  Dora sentiu-se lograda. 
  -- Eu sei que voc no tem dinheiro, me. Pra que prometer uma coisa que no vai pode cumprir? Quer fazer bonito? 

  (p. 157)

  -- Eu dou um jeito! - afirmou Cleusa novamente.
  Paulo levantou-se. Falou calmamente.
  -- A Dora tem razo, Cleusa. Voc no tem como pagar. 
  -- Eu no disse?! - gritou Dora. -- Ela s diz por dizer. Depois me bota pra fora de casa de novo!
  Era uma situao constrangedora. Clarice, o marido e o  padre no sabiam o que fazer. Paulo deu um passo  frente, sem jeito. Tmido, com dificuldade em falar. 
  -- No caminho eu vim pensando. Eu pago o tratamento. 
  -- Como?! - at Cleusa estava surpreendida.
  Tenho alguma coisa na poupana. Vendo meu carro. Em vez de agradecer, Dora teve dio. Ela no gostava dele, nem ele dela. Por causa de Paulo fora expulsa de casa. Agora ele falava em vender o caro. O que pretendia, afinal?
  -- Eu no quero nada de voc! Sei que no gosta de mim! - reagiu Dora. 
  Paulo ficou mais firme.
  -- Voc  muito boba. Voc no tem a menor idia de meus sentimentos. Claro que no gosto de voc, do jeito que voc . Quem  que gosta?
  -- No fale assim, Paulo - disse Cleusa.
  -- Mas eu gosto da sua me. Do seu irmo. Ns somos uma famlia. Eu no quero mais  ver a sua me chorando por voc. Enquanto voc ficar assim, ningum l em casa vai ser feliz. Depois que voc se tratar, quem sabe a gente se conhece melhor, fica amigo? Um caro no  nada, se eu puder fazer alguma coisa pela minha famlia. 
  Chocada, Dora no conseguia falar. Aa falta de crack a tornava ainda mais nervosa. Lgrimas corriam pelo se rosto. Era to difcil ouvir aquilo! Mais que dinheiro, Paulo oferecia amor. 
  Amor! To difcil de aceitar!

  (p. 158)

  17

  Dessa vez  o tratamento na clnica foi completamente  diferente. No que os mtodos divergissem tanto do anterior. A mudana estava em Dora. Queria se transformar. Como algum explicara havia tanto tempo. 
  -- Se voc no ajudar, nada vai dar certo.
  Em parte, Dora percebeu, isso era verdade. Apenas a vontade fazia com que ela resistisse  dor,  ansiedade,  falta  da droga. Ao buraco que havia dentro dela. Um vazio. Como se a droga fosse uma espcie de tapume. Uma parede que cobria um lugar oco. Um pedao de Dora onde no havia sonhos, nem pensamentos. S escurido. Agora, sem as pedras, os sentimentos negativos vinham  tona. No sabia o que fazer com eles. s vezes sentia raiva de tudo e de todos. Outras, tinha crises de choro. O gesto de Paulo, a preocupao da me, os bilhetes de Andr, as cartas do pai... e at um retrato do novo irmozinho, tudo isso contava. As visitas de Clarice, do pastor e do padre tambm faziam bem. Passava horas conversando com Clarice. Nos traos da mulher percebia a doura de Elias. Lembrava-se dele com ternura. Somente um dia a me tocou no nome do filho falecido:
  -- Vocs, jovens, pensam que ns adultos somos fortes como rochas. Nada disso. A gente erra, se confunde. Acho que meu erro, e de meu marido, foi agir como se fssemos donos da verdade. Meu marido queria que o Elias fosse perfeito. Meu filho no teve coragem de expor suas fraquezas. Fomos ficando cada vez mais longe um do outro. No deixe que isso acontea com voc, nunca mais. No tenha medo de pedir ajuda.
  No tratamento, aprendeu a reconhecer certos fatos. O terapeuta explicou:
  -- Usar drogas ou lcool  uma doena. Para se curar, s cortando de uma vez. No d pra inventar trguas. Argumentar que vai provar s um pouquinho. A vontade volta mais forte. 
  Assim, Dora aprendeu que cada dia  um dia, cada ms, um ms. Cada minuto, cada hora, cada dia, cada ms, uma vitria. 
 
  (p. 159)

  Vitria sim! Chegou a data em que pde sair da clnica. Voltou a viver com a famlia. Na noite de sua chegada, Cleusa fez um jantar especial. Estrogonofe com batata palha, como ela gostava. Passada a emoo inicial, Dora notou o  constrangimento de Paulo. A hostilidade de Andr. Mesmo o sorriso da me parecia artificial.
  A sensao permaneceu nas semanas seguintes. Cleusa era exageradamente simptica. Paulo parecia ter se arrependido das palavras emocionadas que dissera anteriormente. Tambm no conseguiu  reatar as antigas amizades. Percebeu que Emlia a evitava. Ligou para a amiga algumas vezes, ela nunca podia sair. Estava sempre ocupada. Um dia encontraram-se no jardim do condomnio.
  -- Voc brigou comigo, Emlia?
  A outra, sem jeito:
  -- No...  que minha me no quer que eu ande com  voc. Desculpe.
  S descobriu o que acontecia quando encontrou Mrcia a amiga de escola que tinha se tornado domstica. Por fora das circunstncias, Dora foi estudar  noite, em um curso intensivo, para recuperar o tempo perdido. Mrcia estava, novamente, na mesma classe. 
  -- Eu ouo muita coisa - disse Mrcia. -- O pessoal do bairro espalhou que voc fazia programa. Alm desse negcio da droga. As mes se pelam de medo de voc. 
  Era horrvel, pois novamente se sentia sozinha. Os rapazes da classe a tratavam de outra maneira. Sempre obsequiosos, sorridentes. Certa noite, vinha voltando das aulas,  quando percebeu que um deles a seguia. Comearam a conversar. Na esquina, a encostou contra o muro. Agarrou-a. Ela quis se soltar, ele insistiu.
  -- Todo mundo sabe de voc.
  Deu um safano, fugiu. A experincia das ruas servia, ao menos, para se livrar de um sujeito como aquele. Chegou ao apartamento respirando forte, rosto vermelho. A me e Paulo tinham sado. Andr estava entrando. Nos ltimos tempos, o irmo ficava menos em casa. Tinha arrumado uma garota.
  -- Que aconteceu? - ele assustou-se.
 
  (p. 160)

  -- Um carinha da classe quis me agarrar.
  -- Ah!
  Andr no pareceu dar importncia ao fato. Foi para o quarto. Ela irritou-se
  -- Voc no se importa comigo!
  O irmo a encarou hostil.
  -- Pensa que ningum sabe o que voc andou aprontando? Todo mundo acha que voc no presta. Eu tenho que agentar os comentrios, as piadas. Pensa que  fcil?
  -- Mas voc  meu irmo.
  -- S por isso sou obrigado a passar a vida suportando suas loucuras? 
  Andr desabafou. Falou sobre o tempo em que ela estivera mergulhada nas drogas. Das vezes em que abria a janela da sala para tirar o cheiro, s para a me no perceber. Da vergonha, quando ela sumiu. Mais que isso. Da Mgoa por estar sempre em segundo plano. 
  -- Voc deu tanto problema que ningum pensava em mim. Eu tive que me virar sozinho. 
  Dora percebeu que Andr construiu uma vida  parte, onde ela no tinha lugar. Onde ela, era quase um segredo, a ser escondido. Foi para o quarto, pensou em Paulo, na me. Acontecia o mesmo com eles. Vivera coisas que jamais teria coragem de contar a me ou ao padrasto. Como se tivesse construdo uma muralha que a separasse dos outros. Como se, apesar dos abraos, da ajuda de Paulo e da tentativa de formar uma famlia, tudo fosse uma espcie de teatro. Sim, um teatro onde cada um representava seu papel, mas onde os sentimentos no eram de verdade. 
  Teve vontade de ir embora novamente. Largar tudo. Cair nas ruas. At... Sentiu um calafrio. At o qu? At se transformar no lixo que era havia poucos meses?
  -- Se pelo menos eu reencontrasse a Magda! Ela ia entender o que estou sentindo!
  Tomou coragem para procurar a amiga. Sentiu um fio de esperana. Quem sabe? Chegou a ligar para sua casa vrias vezes. Sempre a mesma resposta dbia.
  -- No est.
  -- Sabe se ela foi encontrada? Est morando a de novo?

  (p. 161)

  O silncio pesava do outro lado do telefone. Davam nova resposta monossilbica. Desligavam. Um dia decidiu ir at a manso. Pediu para falar com a governanta. Apesar da m vontade do segurana, a mulher veio at o porto.
  -- Nunca mais a gente soube dela. Acho que o pai at se arrependeu de ter expulsado a filha, contratou detetive, mas...
  A mulher assumiu ar de cumplicidade:
  -- Temos ordem de no contar a histria para ningum. Fingir que ela est viajando. Agora, tem uma coisa... voc no conta pra ningum?
  -- Pode dizer.
  -- J vi o patro falando ao telefone, muitas vezes. A irm e a me tambm. Com um mdico. Tive a impresso de que ela pode estar num hospcio. E eles no querem que ningum saiba.
  -- Tem certeza?
  -- Certeza eu no tenho de nada!
  No saber era ainda mais triste. A angstia por Magda aumentou seu sentimento de desolao. s vezes, no tinha coragem de sair da cama. S Clarice, a  me de Elias, era capaz de ouvi-la sem preconceitos.
  --  como se voc tivesse demolido uma casa, Dora. Agora precisa reconstruir. Sei que  difcil - comentou Clarice.
  Foi quando aprendeu a segunda lio, definitiva,  para continuar limpa. O mundo no  um conto de fadas, nem as coisas se resolvem num passe de mgica. Precisava criar uma nova vida.
  Mas por onde comear? Teve esperanas quando encontrou Tigre na sada da padaria. Cumprimentaram-se, sem jeito.
  -- Faz tempo, hem? - ele sorriu. --  Mas voc continua bonita.
  Percebeu os olhos luminosos do rapaz pregados nela. Quem sabe, se ele a convidasse para sair? No seria um jeito de ...
  Mas, por trs do sorriso de Tigre,  havia uma expresso diferente.
  -- A gente podia se ver qualquer hora. Sair, beber alguma coisa - convidou Tigre.
  -- Eu s bebo refrigerante...
  Nesse instante, uma garota aproximou-se. Sorriu, com cimes. Pegou o brao de Tigre. 
  -- Vamos, amorzo?

  (p. 162)

  Viu que ele ficou sem jeito. Apresentou a namorada, que a olhou com desconfiana. Saram. Sentiu uma raiva danada. Ento, era assim! O passado era passado. Se Tigre alguma vez sentira interesse por ela, agora era s outra coisa. Ele a classificava como uma garota boa para sair, mas no para nada mais profundo. Novamente teve vontade de desistir de tudo. Fazia o mximo para mudar, mas parecia to pouco para os outros. At quando ia continuar se sentindo puro lixo?
  Teria desistido se no tivesse ningum para conversar. Mais que nunca, apoiava-se em Clarice. A mulher a aconselhou a arrumar emprego. Seria uma forma de conhecer gente nova. De construir alguma coisa. Fez  fichas em vrias lojas. Quando o Natal se aproximou, Clarice e o padre falaram com  conhecidos. Conseguiu um bico de vendedora temporria numa butique de um shopping. 
  -- Mas voc ainda est se recuperando! Comentou a me.
  --  s por um ms.
  Gostou. Era timo sentir o cheiro de roupa nova. Escolher peas nas araras cheias de lanamentos. Aconselhar os clientes.
  -- Esse jeans ficou bonito em voc, bem justinho.
  A gerente comentou:
  -- Quem sabe, no ano que vem voc continue com a gente. Vai indo muito bem!
  Ganhava pouco, mas se sentia realizada. Fez amizade com as colegas da butique e outras vendedoras do shopping. Era bom poder conversar sem que seu passado flutuasse no meio das palavras. Conheceu rapazes. Muitas vezes era convidada para sair. Nunca aceitava. Mas freqentemente, depois do trabalho, ia com as amigas ouvir msica, danar. Instintivamente, evitava  amizades mais profundas e namoros.
  Chegou a cruzar com colegas da antiga escola luxuosa. De Magda, ningum tinha notcia. Algumas das amigas que reencontrou abaixavam a voz ao falar dela.
  -- Sou a ltima pessoa no mundo que sente saudades da Magda - pensou Dora. 
  Certa vez, voltou para casa tarde da noite. Do banco do nibus, viu um vulto esqulido remexendo uma lata de lixo e teve certeza. Era ela! Deu sinal para parar, frentica. Correu para a porta. 

  (p. 163)
  
  -- Abra,  um caso importante! -  pediu para o motorista.
  -- S no ponto.
  O nibus se arrastou pelo trnsito. Desceu e voltou correndo. Ningum. No havia mais ningum perto do lixo. Correu para a esquina seguinte, divisou o vulto andando, j longe. Gritou.
  --  Magda. Pra, Magda, espera!
  Correu. O vulto correu tambm. Dobrou a esquina. Quando virou, a rua estava vazia. Verificou as portas de garagem fechadas. Os jardins de prdio. Perguntou a dois porteiros. No, ningum tinha visto. Chegou em casa chorando. O jantar esperava no fogo para ser esquentado. Preferiu se deitar sem comer. Dali a pouco, Cleusa entrou no quarto.
  -- Voc estava chorando?
  Estendeu os braos, afundou no peito da me.  Foi um gesto espontneo, depois de muito tempo. Tentou falar sobre Magda. A me fez um esforo para consolar.
  -- Talves no fosse ela. Estava escuro.
  -- Era ela, sim!
  Timidamente, a me comeou um cafun nos seus cabelos. Ela estranhou o peso da mo na cabea. Depois, abandonou o corpo. A cabea resvalou para o colo. Parou de chorar devagarzinho. Havia muito tempo que no se sentia to perto da me!
  Depois que ela saiu, ficou na cama, pensando. Por que Magda era to importante?
  -- Ela me fez descobrir uma coisa boa dentro de  mim!
  L dentro, ainda sentia o velho vazio. Uma vontade de se perder de si mesma. A vida parecia mais fcil quando usava o crack. Era difcil lidar com os sentimentos. A hostilidade do irmo, o afastamento dos amigos, o desprezo do Tigre. Mesmo o carinha da me provocava uma emoo estranha. Angstia. Dava vontade de usar droga de novo. S um pouquinho. Arrependeu-se, imediatamente!
  -- Voc nem devia pensar nisso! - censurou-se.
  Certo dia, na butique, notou um rapaz que a olhava de longe. Sorria. Alto, atltico. De terno, o prprio executivo de sucesso. Demorou um pouco para saber quem era. S quando ele gritou seu nome, teve certeza.
 
  (p. 164)

  -- Naldo!
  Saiu correndo para o corredor do shopping. Abraaram-se. 
  -- Eu pensei que voc... falaram de overdose, Naldo.
  -- Fui parar no hospital. Quase dancei. Fiquei internado, meses. Dei sorte, me salvei. Passei um tempo no interior. Lembra-se do meu primo? Casou, engordou. Virou fazendeiro. 
  -- E voc?
  -- Voltei. Meus pais reformaram o apartamento. Meu tio me ajudou a arrumar trabalho. Estou no mercado de aes.
  Ele ajeitou a gravata. 
  -- Virei homem srio.
  Riram muito, evitando tocar no passado. Era comovente encontrar Naldo. Soube notcia de todos os velhos amigos. Mnica, que a abrigara por uns dias, fora viver em Amsterd. Gui sumira completamente. Isso ela tambm sabia. Nem a famlia tivera mais notcia. Talvez estivesse preso. Ou no Rio de Janeiro, para onde muitas vezes pensara em se mudar. Para surpresa de Dora, Naldo e Ed haviam se tornado grandes amigos.
  -- Foi por sua causa. Ele queria achar voc, Dora. Acabou me achando. 
  -- Ele est bem? A doena no...
  -- Entupido de remdios, mas vai levando.
  A gerente fez sinal. Precisava atender um cliente. Naldo convidou.
  -- Sbado, no apartamento, tem uma festinha. Vai l. A gente fala tanto em voc! O Ed at foi no seu prdio uma vez.  Disseram que tinha sumido. E agora... puxa, como voc est linda!
  -- Vou sem falta - prometeu Dora. - Agora preciso ir.
  Ele curvou-se, beijou-a nos lbios de despedida. Sentiu um arrepio.
  Dentro, as amigas da butique brincaram. 
  -- Que gato!
  Preparou-se para a festa com o corao mais forte. Naldo sempre flertara com ela. Quem sabe? Para a me, mentiu de leve. 
  --  uma festa da turma da loja. Volto cedo.
  Sentiu uma emoo estranha ao descer  diante do prdio onde tantas coisas tinham acontecido. Ao entrar no apartamento, tomou um susto. Estava lindssimo. Todo pintado de branco. A cozinha com um balco para a sala. Sofs modernos, cadeiras de couro  pretas. Quadros na parede. Velas acesas. A msica suave. Gente bem vestida.

  (p. 165)

  -- Dora!
  Ed veio em sua direo. Bem mais magro, mais bonito.Abraaram-se. Olhou em torno, ansiosa. Naldo se destacou de um grupo. Envolveu-a carinhosamente. Explicou:
  -- Que bom que veio! A festa  caretona. Tem muita gente da empresa. Executivos. Mas a comida  boa.
  Conversaram bastante. Cada um contou sua parte dos acontecimentos. Ed fora internado vrias vezes. Naldo trabalhava dia e noite. Depois do susto, resolvera apostar na vida profissional.
  -- Estou crescendo depressa. 
  Experimentou o peixe com molho branco. Uma delcia. De sobremesa, panqueca de sorvete com morangos. Notou que Ed comia pouqussimo. Estranhou. Ia tocar no assunto, mas decidiu ir ao banheiro primeiro. Estava cheio. Esperou bastante. Duas garotas saram de dentro, juntas. Assustou-se. J conhecia o lance, do passado. Gente junta no banheiro s podia significar uma coisa. Entrou no banheiro, pensativa. Ao sair, notou que Naldo a procurava. Ele aproximou-se, carinhoso.
  -- Vem pra c.
  O toque suave de Naldo era suficiente para convenc-la. A atrao que estava pendente entre eles podia, finalmente, acontecer. Ele a puxou para o quarto. Sentiu seu brao no ombro, gentil. Amoroso, at. S ento viu.
  Sentados na cama, em torno de um espelho, Ed e vrios convidados faziam carreiras de cocana. Esquentavam num espelho e cheiravam, uma atrs da outra. 
  -- Esta aqui  especial - disse Naldo. -- Purssima.
  Comprei em sua homenagem.
  Nem conseguiu responder. Aproximou-se da cama,  atrada pelas carreiras brancas como acar. A mo de Naldo a impelia com doura. Percebeu que oferecer a coca para ela era uma espcie declarao de amor. Sentou-se na cama. 
  -- Um lugar para a convidada de honra - disse Naldo.

  (p. 166)

  As pessoas se afastaram. Uma garota a olhava com inveja. Os outros a observavam com respeito. Dora sentiu-se especial. Ed estendeu o canudinho. Ela pegou. Levou em direo ao nariz. 
  -- Uma cheiradinha s... que importncia tem?
  Nesse instante, lembrou-se de uma ocasio, havia muito tempo, naquele mesmo quarto. Naldo, Gui, Emlia e outros amigos do passado. A coca fora oferecida em seu aniversrio. Tambm se sentira especial. Ento, surgiu a conscincia.
  Aquele era um mundo de escurido exercendo seu fascnio. Uma gigantesca teia de aranha agarrando moscas pelo visgo. Tinha conhecido a dor, a sujeira e a podrido. Mesmo assim, tudo aquilo exercia um fantstico magnetismo. Um chamado.  Havia muito tempo, ouvira contar uma lenda grega. Como era mesmo? Ah! Eurdice, a amada de um heri, Orfeu, estava morta. Desesperado, Orfeu foi at o Inferno. Conseguiu que o Deus dos  infernos, Hades, a devolvesse  vida. O deus infernal imps apenas uma condio. Eurdice seguiria atrs dele.  Orfeu no poderia voltar a cabea para seu rosto at chegar  superfcie. O heri apaixonado aceitou. No caminho, ouvia os passos atrs de si. Seria ela mesma? Como estaria? Virou o rosto. Por um instante, vislumbrou Eurdice, no esplendor de sua beleza. Ouviu-se um estrondo. A promessa fora rompida. As foras infernais sugaram Eurdice, para sempre. Por toda a eternidade. 
  No era a mesma coisa com a droga? Se cheirasse agora, cometeria o mesmo erro de Orfeu. Porque o fascnio daquele mundo a sugaria, como sugou Eurdice. No podia olhar para  trs. Deixar que aquele fascnio a arrebatasse. Era preciso fugir. Recusar o mundo da escurido. Remexeu-se na cama. Naquele mundo tinha amigos, como Naldo e Ed. Poderia amar Naldo. Casar-se com ele, quem sabe? Pensou no futuro. Naldo estava interessado, sem dvida. Ficariam juntos. Seriam felizes. Sempre tivera uma queda por ele. Quanto tempo duraria esse conto de fadas? At faltar  a coca, o crack, fosse o que fosse. Logo seria preciso mais dinheiro. Brigariam. Venderiam os mveis. Finalmente, venderiam a si prprios. Voltaria a ser um vulto na escurido. Vislumbrou o vulto na lata de lixo. Lembrou-se de Magda. Lembrou-se de si mesma, embaixo do viaduto, roubando o prato de porcelana da velha. 

  (p. 167)
 
  Todos esses pensamentos aconteceram num segundo, com a velocidade que s os pensamentos podem ter. Abandonou o canudinho no espelho. Notou que a observavam com surpresa. Levantou-se. A garota que a olhara com cimes  pegou o canudinho. Cheirou a carreira toda. 
  -- Fica pra mim.
  Saiu do quarto, envergonhada. Sentia os olhos pregados em suas costas. Viu as pessoas na sala por outro prisma. Notou a animao artificial. Os risos descontrolados. Eram  executivos, universitrios, sim. Gente que vista de longe  tomada como exemplo. De perto, notou os narizes vermelhos. Os discursos descontrolados. Quando chegou na porta, a mo de Naldo tocou seu ombro.
  -- Dora, que foi?
  -- Naldo, no d. Pra mim, no d, nunca mais.
  -- Pensei que voc sabia se controlar.
  -- Quem  que sabe, Naldo? Voc? At quando?  At cair duro de novo?
  Quase tmido ele respondeu emocionado.
  -- Dora, fique. Eu prometo... eu prometo largar aos poucos. Eu gosto de voc. Sempre achei que a gente podia se amar. Seria bom. Eu quero que voc fique.
  Doa tanto que quase nem conseguia falar. Queria acreditar que era verdade. Amar Naldo. Mas no cometeria o erro de Orfeu. No olharia para trs.
  -- Naldo, no d. Voc no vai largar nunca mais. At.
  Partiu. Se ficasse mais um segundo, no conseguiria deix-lo.
  Doa tanto! Nem quis caminhar at o nibus. Pegou um txi, gastando quase todo seu dinheiro. Precisava se afastar o mais depressa possvel. Mais tarde, em seu quarto, sozinha, chorou e chorou.
  -- Eu sinto falta de amor!
  Pensou em Tigre. Durante anos pensava que ele estaria sempre  espera, para quando decidisse. Da ltima vez, fora uma decepo. Soubera, por uma colega de classe, que ele estava sozinho novamente. E que ia prestar vestibular para  Direito. Entre ela e Tigre tambm havia alguma atrao. Um sentimento pendente.

  (p. 168)

  -- Mas agora ele pensa coisas horrveis de mim. No tem mais jeito. 
  Uma semana antes do Natal, Tigre apareceu na butique. Uma vendedora ia se aproximar, Dora fez um gesto.
  --  conhecido meu.
  Cumprimentaram-se, sem jeito. Dora notou que ele hesitava, como se quisesse dizer alguma coisa. Tigre pediu para experimentar um jeans e uma camiseta. Foi para o provador. 
  -- Vem ver. Acho que ficou legal - ele chamou.
  Dora aproximou-se. A camiseta agarrada, os olhos luminosos. Tigre estava muito bonito. Ele aproveitou e perguntou que horas ela saa. Disse que ia ao cinema fazer hora. Depois a esperaria no quiosque do caf. Ento, mandou empacotar a compra.
  Passou as horas seguintes com os sentimentos conflitantes. Poderia ir embora sem passar pelo quiosque. Mas no valia a pena ver no que dava? E se ele viesse com ar de desprezo, como da outra vez? Ao sair, tomou coragem.
  -- Ainda bem que voc veio - disse Tigre. - Eu queria falar com voc. 
  -- Diz, o que ?
  -- Topa sair comigo no fim de semana?
  -- Depende.
  -- Do qu?
  -- No sei se voc tem cabea pra me entender, Tigre. 
  -- Em que sentido? 
  -- Sei muito bem o que voc pensa de mim. O que todo mundo pensa. Mas eu no estou a fim de sair s pra ficar junto. Minha vida j se complicou demais.
  Tigre ficou pensativo algum tempo.
  -- Tambm, no vai me dizer que virou santa.
  Ela deu um passo para trs, decidida.
  -- Tigre, eu estou tentando levar minha vida de um jeito legal. Voltei a estudar, se tudo der certo o ano que vem eu vou  prestar vestibular. A dona da butique disse que talvez eu possa ser  contratada de novo depois das frias. Tenho direito a viver  a minha vida. Agora, se a sua cabea est cheia de lixo sobre mim, eu quero distncia.
  Preparou-se para ir embora. Tigre impediu
  -- Desculpa, Dora. Sabe, teve uma poca que eu fiquei super afim de voc. Quando voc aprontou, deu raiva. Eu tinha um sentimento esquisito, como se voc tivesse me trado. Embora nunca tivesse acontecido nada entre a gente. Mas eu nunca tirei voc da minha cabea. 

  (p. 170)

  -- Mas voc tem preconceito, no tem? Tem medo do que seus amigos vo dizer. Da minha fama.  pena. Mas eu no estou disposta a passar a vida toda pagando, pagando e pagando. 
  Ele abanou a cabea, confuso. 
  -- No, no...  difcil saber o que eu sei. Superar tudo que passa pela cabea da gente. Ao mesmo tempo... eu continuo... voc sabe. Tem uma coisa em voc que mexe comigo. 
  Dora respirou fundo. 
  -- Desta vez sou eu que convido, Tigre. Vamos sair no fim de semana. 
  Ele sorriu, espantado. 
  -- Que mudana foi essa?
  -- A gente pode bater papo. Se conhecer. Quem sabe?
  Naquela noite, antes de adormecer, Dora ficou horas pensando, Nos amigos do passado, nos sonhos para o futuro. Descobriu que tinha sonhos novamente! Pensou tambm como seria amar algum sem que a droga estivesse presente em cada beijo. Pensou em Tigre.
  No dia do encontro, aprontou-se horas antes. Esperou na sala, vendo televiso. Cleusa e Paulo a encaravam curiosos. Notou que a me tinha medo de fazer  perguntas. Andr decidiu:
  -- Com quem voc vai sair, Dora?
  -- Com Tigre. 
  Percebeu o olhar de surpresa do irmo. Por entender de mecnica, carros e motos, Tigre era super-respeitado pelos garotos mais novos, como Andr. Sorriu com uma sensao de vitria. Quem sabe, com o tempo, o irmo agisse como Tigre e tentasse entend-la.
  O interfone tocou. Era Tigre chamando na portaria.  Despediu-se de todos e desceu as escadas correndo. Ele estava l,  sua espera. Dora sentiu o corao bater mais forte.
  Agora sim estava comeando uma vida nova! 
  
